Nota prévia
Em termos aproximados os resultados eleitorais em França são os seguintes:
A Esquerda, Unida dentro da Nova Frente Popular, aparece como a primeira força política com pelo menos 193 Deputados. La France Insoumise (LFI) continua a ser a principal força da esquerda, mas encontra-se agora lado a lado com os representantes eleitos do Partido Socialista… A repartição é, para já a seguinte: 71 deputados France Insoumise (LFI) +6 deputados ex-France Insoumise+ 65 deputados do Partido Socialista + 34 deputados Ecologistas+ 9 deputados do Partido Comunista + 6 deputados do Ultramar.
Em conjunto, a coligação presidencial Ensemble (constituída por Renaissance, Modem, Horizons) ocupa o segundo lugar, com pelo menos 165 deputados eleitos, sendo a maioria ligada ao partido de Macron, Renaissance: Renaissance (104 deputados), Modem (33 deputados), Horizons (35 deputados) + Diversos (3).
O Rassemblement National e os seus aliados somam 143 lugares.
Os republicanos e a direita reúnem 55 Deputados (39 deputados Os Republicanos+16 deputados Outra Direita).
Vinte e quatro horas depois fico sem saber quem é que, de facto, ganhou as eleições em França. O povo, Macron, a Extrema-Direita, a Direita, a Esquerda? Vejamos sucintamente:
- O povo? Esse certamente que não, esse vai engolir, depois de outubro, a austeridade que a União Europeia lhe vai impor sob pena de o governo cair como caiu Truss. Lembram-se dela? E isso será feito com um governo Frente Popular ou com outro. Nem será por acaso que se quer já fazer o mesmo a Mélenchon que Starmer fez a Corbyn; acusá-lo de putinista, de antissemita, para depois pô-lo a andar.
- Macron? Não. Este, este fica incapaz de assumir o papel de Presidente da República, tal como ele o sonhou.
- A extrema-direita? Não brinquemos, a extrema-direita é Zemmour e é Renaissance de Macron. Subalterno ou inexistente é o nosso Zemmour e o seu partido Reconquête, e o partido de Macron, Renaissance, talvez esteja agora a assinar a sua ida para o caixote do lixo da política em França. Renaissance, é um partido que terá nascido do nada, por obra de François Hollande, pode-se agora transformar em nada por obra de Macron.
- A Esquerda? Mas para que esta exista politicamente é necessário haver uma organização, estruturas de militantes, programa politicamente debatido pelos seus militantes e por eles defendido. Sem isso, Kapput! E isso não existe. E a esquerda de que agora se fala com tanto orgulho é composta pelos deputados de France Insoumise (Mélenchon)+ deputados Ex- France Insoumise+ deputados do Partido Socialista+ deputados do Partido Comunista+ deputados do Ultramar. Que unidade nesta amálgama
- A direita de Marine Le Pen ? Esta ficou em terceiro lugar quando sonhava com o primeiro lugar.
A ideia que tudo isto me dá é que dentro de um ano teremos a Nova Frente Popular desfeita e a imagem da esquerda enquanto esquerda completamente destruída. Costuma-se dizer com Hegel e Marx que a História se repete: primeiro como tragédia e depois como farsa. Aqui penso na inversão dos termos que a história se repete primeiro como farsa (estas eleições), depois como tragédia (a explosão do sistema político francês).
Aqui vos deixo duas pequenas notas, dois comentários aos resultados de ontem. E estes são elucidativos:
- Hugo Drochon, Macron dinamizou a Política Francesa- mesmo com Le Pen neutralizada, outras ameaças já estão à espreita
- Regis Castelnau, Quando a esquerda ainda vota Macron (n.ed. a publicar em separado)
E isto num total de tempo de leitura de 6 minutos.
Júlio Mota
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
3 min de leitura
Macron dinamitou a Política Francesa – mesmo com Le Pen neutralizada, outras ameaças já estão à espreita
Publicado por
em 8 de Julho de 2024 (original aqui)

“Viva perigosamente! foi o conselho de Nietzsche aos seus seguidores, aos “bons europeus”, aos “legisladores do futuro”. Ele queria que eles enviassem os seus “navios para mares inexplorados”, para “viver em guerra” com os seus pares e com eles mesmos. Esse era o segredo, como ele escreveu em The Gay Science, “para colher da existência a maior fecundidade e o maior prazer”.
Desde que convocou eleições antecipadas a 9 de junho, Emmanuel Macron vive perigosamente. A decisão foi tomada depois de a sua coligação centrista ter sido derrotada para segundo lugar pelo Rassemblement National (RN), que obteve mais do dobro dos votos nas eleições europeias. Hoje, à medida que se torna claro que a ameaça da RN foi neutralizada por um aumento inesperado da esquerda francesa, parece que a aposta valeu a pena.
