FÉRIAS: DESCANSO OU AGITAÇÃO? por Luísa Lobão Moniz

“Trabalhem, trabalhem, proletários, para aumentar a fortuna social e as vossas misérias individuais, trabalhem, trabalhem, para que, tornando-vos mais pobres, tenham mais razão para trabalhar e para serem miseráveis. Eis a lei inexorável da produção capitalista”. ( Paul Lafargue)

Imagine-se que se chegou à conclusão de que o período de férias é fundamental para a saúde do trabalhador, e da pessoa? Essa não entrou nesta conclusão, veio por arrasto. A fadiga e a pressão que se exercem sobre os trabalhadores prejudicam o seu bem-estar físico e psicológico.

Mas o cansaço do trabalhador não consta nas informações armazenadas nos computadores do local de trabalho. Seja o trabalho que for, desde a pesca, agricultura, pecuária, varredor de rua, polícia, professor, médico, cientista, empregadas de limpeza, empregados de escritórios…tudo o que é trabalho, tudo o que fazemos, ou por gosto (que sorte! Profissionalmente tive essa sorte!) ou porque todos necessitam de receber uma recompensa a que chamam salário.  

A palavra férias quer dizer “dia de Festa” o que pressupõe que as férias sejam um tempo para descansar do trabalho do dia-a-dia, que começa a horas, mas que por vezes não tem horário para acabar, porque o que é pedido ao trabalhador é sempre mais trabalho para que a produtividade aumente.

A História do Trabalho não é estática, estão sempre a aparecer novos modelos de empregabilidade e formas de trabalho. São inúmeras as pessoas que têm optado pelo teletrabalho e não consta que a produtividade tenha diminuído ou que o stresse social tenha aumentado, pelo contrário, estes trabalhadores têm mais tempo para a família, para serem pessoas.

Dr. Beddoe, in “Sobre migrações etnológicas modernas (1875): “só quando uma raça atinge o seu ponto máximo de desenvolvimento físico é que ela atinge o seu mais elevado nível de energia e de vigor moral”. Era esta também a opinião do grande naturalista Charles Darwin.

O negar o direito ao trabalho, que reedito com algumas notas adicionais, foi publicado no semanário L’Egalité de 1880, segunda parte. Prisão de Sainte-Pélagie, 1883. Paul Lafargue I – Um Dogma Desastroso “Sejamos preguiçosos em tudo, excepto no amar e no beber”.

Tableau de l’état physique et moral des ouvriers employés dans les manufactures de coton, de laine et de soie é o título de uma obra publicada em 1840 pelo Dr. Louis-René Villermé (1782-1863). Villermé testemunhou não apenas as condições de trabalho dos trabalhadores das fábricas, mas também as suas condições de vida, a maneira como viviam, como se alimentavam, como se vestiam e o seu estado de saúde.

 Verificou que as jornadas de trabalho intermináveis geraram moradias insalubres e superlotadas, desnutrição, corpos debilitados, saúde precária e enorme mortalidade. O trabalho era uma fonte de acidentes e de doenças.   

O direito ao trabalho tinha de ser alterado. A partir da reflexão, destes testemunhos de vidas sofridas, apareceram as primeiras leis sociais que proibiam o trabalho de crianças menores de oito anos durante o dia e menores de treze anos durante a noite e que limitava a duração de seu trabalho.

A História do Trabalho é longa e complexa e é a partir desta história que nasceu a História das Férias para que os trabalhadores pudessem descansar e recuperar forças, na maior parte dos casos, não para viver com dignidade, mas para sobreviver numa sociedade cada vez mais consumista e competitiva.

Com cada vez mais instrumentos tecnológicos que deveriam libertar os trabalhadores de horários demasiado prolongados, para poderem parar e pensar no que é realmente importante nas suas vidas; o cansaço que leva à agressividade e quantas vezes à violência ou o lazer e o convívio familiar.

Mas vamos de férias para ficarmos bronzeados, comer gelados na praia, ir a discotecas e concertos de música, com decibéis prejudiciais para a nossa saúde mental.

Vamos para longe, para a praia de preferência, ou ficamos nas nossas ruas porque dinheiro não há para semelhante luxo.

Na praia vão à esplanada bebem cerveja, esticam-se nas cadeiras, olham copiosamente para as mulheres que se passeiam em fatos de banho ou em biquínis… que ricas férias!

Nas suas ruas de sempre bebem cervejas, ajeitam os bonés, coçam a barriga molhada pelo suor do calor insuportável do dia.

Onde moram?

“Um grande número, diz Villermé, era obrigado, pela carestia das rendas, a instalar-se nas aldeias vizinhas. Alguns habitavam a duas léguas e um quarto da manufactura onde trabalhavam”.

Em Lisboa, devido à grande migração da população rural, no final do século XIX, houve necessidade de encontrar habitações para os novos lisboetas que iriam trabalhar em fábricas.

Os proprietários industriais precisavam de mão-de-obra barata, como sempre, e que os trabalhadores ficassem perto das fábricas, impedindo assim que fossem procurar trabalho noutras fábricas, ou que fizessem reivindicações salariais.

Nasceram assim as “Vilas” destinadas à habitação operária.  

Férias? Férias não as havia. Da “Vila” para a fábrica, da fábrica para a “Vila”. Viviam todos da mesma maneira, sobreviver para ir trabalhar, trabalhar para sobreviver.

Tudo o que foi inventado para dignificar a condição humana foi a pensar na melhor maneira de dominar os trabalhadores, de aumentar a produtividade para que alguns façam férias de luxo, outros, férias no seu próprio país, mas em sítios conhecidos pelas personalidades que os frequentam e pelos muitos turistas que para lá vão.

Mas ainda há outros em que as férias não são nem para descanso nem para diversão, mas para mais um trabalho extra…porque será?

Por que não desobedecer?

Por que não reivindicar o direito à preguiça?

Ninguém nasceu para ser trabalhador fabril, mecânico ou médico!

 

VI-TE A TRABALHAR O DIA INTEIRO

Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Construir as cidades pr’ós outros
Carregar pedras, desperdiçar
Muita força p’ra pouco dinheiro
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Muita força p’ra pouco dinheiro

Que força é essa? Que força é essa?
Que trazes nos braços?
Que só te serve para obedecer?
Que só te manda obedecer?
Que força é essa? Amigo
Que força é essa? Amigo

Que te põe de bem com outros
E de mal contigo?
Que força é essa? Amigo
Que força é essa? Amigo
Que força é essa? Amigo

Não me digas que não me compr’endes
Quando os dias se tornam azedos
Não me digas que nunca sentiste
Uma força a crescer-te nos dedos
E uma raiva a nascer-te nos dentes
Não me digas que não me compr’endes   

                                                                                    Sérgio Godinho

Não me digas que nunca sentiste uma vontade de descanso?

Não me digas que nunca sentiste uma vontade de agitação?

Não me digas que nunca sentiste uma vontade de desobedecer?

Não me digas que nunca sentiste uma vontade de ter férias?

Leave a Reply