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Serviço Nacional de Saúde e Ensino Público
Faro, em 12 de Agosto de 2024
Ana Cristina Leonardo num artigo muito bom, intitulado Então e os bárbaros chegam ou não chegam, artigo publicado pelo jornal Publico, em 10 de agosto de 2024 afirma:
“Alguém devia refletir sobre o avanço da extrema-direita em países que, até há pouco, se tinham como faróis da tolerância. Trump, Farage, Le Pen e etc, não nasceram das pedras”.
Fiquei radiante ao ler isto e por uma razão muito simples: dois dias antes tinha terminado de elaborar a parte dedicada à Alemanha da série Quatro Democracias em profunda crise [n.ed. publicação em A Viagem dos Argonautas iniciada em 18 de agosto] e, curiosamente, tinha seguido o caminho que dias depois vejo sugerido por Ana Cristina Leonardo.
O esquema da série é este:
- Mais de três décadas após a reunificação, a Alemanha ainda está fraturada
- Como o Marco Alemão engoliu a economia da Alemanha Oriental
- Os trabalhadores pobres da Alemanha
- Olaf Scholz não é vosso amigo
- O regresso da extrema-direita alemã
- A viragem autoritária da Alemanha
- Os conspiradores alemães anseiam por um rei
- A Alemanha na Europa 2024 – Da hegemonia relutante ao vazio político
- “Não!” ou o vazio político no coração do suposto porto seguro da Europa – a Alemanha após as eleições europeias
- A Alemanha está agora a sentir o gosto das políticas que infligiu ao sul da europa
- O travão da dívida alemão é mau em termos económicos
- A Alemanha não gosta dos refugiados ucranianos
- Os refugiados não resolverão a crise de empregos
- Os alemães jovens estão a derivar para a AfD
- Olaf Scholz quer um segundo mandato
Estes textos são um bom exemplo de quão importante é conhecer o caminho que nos trouxe à situação de hoje, em que a extrema-direita tem ganho um significativo apoio popular ao ponto de entrar ou mesmo liderar vários governos da dita União Europeia. Efetivamente, esta situação “não nasceu das pedras”.
Curiosamente, a sugestão de Ana Cristina Leonardo é coisa que os nossos media ignoram liminarmente. Dois exemplos: O SNS e o sistema de ensino em Portugal.
1. Curtas Considerações sobre o Serviço Nacional de Saúde
Quanto ao Serviço Nacional de Saúde, foi para mim um espanto que o socialista João Soares tenha utilizado Serviço Nacional de Saúde e Sistema Nacional de Saúde como expressões equivalentes. Uma vergonha para quem se assume como socialista.
Com o Serviço Nacional de Saúde têm acontecido coisas que nunca poderiam ter acontecido, desde um aborto à porta da maternidade, a serviços de obstetrícia e de ginecologia fechados em série em diversos Hospitais Públicos. Fala-se muito da anomalia, fala-se praticamente nada sobre as razões de fundo que nos trouxeram até aqui: relembro o ataque em forma de Cavaco Silva ao quadro legislativo do Serviço Nacional de Saúde a abrir as portas à medicina privada, um discurso que é agora completamente assumido pela Iniciativa Liberal, relembro a política assassina de Passos Coelho a querer ir mais longe que a Troika na venda de Portugal e na redução brutal do papel do Estado nas funções que eram e são as suas, as do Estado Providência criado com o 25 de abril, relembro as contas certas de Mário Centeno, Fernando Medina e António Costa. Estranhamente, Luís Montenegro esqueceu-se de tanta coisa e acusa apenas António Costa, pelo que se está a passar. Esqueceu-se de si-próprio e do seu colega e caminheiro de estrada, Passos Coelho, e do seu padrinho, Cavaco Silva, esqueceu-se do desinvestimento público organizado em conjunto com a Troika. Desse ponto de vista, Costa tem responsabilidades no cartório, é certo, mas com a crise do Covid que atravessou diremos que é o político de menos responsabilidade nesta matéria.
Neste campo relembro um caso curioso: o ministro Manuel Pizzaro e a sua concordância com a criação da Faculdade de Medicina na Universidade Fernando Pessoa (sediada no Porto), maioritariamente vocacionada para o ensino a estudantes estrangeiros, o que levou João Miguel Tavares a publicar um artigo cuja leitura francamente recomendo intitulado:
Medicina na Universidade Fernando Pessoa? A sério?
