Nota prévia:
Continuamos a fazer circular textos sobre as Democracias em profunda crise, o nono sobre o Reino Unido.
Quanto ao Reino Unido de hoje direi que ganhe quem ganhar, os Conservadores, os Trabalhistas ou a extrema-direita de Farage, o Reino Unido acordará amanhã pior do que estava ontem.
Júlio Mota
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
5 min de leitura
Reino Unido – Texto 9: Nigel Farage, futuro líder da direita britânica?
Publicado por
em 4 de Julho de 2024 (original aqui)

As eleições gerais realizadas hoje no Reino Unido deveriam, em grande medida, reorganizar as cartas da política no outro lado da Mancha. Depois de 14 anos no governo, o Partido Conservador, extremamente impopular, será violentamente varrido. Se o Partido Trabalhista vencer por uma larga margem e os Liberais Democratas puderem esperar tirar proveito disso para se tornarem o segundo maior partido em termos de número de deputados, esta eleição também deve representar o grande retorno de Nigel Farage. Criador de encrencas na política britânica há mais de 20 anos, o chefe do campo do Brexit pretende aproveitar a rejeição dos conservadores para encarnar a renovação da direita com o seu Partido Reform. Se a substância do projeto de Farage continua a ser muito liberal, várias medidas visam seduzir os britânicos degradados, que já não se reconhecem nem no Thatcherismo dos conservadores, nem no blairismo expresso por Keir Starmer. Artigo da nossa parceira Novara Media, traduzido [do inglês] por Alexandra Knez.
De acordo com o instituto de sondagens britânico Survation, Nigel Farage está a caminho de ser eleito deputado por Clacton, causando assim o que seria a maior mexida eleitoral da história da política britânica. Segundo dados do Instituto sobre a votação, o líder do novíssimo partido Reform, presidido por Nigel Farage, poderia ganhar 42% dos votos, os conservadores 27% e os trabalhistas 24% [1]. Lembre-se aqui que as eleições britânicas têm apenas uma volta e que o candidato que fica em primeiro, mesmo por um voto, é eleito automaticamente.
A Survation não é a única instituição a prever esta vitória: de acordo com a Ipsos, o Reform poderia até angariar 53% dos votos em Clacton! Durante as últimas eleições parlamentares britânicas há cinco anos, foi o candidato conservador, Giles Watling, que obteve quase três quartos dos votos neste círculo eleitoral. Depois de 2019, este círculo eleitoral foi considerado o quinto mais seguro para os conservadores.
Considerar Farage como um fenómeno puramente mediático é tentador: ele é um showman capaz de explorar todas as oportunidades para atrair câmaras de televisão, ser convidado para o período de perguntas (programa político emblemático da BBC, Nota do editor) ou de se tornar um fenómeno viral no TikTok. Se esta observação estiver correta, é cada vez mais evidente que as suas políticas e retórica estão a evoluir à medida que cria um novo espaço para si próprio, não só após o Brexit, mas também à medida que o nível de vida da população britânica estagna. Deixa o Thatcherismo puro e duro. Em seu lugar, Farage opta por uma espécie de nacionalismo com algumas proteções sociais que lembram mais o Partido Direito e Justiça na Polónia, ou o de Viktor Orbán na Hungria. Ao mesmo tempo, o seu programa centra-se particularmente na defesa das pequenas empresas. Se a Grã-Bretanha é realmente uma nação de comerciantes, como disse Napoleão, Farage deseja ser o seu porta-voz.
A direita pró-Brexit, para além da corrente conservadora, teve durante muito tempo uma aparência muito colada a Thatcher. Para além do próprio Farage, houve pessoas como Douglas Carswell (deputado conservador, que mais tarde passou para o UKIP, ndr), Matthew Elliott (lobista libertário, ndr) e Daniel Hannan (antigo eurodeputado conservador, ndr) todos defenderam a ideia de que uma saída da UE permitiria uma maior desregulamentação e um estatismo mais restrito. Apesar da sua influência real, estas personalidades – que geralmente se encontram a vaguear em Westminster no seio dos think tanks especializados no mercado livre – continuam a ser moldadas ideologicamente pelo sucesso histórico de Margaret Thatcher e de Ronald Reagan na esfera anglo-saxónica. Farage e o seu Reform Party estão gradualmente a mudar e a alinhar-se mais estreitamente com as tendências observadas na Europa continental.
Vejam o manifesto do partido: é «pro business», mas de uma forma muito diferente da preconizada pela Confederação da Indústria britânica, pelos conservadores e pelos inúmeros peritos televisivos que repetem incansavelmente esta fórmula. O Reform Party prevê aumentar o limiar de sujeição ao imposto sobre as sociedades para 100.000 libras esterlinas (contra 50.000 libras esterlinas atualmente), o que, segundo o partido, permitiria apoiar mais de 1,2 milhões de pequenas e médias empresas. O próprio imposto sobre as sociedades passaria progressivamente de 25% para 15% e, sobretudo, o limiar do IVA passaria para 150.000 libras (contra 90.000 atualmente).
Por outro lado, e mais interessante, há a promessa de abolir as taxas de imposto para as pequenas e médias empresas dos centros das cidades, financiada por um «imposto sobre a entrega de produtos comprados em linha» de 4 % imposto às «grandes empresas multinacionais». O objetivo, segundo o documento, é «criar condições de concorrência mais equitativas para os comércios de proximidade». Uma tal proposta teria sido impensável para a administração do conservador David Cameron – e quase se pode imaginar Peter Mandelson – spin doctor muito próximo de Tony Blair – zombar da ideia. Não é certamente copiar e colar thatcherismo.
Acima de tudo, é politicamente astuto. Ajudar o comércio local cobrando às grandes empresas só pode ser popular. Nas palavras de Dan Evans, autor de A Nation Of Shopkeepers: The Unstoppable Rise of The Petty Bourgeoisie, o sucesso do trumpismo deve-se em parte à sua estratégia que consiste em contrapor (com sucesso, em 2016) o «capital familiar» ao «capital nacional e mundializado». Parece que Farage está inspirar-se nisso. Quando o partido afirma que apoia as empresas, dirige-se abertamente aos pequenos burgueses – e não às grandes cadeias de supermercados, aos gigantes da indústria e aos consultores Linkedin que o establishment político considera serem os melhores representantes da empresa privada.
Além disso, no Reform Party não faltam outras propostas populistas que parecem mais de esquerda do que de direita. O partido propõe, assim, a anulação das dívidas dos estudantes por cada ano em que os médicos, os enfermeiros e o pessoal médico trabalhem no National Health Service (NHS). Após dez anos de serviço, as dívidas estudantis desses cuidadores seriam perdoadas. Esta proposta é extremamente popular: 76% do público é a favor.
Normalmente, caberia ao Partido Trabalhista propor este tipo de medida, no mínimo como primeiro passo para suprimir as propinas na universidade em geral, mas também para parar a fuga de cérebros do NHS. Hoje, uma enfermeira tem em média uma dívida estudantil de 48 mil libras. É surpreendente que Farage lhes ofereça mais do que Keir Starmer, o chefe do partido Trabalhista. Mais amplamente, o Reform Party propõe a supressão dos juros sobre os empréstimos estudantis para todos os graduados: não é o suficiente para virar a mesa, mas ainda assim mais do que o partido Trabalhista.
Ainda mais notável, o manifesto do partido declara: «O contribuinte britânico deve ter o controlo dos serviços públicos britânicos». Assim, a Reform desejaria que «50 % de cada empresa de serviço público voltasse a ser propriedade pública», podendo os 50 % restantes ser «detidos por fundos de pensões britânicos, beneficiando assim os serviços de uma nova especialização e de uma melhor gestão». A ideia de que o Estado pode controlar ativos em tal escala lembra o modelo francês da Agência de Participações do Estado, o órgão governamental responsável pela gestão das participações do Estado em empresas de importância estratégica. Parece que, pelo menos em certos sectores, Farage e o seu segundo, Richard Tice, defendem doravante um dirigismo à francesa. Uma espécie de mistura entre gaullismo e GB News (equivalente britânico de CNews, ndr).
Em matéria industrial, o Reform Party concentra-se no relançamento da indústria de defesa. O partido pretende introduzir incentivos e reduções fiscais para estimular a indústria de defesa britânica. Melhorar a auto-suficiência em matéria de equipamentos e fabricar produtos mundialmente reconhecidos para a exportação». É pouco provável que isso conduza a um relançamento significativo do fabrico de armas no Reino Unido, mas a ideia de que o Estado pudesse oferecer incentivos às empresas privadas que produzem era inconcebível nestes círculos ideológicos há alguns anos. A crise da COVID, a inflação e a queda dos padrões de vida, a guerra na Ucrânia e o sentimento geral de declínio contínuo tornaram essas ideias muito mais populares entre o público. Os populistas seguem inevitavelmente o movimento.
