CARTA DE BRAGA – “de um pião aos mostajos” por António Oliveira

Estava a sair do parque ao ar livre de um centro comercial quando reparo num calmeirão a atirar ao chão, num espaço livre de casas e carros, o que me parecia ser um pião! Saí calmamente e como conheço a zona, fui parar atrás dele, sem fazer barulho nem lhe chamar a atenção. Ao lado dele está um garoto, sete ou oito anos, e ele a ensinar-lhe a enrolar o baraço em volta do pião. Depois torna a atirar o dele e diz ao miúdo, filho seria, para fazer o mesmo.

Fiquei ali um bom bocado, até ver o garoto apanhar o jeito e, todo contente, saltar para os braços do pai e darem um abraço bem apertado, na dúvida de estarmos no século vinte e um, com gente a guerrear-se por um pedaço de nada, com outra a morrer com falta de tudo, e outra ainda que só acredita no que vê agarrado à palma da mão.

E lembro-me de alguém me ter mandado, há uns meses já, uma foto recordar-me, diz o título, ‘Éramos felizes por tão pouco’! E era verdade, ali está uma fisga, piões, um rapa e um pau aguçado dos dois lados, que servia para fazermos guerra de conquistar espaços, fazendo-o saltar com outro pau, para lhe acertar depois e ver até onde ia, ‘um espaço conquistado à paulada’ num pequeno pedaço de madeira, sem magoar ninguém.

E lembro-me também dos guiadores das bicicletas feitos de arame, e das ‘voltas ao bairro’ a correr com aquilo na mão, na altura da Volta a Portugal, das corridas de placas de madeira com rolamentos pedidos na oficina de camiões que lá havia, e uma corda a segurar um pau onde estavam os rolamentos mais pequenos, e que servia de volante.

Também recordo o arco feito de arame grosso, que os sempre disponíveis empregados da oficina também soldavam, ou cortavam da parte interior do pneu, e que dava mais poder nas ‘guerras’ com o outro bairro, e das ganchetas com que os empurrávamos, sentindo-nos como verdadeiros artistas nas perícias que se faziam, marcando com pedras o itinerário todo.

E lembro-me de fazer papagaios com canas dos foguetes e papel de seda, postos a voar junto ao Moinho de Vento, o único dentro da cidade e que, com toda a certeza, já devem ter deitado abaixo, se calhar para levantar mais uma maison. À tarde era jogar à bola ou aos botões, com um pino e duas malhas iguais, a ver quem ficava com mais (um botão de sobretudo valia quatro botões das calças, e um prateado ou dourado de uma farda qualquer, valia uma dúzia), ou ao berlinde com as esferas dos rolamentos ou das garrafas dos pirolitos.

Eram tempos de se partilhar banda desenhada como o ‘Cuto’, o ‘Mundo de Aventuras’ ou o ‘Cavaleiro Andante’, bem como uma sessão de pancadaria devido a um golo que nunca deveria ter entrado.

Também me lembro dos mostajos, e tenho a certeza de que a quase totalidade das pessoas que têm a bondade de ler estas Cartas, não faz a mais pequena ideia do que quero dizer. Mas quando era garoto, em frente da minha casa havia um casarão de um senhor muito importante –trabalhava no governo naquela altura, num lugar também muito importante– só que tinha um mostajeiro no quintal.

A filha do tal senhor importante era da minha idade, gostava de jogos de tabuleiro, jogávamos debaixo do tal mostajeiro e eu deliciava-me com aquela fruta bem pequena e muito saborosa. Mas um dia ficou em Lisboa, também mudei de lugar, e lá se acabaram os joguinhos de tabuleiro debaixo do mostajeiro, e também nunca mais vi nem comi mostajos, próprios da Beira Alta me disseram, que eram bem bons, aqueles pelo menos!

São coisas de férias, memórias antigas, por ver um pai a ensinar o filho pequeno a atirar um pião, em tempos de IA.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

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