Este exemplo mostra bem como os negócios andaram sempre metidos e embrulhados com a ideologia, no PS, no CDS, no PSD, os partidos do arco do poder.
Curiosamente, num país onde a falta de médicos é um drama em crescendo, como se tem vindo a assistir, apoia-se a criação de uma Faculdade de Medicina privada para ensinar estudantes estrangeiros. Mais ainda, seria curioso fazer o levantamento das necessidades em médicos ao longo das últimas duas décadas em termos do SNS, num país em claro envelhecimento da sua população, e confrontar a evolução dessas necessidades com a evolução dos orçamentos destinados às Faculdades de Medicina e à evolução do número de estudantes em Medicina.
E há uma pergunta para a qual não encontro resposta adequada: porquê uma carência fortemente desproporcional em ginecologistas e obstetras quando se compara com as outras especialidades? Será devido ao facto de muitos dos serviços destas áreas estarem a cargo do SNS e portanto não rentáveis em termos de consultas privadas? O exemplo das múltiplas cesarianas feitas no privado lembra o quê? Responder a tudo isto significa procurar encontrar uma outra via, complementar, de abordagem ao problema grave do encerramento das consultas hospitalares para as nossas parturientes. Dramaticamente, as contas certas de Passos Coelho, de António Costa, de Centeno e Medina mostram-se completamente erradas e em nome das contas certas para as gerações futuras impedem-se estas gerações de nascerem. Bizarro, muito bizarro. Desde o tempo de Sócrates que se andaram a fechar maternidades para se chegar a isto: ninguém sabe hoje onde as grávidas em Portugal irão parir ou se vão parir nas estradas de Portugal ou abortar à porta das maternidades! Que têm feito os diversos governos? Que tem feito a Ordem dos Médicos?
Mas no rol dos culpados tem de estar também a União Europeia e todos aqueles que defenderam a política de austeridade, entre outros, os Presidentes da Comissão Europeia, Durão Barroso e Ursula von der Leyen, assim como os governadores do BCE. De nada disto se fala. E a Grécia está muito longe para nos lembrarmos do que em termos clínicos foi feito aos doentes nesse país!
2. Curtas Considerações sobre o Ensino em Portugal
Quanto ao ensino, diz-nos o Público:
“Governo quer avaliar impacto dos manuais digitais e suspende alargamento a mais turmas do 1.º ciclo e secundário
Ministério da Educação põe algum travão no alargamento do projecto-piloto dos manuais digitais, que vai entrar no quinto ano “sem que tenha sido avaliado o seu impacto na aprendizagem dos alunos”.
No próximo ano lectivo, o Ministério da Educação não vai alargar o projecto-piloto dos manuais digitais a mais turmas do 1.º ciclo e do ensino secundário, já que quer avaliar o seu impacto na aprendizagem dos alunos. Assim, este projecto-piloto, que vem sendo implementado desde há quatro anos, vai manter-se “nos mesmos moldes para turmas do 2.º e 3.º ciclo do ensino básico” (do 5.º ao 9.º ano) e será suspensa a integração de novas turmas nos restantes níveis de ensino, avançou o Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI) em resposta a questões do PÚBLICO”.
Por detrás de tudo isto, tem-se uma certeza: os estudantes deixarão de ter livros em papel, terão livros num mini-ecrã para poderem cansar a vista à vontade e poderem deixar de saber escrever manualmente. Será que depois se irão seguir as provas de exame também elas em formato digital, aquilo que os autores da contrarreforma já estão a fazer nas Universidades. É lógico supor este cenário tanto mais que, quanto menos escreverem manualmente, mais difícil será para os professores lerem as respostas nas provas de exame. Naturalmente assim. Ao que parece, neste contexto do digital, toda a gente poderá pensar que se fica a ganhar com a digitalização do ensino, mas uma coisa é certa, o país ficará profundamente a perder e se duvidas há, leia-se, por exemplo, Jonathan Haidt e a sua obra Geração Ansiosa.
