Espuma dos dias — O horror no coração da farsa. Sobre os motins racistas no Reino Unido. Por Richard Seymour

Nota prévia:

Vivemos tempos muito difíceis, tempos de ódio, de ódio mesmo visceral. Veja-se o que se passou recentemente na Inglaterra. E o silêncio das populações é brutal, diríamos mesmo que este silêncio é ruidosamente assustador e assustador porque a esquerda se torna ativa ou passivamente conivente com a marcha para a extrema-direita em diversos países. Exemplos são muitos: veja-se, por exemplo, a Inglaterra onde é difícil distinguir entre trabalhistas e conservadores, veja-se a França onde a Esquerda resgata Macron de pesada derrota, veja-se a Itália onde o Direito do Trabalho foi agora claramente esmagado, veja-se a Alemanha nos textos por nós editados sobre as 4 Democracias em profunda crise.

Chamo-vos a atenção para dois textos em contraponto: um sobre a Inglaterra, O horror no coração da farsa, de hoje e um outro sobre um momento de exaltação da fraternidade humana, intitulado “Melissa e os comboios da felicidade” ocorrido em Itália no final dos anos 40 e início dos anos 50, que publicámos no passado dia 14 de agosto (ver aqui). E aqui, o meu editor, Francisco Tavares, em nota de aditamento, quis recordar que eu também sou fruto, num tempo e espaço diferentes, de muitas fraternidades.

O contraponto destes dois textos deve levar-nos a pensar seriamente sobre o momento atual.

 

Júlio Mota

Faro, em 21 de agosto de 2024


Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

8 min de leitura

O horror no coração da farsa. Sobre os motins racistas no Reino Unido

 Por Richard Seymour

Publicado por  em 8 de Agosto de 2024 (ver aqui)

Publicação original em  (ver aqui)

 

Há cerca de dez dias, que várias cidades do Reino Unido são palco de motins racistas que visam as mesquitas, os comércios mantidos por muçulmanos e os locais de acolhimento de refugiados. Os distúrbios começaram após o assassinato de três meninas na cidade costeira de Southport, em 29 de julho, e a divulgação de informações falsas que atribuíam o crime a um migrante muçulmano.

Embora exista uma longa tradição de motins racistas e de ação de rua da extrema-direita no outro lado do Canal, estes motins surpreenderam e inquietaram por vários motivos. Em primeiro lugar, pela sua magnitude, duração e nível de violência contra pessoas e bens. Em seguida, pela relativa fraqueza, num primeiro tempo, da resposta antirracista, mesmo que as mobilizações de 7 de agosto pareçam indicar uma inversão de tendência. Por último, e talvez sobretudo porque, ao contrário da versão veiculada pelos meios de comunicação (britânicos ou outros), mas também por alguns canais militantes, estes motins não se limitam à mobilização dos grupos de extrema-direita, em particular a constelação resultante da English Defence League de Tommy Robinson (ativa de 2009 a meados dos anos 2010) – mesmo se estes estão presentes e totalmente hegemónicos no plano político.

Neste texto, Richard Seymour, fundador da revista Salvage e autor de numerosos ensaios sobre a política britânica, a extrema-direita contemporânea e sobre o nacionalismo, analisa a especificidade desses tumultos e o contexto político e ideológico que os tornou possíveis. Ele destaca o papel dos afetos racistas e islamofóbicos numa mobilização que ultrapassa largamente a extrema-direita organizada, mas da qual esta é a primeira beneficiária.

CONTRETEMPS

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A Grã-Bretanha sonha com a sua própria queda. Em poucos dias, o país foi mergulhado em duas sequências de reações alucinatórias, baseadas em falsas suposições sobre a identidade de uma pessoa. No caso da vitória da boxeadora argelina Imane Khelif sobre a italiana Angela Carini, a rede reacionária em torno de Mumsnet [fórum de discussão online entre pais] decidiu que Khelif era um intruso masculino desviante no quadro de um espaço reservado para mulheres. A ministra da Cultura do Reino Unido, Lisa Nandy, disse que se sente «desconfortável» com o combate de boxe e falou vagamente sobre as complexidades da biologia. Até mesmo algumas pessoas de esquerda ingénuas foram arrastadas para essas fúrias.

Mais preocupante ainda, em resposta a um ataque terrível com faca contra onze crianças e dois adultos durante uma aula de dança com o tema de Taylor Swift em Southport, durante o qual três dessas crianças foram mortas, milhares de pessoas em todo o Reino Unido presumiram que o suspeito era um migrante que chegou num «small boat» [embarcação de fortuna com a qual os migrantes atravessam o Canal] e que estava numa «lista de pessoas sob vigilância do MI6» [Serviço de Informações do Reino Unido]. Como o suspeito tem menos de 18 anos, a sua identidade não foi divulgada inicialmente. Em menos de 24 horas, os rumores das habituais contas de desinformação da direita espalharam-se, amplificados por Tommy Robinson [ex-líder da Liga de Defesa Inglesa] e Andrew Tate [figura de extrema-direita nas redes sociais], e desmesuradamente divulgados por contas sediadas nos EUA.

