CARTA DE BRAGA -“há dias e dias!” por António Oliveira

 

O destino do homem está projectado para momentos felizes –toda a vida os têm– mas não para eras felizes
Nietzsche

Charles Bukowski, o escritor e poeta norte-americano nascido na Alemanha, a que muitos chamaram o ‘escritor maldito’, por ter começado a escrever com uma escrita de índole obscena, em ambientes e relações miseráveis, e por garantir a miúde, ser a civilização uma causa perdida, devido à falta de humanidade, ao cinismo e à indignidade, de um capitalismo desbocado que nos assedia há muitos anos.

Mas, dizia Bukowski, pior ‘Agarramos as nossas inesgotáveis reservas de hipocrisia, fingimos ignorar a dimensão social do ser humano, o que nos transforma em seres doentes de soberba e egoísmo, por desprezarmos valores imprescindíveis como a tolerância, a convivência e o entendimento’.

Em jeito de resposta, Luis Garcia Montero, ensaísta, poeta e catedrático de Literatura, acrescenta ‘O neoliberalismo sabe que gera desigualdades, incertezas e desamparos, mas tem meios para evitar protestos contra os culpados, desviar os objectivos do mal-estar, cultivar a desconfiança frente a uma política democrática, e legitimar o autoritarismo’. Parece estarmos a assistir a um drama à maneira de Stephen King, em que as vítimas são aliadas do ‘mau’, e os martírios ‘tomados’ para salvação.

Também não podemos esquecer a importância da digitalização desta época, até pelas palavras do filósofo e sociólogo Daniel Inneraryti, ‘Um mundo imaginado pela razão algorítmica, orienta-se pela promessa de satisfazer as nossas preferências, uma vez que se supõe capaz de as identificar com exactidão, sem qualquer vontade de prescrição autoritária. Tenho a suspeita de que, na nossa vontade política, assim concebida, sejam outros a decidir o que devemos preferir, e se dê por definitivo o que já preferimos no passado’.

O filósofo sul-coreano e professor na Alemanha, Byung Chul Han, diz as coisas de uma outra maneira que também apela aos nossos conhecimentos e consciência, ‘As pessoas presas pelas informação; elas mesmas se colocam as grilhetas, ao comunicar e produzir informação. A prisão digital é transparente (…). Na prisão digital, como zona de bem-estar não há resistência ao regime imperante. O like exclui toda a revolução’.

E, entre todas estas coisas, com ou sem os updates que lhe quiserem introduzir, há milhões de pessoas com um trabalho tão miserável, que têm dinheiro para comer, mas nem cheta para pagar o aluguer de um quarto. Além de tudo o mais, a cidade é feroz e impiedosa, pois fabrica e expõe solitários e também os obriga a coabitar e confraternizar. Marcará talvez o final de uma civilização, a coincidir com o das suas próprias histórias, um misto de realidade, fantasia e desespero, a forçar o achamento de uma qualquer maneira de sobreviver.

E não se incluem aqui todos aqueles a quem, ano a ano, vão aumentando a idade da reforma. Poderá alguém com mais de 65 anos, continuar com vontade de trabalhar? Quantos são os que gostam do seu trabalho, e têm de se deslocar quilómetros para uma tortura diária que os afasta de casa e da família, quando a há? E há quantos anos nem sabem o que é ter amigos?

Luís Castro Mendes, numa das suas crónicas no DN, também aponta esta incongruência ‘A História deixou de seguir aquela linha ascendente de progresso e desenvolvimento, com que sonhavam uns, mas também não entrou no tempo cíclico de ascensão e decadência que imaginaram outros. Às vezes penso que a História anda um bocado aos bordos, com uma bebedeira tecnológica que a faz parecer desumana; outras vezes penso que tudo se inscreve, com o rigor de um puzzle, num quadro que escapa à nossa visão’.

O jornalista e escritor Enric Gonzaléz, até menciona algumas alternativas, infelizmente poucas e raríssimas, ‘Alguém terá de dedicar-se a provar colchões e, a sério, esse emprego existe. São pessoas que dormem durante a jornada laboral, e depois escrevem um relatório de como se sentem depois daquele descanso’. Também aponta outro emprego bem raro, o provador de brinquedos para adultos, que não explica por questões de ética profissional, dizendo apenas que entrevistara uma dessas pessoas, que ‘praticava tal auto-satisfação, mas só por haver uma factura com IVA’.

Mais adianta que outros empregos raros e prazenteiros estariam a cargo das Nações Unidas, como o das pessoas que integram o comité que indica a celebração de cada dia mundial. Além do dia do Ambiente, ou o dos Oceanos, lembrou que na Alemanha também se celebra o dia dos tumores cerebrais e que, 9 e10 de Maio, eram os dias da genebra e do tricot, mas não apontou onde.

Anotação – O ‘Le Monde’ do passado domingo noticiava ‘Os funcionários dizem-se prontos a desobedecer, na hipótese de a extrema direita assumir o comando do país’. Um texto difundido por altos cargos na educação nacional, já tinha recolhido de 3.171 assinaturas na manhã de sábado dia 6, justificava a atitude por se recusar a aplicar Medidas que contrariem os valores da República. Não seremos executores de uma política contrária aos princípios que fundamentam a nossa vinculação ao serviço público de educação’, explicam os autores do texto rubricado, entre outros, por Jean-Charles Ringard, inspector-geral honorário da instituição.

A iniciativa reflecte também as questões que atormentam milhares de funcionários públicos ‘Caso a extrema direita assuma o controlo do país, será possível libertar-nos das directivas que ela dirigirá aos funcionários públicos?

A terminar, uso uma afirmação de Luis Garcia Montero, catedrático Literatura, poeta e ensaísta, escrita já este mês ‘A Europa é o que nos resta, mas andam mal as coisas, quando a ilusão democrática começa a ser um mendigo que fica sem tecto

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

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