Bom, a digitalização do ensino está em marcha e, desde há quatro anos, sem que isso tenha sido posto em questão. Nem agora o é, simplesmente o ministro Fernando Alexandre entende que deve ser medido o impacto da digitalização do ensino. Nisso, o meu antigo aluno, o atual ministro Fernando Alexandre, parece ser bem mais sério que os tecnocratas neoliberais do PS, supostamente de esquerda. Estes inclusive ignoraram que estavam a aplicar a digitalização do ensino à geração mais vitimizada de todas as que frequentam o ensino: apanharam o ensino à distância e com os mesmos programas como se nada se passasse na primeira e segunda classe. Uma vergonha. Curiosamente, veja-se, eu vi o caso de Coimbra, onde é que a burguesia coloca os seus filhos: nos ensinos integrados, públicos, e no ensino privado, não na escola pública de ensino geral do tipo Martim de Freitas e/ou equivalentes. Não é por acaso. O filtro de classe a funcionar em pleno e é um filtro criado pelos neoliberais socialistas, a fazer-me lembrar um amigo meu, um homem da Iniciativa Liberal que me dizia: eu fiz a escola pública, as minhas filhas fizeram a escola pública, os meus netos fazem hoje a escola privada. Entenda isto como quiser. E entendi!
Este projeto da digitalização do ensino do PS pode ser visto em paralelo com o que a mesma Administração PS pensava sobre o Ensino Superior e em que todas as Universidades esconderam a fraude que foi a avaliação dessa altura, o período do Covid. Os professores terão mais tempo para investigar dizia, ufano, um dos responsáveis de ensino superior no tempo de António Costa. Com efeito noticiava O Observador:
Secretário de Estado do Ensino Superior defende menos carga letiva no ensino superior
O secretário de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior apontou como um dos impactos da pandemia da Covid-19 no ensino superior a perceção de que é possível ensinar com menos carga letiva.
Os alunos do ensino superior devem passar a ter menos tempo letivo, defendeu esta quarta-feira o secretário de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, lembrando que “Portugal tem uma das maiores cargas horárias semanais”.
Em entrevista à Fórum Estudante, o secretário de Estado João Sobrinho Teixeira apontou como um dos impactos da pandemia da Covid-19 no ensino superior a perceção de que é possível ensinar com menos carga letiva, que classificou de “excessiva”.
Desde 16 de março que todos os estabelecimentos de ensino em Portugal estão de portas encerradas, para tentar conter a disseminação do novo coronavírus, e na maior parte dos casos as aulas presenciais foram substituídas por aulas à distância.
Esta quarta-feira, o governante lembrou que “Portugal tem uma das maiores cargas horárias por semana” e que a imposição de isolamento social veio trazer um “abanão às aulas presenciais”.
Para Sobrinho Teixeira deve passar a haver “menor carga letiva” e as escolas devem começar a “trabalhar com os estudantes recorrendo a outras ferramentas“, num ensino também baseado em projetos.
O desafio é conseguir ensinar “de uma forma mais eficaz para que os nossos estudantes possam aprender”.
Com menos aulas, também os professores do ensino superior podem ficar com mais tempo para a investigação.” Fim de citação. Os sublinhados são do jornal.
Um exemplo desta lógica podemos vê-la na reforma do ensino feita na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, onde o terceiro e último ano da licenciatura em Economia ficou apenas com uma disciplina obrigatória de Economia. O resto das disciplinas ditas de economia é pura poeira para os olhos e só não vê quem é completamente cego. Veja-se o exemplo de Economia Internacional, disciplina que ensinei durante quase trinta anos. Trata-se de uma disciplina que exige bom suporte económico teoricamente apreendido nos anos anteriores e mais, pressupõe também, o domínio das matemáticas, entendidas estas não como um fim em si-mesmas mas apenas como um meio para uma boa aprendizagem das matérias aí lecionadas. Ora, na mesma linha de pensamento que a autoridade do PS acima referida, reduziu-se as matemáticas gerais de 4 semestres para dois. E o ramo das matemáticas completa-se com um semestre de Estatística e um semestre de Econometria. Menos carga letiva, dir-se-á! Não, isto é mentira, reduziu-se drasticamente tudo o que tem a ver direta ou indiretamente com a matemática, Alunos menos preparados em matemática farão uma cadeira de Estatística de menor qualidade e alunos com menos matemáticas gerais e com menos estatística farão obrigatoriamente uma disciplina de Econometria de menor qualidade. Estes mesmos alunos farão consequentemente uma disciplina de Economia Internacional de menor qualidade. Em suma o curso resumir-se-á a um conjunto de trivialidades. Mas mais grave ainda; se os alunos saem com uma licenciatura de menor qualidade, farão então um mestrado de menor qualidade, impossível ser de outra maneira, e, na sua sequência, farão um doutoramento também ele de nível mais baixo. Tudo cai a pique, tudo se torna mais fácil para o nosso estudante rei, encartado como ignorante mas com direito a ser tratado como rei.