Este padrão de ondas convergentes de agitação online que culminam em pontos de encontro momentâneos para a direita é típico do funcionamento das redes sociais. Mas depois de anos de guerra cultural deliberada, durante os quais os conservadores denunciaram uma «invasão» de migrantes e se comprometeram a «acabar com os small boats», e onde a imprensa de direita derramou um discurso angustiante sobre a ameaça de uma «imigração em massa», após uma campanha eleitoral na qual a oposição trabalhista acusou o governo de ser demasiado «laxista» em matéria de imigração e prometeu intensificar as expulsões, e depois de uma grande reunião de extrema-direita no centro de Londres, a que se dirigiu Tommy Robinson, toda esta confusão de merda foi espalhada pelo espaço da vida real.

Como com o motim racista em Knowsley no ano passado, ou a violência em Southport, onde gangues atacaram uma mesquita local, os motins recentes não foram dirigidos ou organizados por fascistas, apesar de membros de grupos como o Patriotic Alternative terem estado presentes. A maioria dos participantes eram pessoas racistas não organizadas das comunidades locais. O ciclo de distúrbios que se seguiu envolveu Whitehall, Hull, Sunderland, Rotherham, Liverpool, Aldershot, Leeds, Middlesborough, Tamworth, Belfast, Bolton, Doncaster e Manchester. Em Rotherham, os manifestantes incendiaram um hotel que abriga requerentes de asilo. Em Middlesborough, eles bloquearam estradas e deixaram passar apenas os condutores «brancos» e «ingleses». Em Tamworth, eles saquearam casas de refugiados e cobriram-nas com grafite que dizia: «England», «Fuck Pakis[taneses]» e «Get Out»]. Em Hull, enquanto a multidão arrastava um homem para fora do seu carro para o espancar, os participantes gritavam «Matem-nos!» Em Belfast, uma mulher que usava um hijab foi atingida no rosto enquanto segurava o seu bebé, manifestantes atacaram lojas muçulmanas e tentaram invadir a mesquita local gritando «Get them out» [Mandem-nos embora!]. Em Crosby, perto de Liverpool, um muçulmano foi esfaqueado.

Os restos da extrema-direita que ainda existem desempenharam um papel de organização, mas este foi secundário. Muitos dos protestos que convocaram tiveram pouca assistência e foram facilmente superados em número por uma resposta antifascista. Em Doncaster, apenas uma pessoa compareceu ao evento programado. A sinistra realidade é que, longe de serem provocados pela extrema-direita, os motins proporcionaram-lhe a sua melhor oportunidade de recrutamento e radicalização em anos. As manifestações atraíram multidões de avós confusas, politicamente alienadas e racistas e jovens permeáveis ao clima do momento, muitas vezes provenientes de regiões em declínio, muitos dos quais estão certamente muito mais em apuros do que os vigaristas e os milionários que os incitam a agir. Muitos não votaram nas últimas eleições (onde a taxa de abstenção atingiu um nível recorde) ou votaram em Reform UK [o partido de Nigel Farage, figura política da direita radical do movimento pró-Brexit] devido a um desejo de há muito tempo de punir os migrantes e os rebeldes.

Nem todos estavam lá para participar em motins ou pogroms, e uma parte da base da extrema-direita ainda é respeitadora da ordem pública, apesar das recriminações de Nigel Farage sobre um «dois pesos, duas medidas em matéria de manutenção da ordem». Por isso, Tommy Robinson sentiu a necessidade de se distanciar dos tumultos, quando ele os tinha inicialmente defendido. No entanto, para os elementos fascistas presentes, e que sabiam o que estavam a fazer, o fator decisivo foi a descoberta de uma massa crítica de jovens homens prontos para se envolverem na via da violência.

