O primeiro ministro, aparentemente no exercício das suas funções, anunciou no Pontal, a meio de Agosto, um duo de ‘investimentos e não de benesses’: um passe ferroviário de 20 euros mensais, e o pagamento em Outubro, de um suplemento extraordinário para as pensões mais baixas dos reformados – 200 euros para quem recebe até 509 euros, 150 quem a pensão entre 509 e 1018, e 100 para as pensões mais altas(?), entre 1018 e 1527. Aboli as vírgulas dos centavos –por ser mesmo extraordinário e estapafúrdio tal pormenor– mas que, no seu conjunto, e de acordo com as representações de reformados, se trata apenas de um ‘penso rápido’ para substituir o necessário aumento das pensões.
Aliás, na crónica habitual no DN, o professor de Direito Miguel Romão salienta ‘A discriminação colectiva sobre os mais velhos tem de ser rejeitada e ultrapassada’, para logo a seguir, acrescentar, ‘A insuficiência das possibilidades médicas, a violência do quotidiano e do trabalho, as imensas mortandades geradas pelas guerras, até há poucas décadas, limitavam-na. Agora, para o bem e para o mal, aqui está ela, em todo o seu esplendor’.
E li algures, já nem sei onde, que poderá haver dois riscos já ‘a bater à porta’, o de deitar dinheiro em cima dos problemas e o do crescimento da pobreza. Mais dizia o autor da escrita, que só lucravam as corporações e grupos de interesses devidamente organizados, que parecem estar sempre ‘a jogar em casa’, e nem é preciso ir mais longe do que ler as páginas dos jornais, cheiinhas de publicidade paga (nem o escondem!), para o perceber bem.
Mas a titulo de exemplo, aqui fica o título de um diário, a anunciar essa ‘minudência’, já nos primeiros dias de Agosto, ‘Os cinco maiores bancos a operar em Portugal registaram mais de 2619 milhões de euros de lucros nos primeiros seis meses do ano, o equivalente a “mais de 14 milhões de euros ao dia”’, um belo exemplo do que significa a palavra desigualdade, um terreno bem rico para o crescimento de almas caridosas, as que raramente dão conta dos tróleis nas ruas das cidades mais importantes, da sua gentrificação e ausência de muitos outros valores sociais e educacionais.
Por tudo isso me lembro também, de uma canção de 1973, do filósofo e cantautor José Barata Moura, ‘Vamos brincar à caridadezinha’, da qual transcrevo alguns versos,
“Vamos brincar à caridadezinha
Festa, canasta e boa comidinha
Vamos brincar à caridadezinha
O pobre no seu penar
Habitua-se a rastejar
E no campo ou na cidade
Faz da sua infelicidade
Alvo para os desportistas
Da caridade
E nós que queremos ser irmãos
Mas nunca sujamos as mãos
É uma vida decente
Não passeio ou aguardente
O que é justo
E há-que dar a toda a gente”
E disse!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor