EVA CRUZ – OS TÃO BADALADOS RANKINGS

 

Valho-me de um artigo que publiquei há vários anos no Jornal A Página da Educação. Infelizmente, o artigo ainda se mantém actual. Os leitores serão diferentes e por isso o reescrevo quase na íntegra, com ligeiras alterações.

Há já muito tempo que perdi a vontade de comentar sobre Educação, apesar de me sentir sempre ligada ao assunto. Porém, o sonho que alimentava o espírito combativo foi perdendo as penas das asas e tende a quedar-se num conformismo amargo, mas legítimo. Sinto que é pregar no deserto, e embora não vencida, desisti de tentar convencer. Às vezes, porém, o compromisso que se assume com a vida é tal, que a voz se solta e, antes que dê comigo a falar sozinha, escrevo.

Fui professora de mais de um milhar de alunos e vivi intensamente todas as reformas do Ensino. Apesar de aposentada há muitos anos, vivo ainda os problemas da Educação e sinto-me suficientemente lúcida para os analisar. Avaliar escolas por resultados numéricos de exames é contrariar todo o espírito que preside à filosofia da Lei de Bases do Sistema Educativo e às reformas que mais ou menos nela assentaram. O mínimo que se pode dizer é que o resultado é enganoso ou falacioso. Considero inquestionavelmente que os bons resultados académicos são importantes. Sempre valorizei a exigência científica, não me deixam mentir os meus alunos e os professores que formei. Só que esses resultados são números que reflectem realidades merecedoras de análise à luz de muitos factores, especialmente factores sócio-económicos e culturais dos alunos. Com isto não quero negar o valor dos bons alunos, dos que obtêm bons resultados à custa do seu trabalho, das suas capacidades intelectuais e do empenho do seu professor e sobretudo o valor daqueles que, sem ajudas paralelas à escola e de meios desfavorecidos, conseguem o que outros não conseguem. São casos raros nos nossos dias.

O que pretendo perguntar é onde está avaliado o papel da Escola nas competências humanas e humanizantes, o resultado do papel essencial da Educação. A Escola ensina, mas acima de tudo educa. E a Escola é o meio privilegiado para educar para a vida. A Escola deve assentar em conceitos bem definidos de Educação e Formação. Implica, por isso, critérios novos, outras metodologias e estratégias, outra ordem de meios e recursos, porque os seus objetivos deviam ser diferentes. Acima de tudo propõe-se construir um novo projeto de vida. Por isso a Escola não pode estar desligada da realidade, separada do homem e da sua vida em relação.

Durante décadas, o Ensino-Aprendizagem foi enformado de uma filosofia positivista, servida por modelos de investigação quantitativa e aplicação selectiva, catalizadores de diferenças e geradores de desigualdades e insucessos. Tocada por uma visão humanista, a Escola repensou o seu papel, apercebendo-se do valor das diferenças, e foi levada à valorização de acções e interacções. Daí nasceu uma Escola dinâmica, baseada na promoção da pessoa humana. Mas hoje, tal não passa de “words mere words”, como diria Shakespeare. E a prova são os critérios que levam aos tão badalados rankings.

O fenómeno da marginalização e da exclusão atinge-nos a todos e por isso há que o encarar de frente e com grande lucidez. A sociedade em que vivemos é altamente competitiva e há que amestrar os alunos para os exames e a conquista das boas notas. Quem tiver meios económicos faz por isso, e lá está o ensino privado em competição com o público. Não será de admirar que qualquer dia o ensino público seja para os pobres e menos capazes. Porém, ainda há no mundo quem pense que é possível desmontar e atacar as causas desse fenómeno. Há escolas e professores que fazem um trabalho ciclópico para conquistar e integrar aqueles que por razões diversas não são os culpados do seu próprio insucesso. São muitas vezes essas escolas e os seus professores que se situam nos últimos lugares dos tais rankings.

Apesar de ter pertencido outrora a uma escola pública situada nos primeiros lugares do ranking, congratulo-me, não acriticamente, mas solidarizo-me com todos aqueles que, no silêncio e fora do palco, continuam a trabalhar na perseguição de sonhos e utopias.

 

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