Como sempre, entre aqueles que disseram que os tumultos expressam «preocupações legítimas» encontramos uma fração do «lumpen-comentariato», encarnada por Carole Malone, Matthew Goodwin, Dan Wootton e Allison Pearson. Note-se, no entanto, que estas «preocupações» não se referem às questões de «fim de mês» [bread and butter issues] que muitos à esquerda parecem pensar que irão desarmar a agitação racista: como já disse em várias ocasiões, não é a economia que está aqui em causa. O que os dois recentes ataques de pânico moral têm em comum é a imagem coprológica de um «material que não está no seu lugar»: fronteiras e barreiras em erosão e pessoas que estão onde não deveriam estar. Os «factos» não importam, como foi provado pelo facto de que os motins continuaram mesmo quando a justiça revelou que o suspeito era, na realidade, um menor britânico. O «fact-checking» não pode fazer desaparecer este fenómeno. Seria instrutivo perguntar a um dos manifestantes «branco» ou «inglês», o que ele ou ela teria feito se o suspeito fosse branco. Um dos argumentos de racionalização dos manifestantes que afirmam não ser racistas é que, como o suspeito matou crianças, ele não é «realmente» britânico, porque matar crianças vai contra os «valores britânicos». Mas mesmo que se suponha que os amotinadores teriam agido assim se um homem branco tivesse matado crianças, o que é que eles ou elas teriam defendido nesse caso? E quais seriam os alvos? Os Wetherspoons [cadeia de pubs] locais?

Vale a pena olhar para o funcionamento histórico destes rumores. Em 1919, em East St Louis, Illinois, um massacre racista foi desencadeado por um falso rumor de que os negros da cidade conspiravam para assassinar e estuprar milhares de brancos. Em Orleans, em 1969, lojas judaicas foram atacadas por revoltosos inflamados pelo rumor de que comerciantes judeus estavam a drogar as suas clientes e a vendê-las como escravas. Em 2002, a alegação infundada de que muçulmanos incendiaram um comboio com peregrinos hindus a bordo foi usada como pretexto para uma série de assassinatos e estupros em massa. Como mostrou Terry Ann Knopf na sua história dos rumores e tumultos racistas nos Estados Unidos, estas mobilizações funcionam precisamente sem «critérios de provas», porque os detalhes e as especulações sobre acontecimentos extraordinários – reais ou imaginários – funcionam como autênticos nós em torno dos quais se cristaliza uma fantasia racista já ativa. Nestas circunstâncias excecionais, reais ou supostas, rejeitam-se as fontes oficiais (só as «ovelhas» confiam nos «grandes meios de comunicação») enquanto as «testemunhas oculares» ou os «peritos» não oficiais adquirem um estatuto momentaneamente indiscutível. A distorção sistemática dos factos torna-se um método. O que conta é o que a fantasia permite, o que ela permite fazer. Neste caso, ela permitiu que as pessoas realizassem os seus fantasmas de vingança.

E no entanto, esses movimentos dependem inteiramente de fontes oficiais das quais desconfiam. Afinal, como é que a BBC pode falar de uma dessas manifestações à Tommy Robinson como uma «marcha pró-britânica» e repetidamente qualificar inocuamente os amotinados como «manifestantes», enquanto na ITV, Zarah Sultana [Deputada de Coventry desde 2019 e figura da ala esquerda do Partido Trabalhista] é tratada com desprezo por um painel de gente branca por ter mencionado a islamofobia e o facto de que os apresentadores do programa descrevem muçulmanos em posição de autodefesa como «Pessoas mascaradas gritando Allah Akbar»? Como é que, como em França, os momentos mais «populistas» e mais afastados do centro político neoliberal são aqueles em que tentam flanquear os fascistas sobre a raça, a imigração e a «questão muçulmana»? Nada é mais impecavelmente burguês e conformista neste nosso tempo do que a metafísica racial da extrema-direita.

O coração vibrante da ideologia que interpela e reúne essas multidões racistas é a ideia de fronteira. A extrema-direita europeia do período entre as duas guerras tinha uma visão colonial, a sua utopia alimentava-se da ideia de expansão territorial. A extrema-direita etnonacionalista de hoje está essencialmente na defensiva, preocupada com o declínio e a vitimização e, na Europa e na América do Norte, com a perspetiva da «extinção dos Brancos». No entanto, muitas das suas principais inovações táticas e ideológicas não provêm dos centros históricos de acumulação do capital mas do Sul global: o evento que serviu de sinal prenúncio não foi o drama regional do Brexit, mas o pogrom de Gujarat [1]. Está na hora de mais uma vez provincializar a Europa; esta horrível saga faz, de facto, parte do processo de autoprovincialização da Europa, mesmo quando esta está em clara dificuldade para manter o seu poder mundial. Existe uma relação direta entre as fronteiras sangrentas da fortaleza Europa, o seu crescente militarismo e o refluxo etno-chauvinista. E não há exemplo mais provincial do que uma «Grã-Bretanha» em declínio que tenta pateticamente «atuar no tribunal das grandes potências», enquanto ela desenvolve os instrumentos de um processo sádico de delimitação e se dirige aos seus súditos na linguagem do absolutismo étnico.

