Quatro democracias em crise profunda: França, Reino Unido, Alemanha e Estados Unidos — Alemanha – Texto 13

 

Nota prévia

Continuamos a fazer circular textos sobre as Democracias em profunda crise. Hoje o décimo terceiro texto da série de textos sobre a Alemanha.

JM


Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

3 min de leitura

Alemanha – Texto 13. O estado de ânimo alemão degrada-se com os refugiados ucranianos

Por Thomas Fazi

Publicado por  em 14 de Maio de 2024 (original aqui)

 

       Será que Berlim fez um mau negócio? Credit: Getty

 

Os países europeus já sofreram uma enorme reviravolta económica devido à política mal pensada dos seus governos de colocar a Ucrânia em primeiro lugar, sob a forma de um aumento dos preços e de uma desindustrialização crescente. Isto desencadeou uma insurreição populista anti-establishment que está a minar os partidos tradicionais em todo o continente – e que se espera que seja o grande vencedor nas próximas eleições europeias.

Agora, outra crise relacionada com a Ucrânia pode estar prestes a rebentar. E o canário na mina de carvão, como acontece frequentemente nos dias de hoje, é a Alemanha – a antiga potência da UE que se tornou, mais uma vez, o homem doente da Europa.

Desde o início da guerra, os países da UE ofereceram o estatuto de proteção temporária a cerca de 4,2 milhões de refugiados ucranianos. Destes, cerca de um terço – ou seja, 1,3 milhões de pessoas – foi acolhido pela Alemanha. Nenhum outro país aceitou tantos refugiados.

Esta política de “portas abertas” contou inicialmente com o apoio quase unânime da opinião pública alemã e de praticamente todos os partidos políticos. Mas isso começou a mudar. No fim-de-semana, o chanceler Olaf Scholz exortou os refugiados ucranianos na Alemanha a trabalharem, como condição para garantirem o seu direito a permanecer no país. As suas palavras surgem no meio de uma preocupação crescente – tanto entre o público em geral como entre o poder político – com a elevada taxa de desemprego entre os refugiados ucranianos: menos de 20% deles estão empregados, em comparação com taxas de emprego muito mais elevadas noutros países.

Muitos atribuem esta situação à decisão tomada no início da guerra de conceder automaticamente subsídios de desemprego a todos os refugiados ucranianos, que, consequentemente, recebem subsídios estatais muito mais generosos do que os requerentes de asilo comuns. Assim, cerca de 700.000 ucranianos na Alemanha estão atualmente a receber subsídios de desemprego. Além disso, nem sequer é claro que todos os que recebem sejam efetivamente ucranianos.

Os políticos alemães estão agora a pedir a redução desses benefícios. O líder da União Democrata-Cristã (CDU), Friedrich Merz, está entre os que lideram a iniciativa. Ele disse que tais pagamentos não podem nem devem manter-se, e que em vez disso o estado deveria um sinal forte aoos refugiados: “Queremos que regressem ao mercado de trabalho o mais rapidamente possível”.

Assim, as palavras de Scholz devem ser vistas como um esforço para conter a mais recente reação política contra as políticas do seu governo antes das eleições europeias – uma tentativa desesperada de controlo de danos. O chanceler sublinhou a relação entre emprego e residência permanente: “Na Alemanha, qualquer pessoa que trabalhe aqui e não faça nada de errado tem a certeza de que pode ficar cá. A segurança de residência também resulta do emprego”. Isto implica que os desempregados crónicos poderão ver o seu estatuto revogado.

Para complicar ainda mais as coisas, o governo alemão está agora a enfrentar apelos de Kiev para que os países europeus repatriem refugiados ucranianos do sexo masculino em idade de combater. Confrontado com uma enorme escassez de pessoal do exército, Zelensky está a tentar desesperadamente fazer com que estes homens regressem ao país. Para o efeito, o seu governo anunciou recentemente que todos os homens entre os 18 e os 60 anos que vivem atualmente no estrangeiro deixarão de poder renovar os seus passaportes. A escolha é, portanto, muito difícil para os homens sujeitos ao serviço militar, cujos documentos estão a expirar: regressar à Ucrânia ou pedir proteção em caso de asilo.

Isto coloca o governo alemão numa situação difícil, pois fica dividido entre dois compromissos contraditórios: ser um “porto seguro” para os refugiados ucranianos – incluindo os 256 mil homens entre os 18 e os 60 anos atualmente presentes no país – ou fazer “tudo o que for preciso” para ajudar a Ucrânia na sua guerra contra a Rússia. Alguns políticos pedem que a Alemanha emita documentos de substituição para os recrutas ucranianos cujos passaportes expiraram, enquanto outros – principalmente da CDU – são a favor de encorajar os recrutas a regressar a casa. O ministro do Interior do estado alemão de Hesse, Roman Poseck, da CDU, afirmou este mês que a Alemanha deveria “ajudar a Ucrânia a contar com homens que fugiram para o estrangeiro mas que podem participar na guerra”.

Embora Scholz tenha afirmado que a falta de documentação não afetaria o estatuto de proteção dos ucranianos, a proteção concedida pela União Europeia expira no próximo ano. É de esperar que este debate se intensifique nos próximos meses e que a política da UE para a Ucrânia continue a desmoronar-se sob o peso das suas próprias contradições.

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O autor: Thomas Fazi é escritor, jornalista e tradutor. É autor de The Battle for Europe: How na Elite Hijacked a Continent (Pluto, 2014) e co-autor com Bill Mitchell, de Reclaiming the State: a Progressive Visiono f Sovereignty for a Post-Neoliberal World (Pluto 2017). O seu último livro, em co-autoria com Toby Green, é “The Covid Consensus”.

 

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