Este é o panorama geral das Universidades em Portugal e os responsáveis são os ministros da tutela, os reitores com r minúsculo, os diretores das Faculdades, as agências de creditação, os ditos analistas independentes que com uma folha Excel certificam estes cursos, todos eles, em conjunto, são os responsáveis pela pauperização intelectual absoluta que se vive no Ensino Superior em Portugal.
É deste modo que me atrevo a interpretar o seguinte poster da Reitoria, publicado no âmbito da sua campanha de atratividade de estudantes para a Universidade de Coimbra.
Agora imagine-se o que será o ensino superior com esta geração criada pelo PS, a geração do ensino intensamente digital, a geração alfa! Nem quero imaginar.
Numa nota à margem, há dias tomei café com a minha neta na baixa de Faro. Para meu espanto, ao referir-lhe o filme que tínhamos visto juntos tira da sua sacola um caderno de notas e pergunta-me se estou disposto a ouvir a nota que escreveu sobre esse mesmo filme. Escutei-a e no fim pergunta-me: questiono-me se escrevo de forma infantil. Que me dizes, avô? Disse-lhe que não escrevia de forma infantil. Talvez lhe faltasse alguma plasticidade mas essa ganha-se escrevendo, acrescentei! Incentivei-a, portanto, a continuar.
O importante deste apontamento apresentado de forma sucinta é que a seguir diz-me mais ou menos o seguinte: não quero desaprender o que me levou anos a aprender. Por isso escrevo para mim notas sobre o meu quotidiano, porque assim aprendo a vê-lo melhor, aprendo a sistematizar a minha visão do mundo, a perceber o sentido do que se lê e se vê, ou até as razões da ausência de sentido quando é isso que se verifica. De forma mais simples, aprendo assim a pensar. E sentir a caneta a deslizar sobre o papel em branco dá-me muito prazer. Faço-o pois por gosto e nunca por obrigação. As palavras ditas não terão sido exatamente estas mas o que aqui reproduzo por palavras minhas é o significado do que me disse. Peço-lhe o texto, releio-o. Ei-lo:
“No passado dia 29 de julho fui ver este filme (“Os excluídos“ de Alexander Payne) com o meu avô. Durante aquelas breves horas chorei e chorei, deixei as lágrimas correrem até ficar um nevoeiro tão claro que quem olhasse por detrás, tudo o que veria seria uma rapariga a chorar desoladamente. Por um lado aborda a profissão da vida de um professor, que é detestado pelos alunos por querer fazer um ensino sério e justo. Foi, nesta perspetiva, o que mais terá tocado no coração do meu avô. Para mim, foi o outro lado da mesma moeda: a solidão, a apatia, a frustração e o contentamento. Passar a vida toda num único lugar onde conseguiu ser acolhido, deixar a vida passar e ver os sonhos livremente sonhados depois transformados em cacos. Ao mesmo tempo, ter a ambição, uma ambição simples e constante, de fazer um trabalho bem feito, em que este é dificultado diariamente por fontes externas. Comovente. Aborda o luto, a raiva adolescente e a solidão precoce, na verdade, solidão provocada por diferentes fatores. Apesar disto tudo, foi um filme profundo e belo no tratamento dramático apresentado. A vida continua e as mais pequenas alterações e reações ligadas tornam a vida numa viagem inegavelmente agradável, forçoso é reconhecê-lo. Independentemente das nossas condições, do nosso ambiente, morremos sozinhos tal como chegamos ao mundo, e entre todos os outros prazeres de vida, temos de nos regalar e permitir florescer de dentro para dentro, de dentro para fora, de fora para dentro. Há um pequeno mundo que na verdade chega a ser maior que o próprio universo: aquele dentro de mim.”
Termino o seu texto, olho-a atentamente e penso: isto é o contrário do que os nossos intelectuais de meia-tigela do PS pretenderam estabelecer como prática para o ensino, é o contrário do molde em que têm estado a aprisionar mentalmente a nossa juventude, e os resultados estão bem à vista. Só não os vê quem não quer e não creio que a AD os queira ver. Os avisos de Jonathan Haidt continuaram a ser totalmente ignorados na 5 de outubro e nas nossas escolas e Universidades.
Sinceramente, é o que penso.