Enquanto estes eventos nojentos estavam a acontecer na Inglaterra, eu estava na Irlanda, num acampamento de verão ecosocialista em Glendalough. Ouvi de militantes antifascistas locais que recentemente tiveram que enfrentar distúrbios semelhantes, também favorecidos por políticos e pelos meios de comunicação burgueses.

Parece haver três pontos em comum entre as duas situações.

O primeiro era que, taticamente, quando se tentava separar os fascistas do público racista que os segue, não é ajuda falar de «extrema-direita». A questão do fascismo dificilmente pode ser evitada, mas é preciso falar concretamente sobre o que estas pessoas realmente representam. Caso contrário, muitos daqueles que queremos convencer vão considerar isso como intimidação moralista e até mesmo orgulhosamente adotarão termos como «extrema-direita» para se definirem a si mesmos.

O segundo ponto é que em termos de intervenção política imediata, é mais útil ter comités enraizados nas comunidades locais, capazes de reagir rapidamente e defender as pessoas atacadas com os meios adequados do que trazer militantes das cidades que ninguém conhece. Claro que precisamos de grandes mobilizações, mas elas devem servir como pontos de encontro para ações futuras.

Por fim, é absolutamente inútil decodificar a violência racista plebeia como uma expressão deformada de «interesses materiais» e tentar contorná-la organizando-se sobre outro assunto, como a água ou o alojamento, porque isso não permite atacar o racismo subjacente.

É sobre este último ponto que desejo concluir. Eu tenho repetidamente realçado que nós temos que parar de pensar que as questões das contas do fim do mês [bread and butter issues] resolverão o problema. Pão e manteiga é bom. Todos nós apreciamos, mas não amamos isso. Se o leitor tem filhos e gosta deles, não é porque eles aumentam o seu poder aquisitivo, a sua energia e os seus tempos livres. Amam-nos, entre outras coisas, por causa das suas necessidades, pelos sacrifícios que tendes de fazer por eles. Por outro lado, não é de surpreender que a maioria das pessoas não vote, na maior parte do tempo, com base na sua carteira. A ideia de que é uma patologia particular que só se manifesta nos partidários do Brexit ou nos eleitores de Trump é absurda. O que odiamos não é o sacrifício, mas a sensação esmagadora de humilhação, derrota e fracasso. Diante disso, estamos prontos para quase tudo para ganhar algo. Há que voltar à teoria das paixões ou, em termos marxistas, à relação da humanidade com o seu objeto.

Mais especificamente, num contexto de competição social implacável, a crescente desigualdade de classe, a cultura de celebração dos vencedores e o sadismo para com os perdedores, e as consequências psicológicas cada vez mais tóxicas do fracasso, devemos levar em conta as paixões persecutórias e vingativas segregadas pelo corpo social.

Em vez de simplesmente culpar a desinformação, ou de designar como bode expiatório a interferência russa ou o «lobby israelita», devemos pensar sobre como as campanhas de desinformação exploram essas paixões incontroláveis e as transformam em armas políticas. Devemos perguntar-nos como é que a excitação transbordante desses tumultos, o seu entusiasmo diante do espectro da catástrofe e da aniquilação, é em parte uma alternativa aos afetos onipresentes de paralisia e depressão nascidos de uma civilização moribunda.

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[1] N.T. Lê-se na Wikipedia: Segundo dados oficiais, os distúrbios terminaram com 1.044 mortos, 223 desaparecidos e 2.500 feridos. Dos mortos, 790 eram muçulmanos e 254 hindus. O Relatório do Tribunal dos Cidadãos Preocupados estimou que até 1.926 pessoas podem ter sido mortas. Outras fontes estimaram o número de mortos em mais de 2.000. Muitos assassinatos brutais e estupros foram relatados, bem como saques generalizados e destruição de propriedades. Narendra Modi, então ministro-chefe de Gujarat e posteriormente primeiro-ministro da Índia, foi acusado de tolerar a violência, assim como a polícia e funcionários do governo que supostamente dirigiram os manifestantes e forneceram listas de propriedades de propriedade de muçulmanos a eles.(original aqui)

 


O autor: Richard Seymour [1977-] é um escritor e palestrante marxista norte-irlandês, ativista e autor do blog Lenin’s Tomb (o túmulo de Lenin). Ele é autor de livros como The Meaning Of David Cameron (2010), Unhitched (2013), Against Austerity (2014), Corbyn: O estranho renascimento da política Radical (2016) e The Twittering Machine (2019). Ex-membro do Partido Socialista dos Trabalhadores (SWP, Socialist Workers Party), deixou a organização em março de 2013. Ele completou o seu doutoramento em Sociologia na London School of Economics sob a supervisão de Paul Gilroy. Anteriormente, escreveu para publicações como The Guardian e Jacobin. (para mais info ver wikipedia aqui)

 

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