
Notava-se hoje na Arcada um movimento desusado. Pessoas de cara aflita conferenciavam em grupos. De quando em quando, faziam-se grandes gestos e ouvia-se uma voz exclamar:
― Pode lá ser! Que grande pouca vergonha!…
Num magote de exaltados, Praxedes oficiava de pontifical. O seu sorriso era tranquilizador e a sua mão flutuava sobre aquelas agitações, como a pombinha da arca, que Deus haja, sobre as águas do dilúvio.
― Vê como se arranja uma revolução, ― explicou-me o nosso amigo.
― Mas que quer esta gente? ― indaguei curioso.
― É tudo pessoal apoquentado com a ideia de que o princípio assente no ministério da guerra de banir a empenhoca se torne extensivo aos outros ministérios. Era o que faltava! Ficavam três milhões de portugueses encravados. Havia de ter sua graça, se, d’ora avante, só se atendesse ao mérito comprovado por atestações superiores. Isso era Portugal virado do avesso. Nunca mais um pobre barbeiro podia ser nomeado bibliotecário e um gago leiloeiro da Alfândega. Eu cá tenho sossegado esta gente, quando não aí o diacho. Pela parte que me toca, ficava bem arranjado. Para colocar o meu rapaz mais velho, consegui juntar nada menos de trinta e oito cartas. Para a pequena passar no Conservatório, até a parteira da prima do guarda portão se tem empenhado e, pelo que respeita ao Quico, que eu quero meter com subsídio num colégio do Estado, até o sr. D. Manuel me escreveu de Londres prometendo falar a Sua Majestade Jorge V. Se me desgraçassem o arranjinho, eu sou homem pacato; ― você bem sabe ― mas sentia-me com ganas de ir para a Rotunda…
25 de Abril de 1914
André Brun escreveu este texto tão cómico há quase cem anos. Tão divertido, e, ao mesmo tempo, tão triste. Limitei-me a actualizar um pouco a ortografia. Espero não ter estragado nada.