Mesmo com o seu partido Ensemble em segundo lugar, os resultados podem certamente ser lidos como uma vitória parcial para Macron — um político, devemos lembrar, que foi eleito pela primeira vez para enfrentar a onda populista de extrema-direita. Em 2017, Macron ganhou a Presidência francesa abalando o sistema francês ao bater Marine Le Pen por 66% contra 34%. Cinco anos depois, ele repetiu o feito, ganhando 59% dos votos. No entanto, dois meses depois, a sua maioria absoluta na Assembleia Nacional, a câmara baixa do Parlamento francês, foi transformada em maioria relativa nas eleições legislativas. No ano seguinte, a sua popularidade começou a diminuir, em grande parte o resultado de dois projetos de lei: um aumento da idade de passagem à reforma de 62 para 64 anos, o outro endurecendo a política de imigração.
O primeiro foi aprovado por decreto e o segundo com a ajuda de votos conservadores e até de extrema-direita. Antes dos resultados de ontem, havia preocupações de que, ao tentar apaziguar a extrema-direita, Macron pudesse tê-la encorajado. Na verdade, foi Jordan Bardella, o novo líder do Rassemblement National, que chamou ao projeto de lei de imigração de Macron, uma “vitória ideológica” para o seu partido. Trouxe à mente outra das advertências de Nietzsche, desta vez em Beyond Good and Evil: “aquele que luta com monstros deve ter cuidado para que não se torne ele próprio um monstro. E se alguém contemplar por muito tempo para um abismo, também o abismo o contempla a ele”. Ao assumir as posições da extrema-direita para tentar enfrentá-la, parecia que Macron corria o risco de se tornar ele próprio um monstro.
Isolado dentro de seu próprio partido, no entanto, Macron parece ter seguido o conselho de Nietzsche de estar “em guerra” com os seus pares e consigo mesmo. Além do seu círculo íntimo, a maior parte do seu partido não sabia que ele iria convocar eleições antecipadas – nem mesmo o seu primeiro-ministro em exercício, Gabriel Attal – colocando-os numa situação difícil. O seu ex-Primeiro-Ministro Edouard Philippe também não foi informado: um político ainda muito popular que lidera uma fação dentro do partido de Macron, Ensemble. Edouard Philippe afirmou que a decisão de Macron de convocar as eleições significa o “fim do Macronismo”.
O que irá acontecer a seguir é uma incógnita: com um parlamento pendurado aparentemente no horizonte, apoiado pela Nova Frente Popular (NPF), estamos então nos “mares inexplorados” que Nietzsche perigosamente aconselhava. Será formado um governo de unidade nacional, abrangendo a centro-esquerda (Socialistas e verdes) e a centro-direita (republicanos)? Embora a construção de coligações fosse uma característica da terceira e da quarta Repúblicas, a França não tem a experiência política para o fazer desde que Charles De Gaulle estabeleceu a Quinta República em 1958 com uma presidência forte.
O que sabemos é que, apesar de não perder para o RN, Macron encontra-se numa posição mais fraca do que antes das eleições europeias. Embora a Presidência francesa e, por conseguinte, Macron mantenham uma mão firme nos Assuntos Externos, a política externa de Macron será enfraquecida. Macron tem estado na vanguarda da tentativa de construir a força europeia em face da agressão russa, para fazer a Europa “ser expressão de uma única vontade”, como Nietzsche escreveu em Beyond Good and Evil sobre o tema da “atitude ameaçadora” da Rússia e a necessidade de uma Europa “igualmente ameaçadora”. Na mesma linha, Macron deixou claro que está aberto ao envio de tropas terrestres francesas para a Ucrânia, para horror dos seus aliados ocidentais, e prometeu a Zelensky a entrega de mísseis e aviões franceses para ajudar no esforço de guerra. Jean-Luc Mélenchon da esquerda, pelo contrário, apelou repetidamente aos EUA para não “anexarem a Ucrânia à Nato”. Para ele, laços mais estreitos com a Ucrânia não são certamente uma prioridade.
Assim, Macron, que tem mais três anos para concorrer à presidência, poderá em breve encontrar-se noutra situação complicada. Em última análise, será então que ele será julgado. No seu semiautobiográfico Ecce Homo Nietzsche escreveu:
“Conheço o meu destino. Um dia, o meu nome será associado à memória de algo tremendo — uma crise sem igual na terra, a mais profunda colisão de consciência, uma decisão que foi conjurada contra tudo aquilo em que se tinha acreditado, exigido, santificado, até agora. Não sou homem. Sou dinamite.”
O nome de Macron, é claro, pode não estar “associado à memória de algo tremendo”. Mas é justo dizer que, desde que chegou ao poder em 2017, ele dinamitou o sistema político francês, pondo fim ao domínio dos antigos partidos socialistas e republicanos. Pouco depois de dissolver o parlamento, ele disse: “joguei a minha granada sem pinos sob as pernas deles. Agora vamos ver como é eles se vão comportar”. Se Macron explodiu o sistema político francês, em breve saberemos se ele também terá explodido nesse processo.
Hugo Drochon é historiador e autor de Nietzsche’s Great Politics.



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