Outros pontos fortes apontados por Farage são «a educação gratuita durante e após o serviço» para os membros das forças armadas, bem como a substituição dos «dirigentes da função pública por profissionais eficazes do sector privado, nomeados pelo poder político existente, que vão e vêm com os governos». Por outras palavras, tratar-se-ia da maior transformação da função pública moderna desde a sua criação pelo relatório Northcote-Trevelyan em 1854. Em matéria institucional, o Reform Party vai muito além dos partidos tradicionais, propondo a passagem a um escrutínio proporcional para a Câmara dos Comuns (equivalente à Assembleia Nacional francesa, ndr) e a redução do tamanho da Câmara dos Lordes que se tornaria eleita (o equivalente britânico do Senado ainda tem pessoas nomeadas pelo rei, ndr). Para coroar este conjunto de coisas, Farage disse recentemente que iria remover o limite do subsídio parental para duas crianças, a fim de incentivar as famílias a terem mais filhos – o que a trabalhista Angela Rayner se recusou a fazer se o seu partido chegasse ao poder.
É claro que Farage muitas vezes fez promessas enganadoras, mas iniciativas políticas como essa são a prova clara de que Farage e Reform entenderam que algo mudou. Para esta eleição, ele tenta seduzir antigos eleitores conservadores, idosos e descontentes com a gestão catastrófica do país. Enquanto o partido Trabalhista promete a continuação da ortodoxia liberal, ele pode muito bem seduzir muitos dos seus eleitores na próxima eleição. Inspirando-se nas políticas pseudo-sociais da extrema-direita da Europa Central, em vez de Thatcher e Reagan, Farage compreende que o mundo mudou. Até recentemente, ele estava ideologicamente próximo de Liz Truss, a efémera primeira-ministra ultraliberal que causou uma crise financeira em apenas um mês no poder. Esta última é agora a chacota de todo o país, enquanto Farage é a figura política mais popular do outro lado do Canal. O ex-negociante de matérias-primas viu uma lacuna significativa no mercado político, e ele pode muito bem encontrar muitos investidores.
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[1] N.T. Apesar da distorção do sistema do Reino Unido quanto à proporcionalidade entre número de votos e lugares obtidos no Parlamento, os resultados da eleição de 4 de Julho afastam-se muito da previsão do Instituto Survation, mencionada neste artigo. Os trabalhistas obtiveram 411 lugares (63%) no parlamento, os conservadores 121 lugares (18,6%), os liberais democratas 72 lugares (11%), o partido nacional Escocês 9 lugares, o Sinn Fein 7 lugares, os Independentes 6 lugares, o partido Unionista 5 lugares, o partido Reform de Farage 4 lugares, os Verdes 4 lugares, outros 11 lugares (fonte: House of Commons Library). Todos os restantes, com exclusão dos partidos Trabalhista, Conservador e Liberais Democratas, representam 7,4% dos lugares do Parlamento. Quanto aos votos em percentagem: partido Trabalhista 33,7%, partido Conservador 23,7%, Liberal-Democratas 12,2%, outros 30,4% (fonte. Statista). Não obstante, e a título de exemplo da distorção do sistema, refira-se que enquanto os Liberais Democratas obtiveram 3,5 milhões de votos (12,2%) e 72 lugares no Parlamento, o Reform UK de Farage obteve 4,1 milhões de votos (14,3%) e somente 5 lugares no Parlamento (ver aqui).
O autor: Aaron Bastani [1983-] é um jornalista e escritor britânico. Foi co-fundador da organização de meios de comunicação social de esquerda Novara Media em 2011, e já hospedou e co-organizou muitos dos seus podcasts e vídeos. Após um vídeo de 2014 para a publicação, popularizou o termo “comunismo de luxo totalmente automatizado”, que descreve uma sociedade pós-capitalista na qual a automatização reduz grandemente a quantidade de trabalho que os humanos precisam de fazer. Escreveu um livro em 2019, “Fully Automated Luxury Communism” (Comunismo de Luxo Totalmente Automatizado), sobre o assunto. Bastani também escreveu para The Guardian, London Review of Books, openDemocracy and Vice, e é conhecido pela sua actividade no Twitter. Concluiu uma graduação e um mestrado no University College London e é doutorado (Strike! Occupy! Retweet!: The Relationship Between Collective and Connective Action in Austerity Britain) pelo Royal Hooloway, University of London.


