As sílabas marginais/a minha caligrafia está horrível escrevo/de Nelson Ferraz

 

a minha caligrafia está horrível escrevo

sem teclado nas canetas mas as histórias

das minhas histórias foram sempre uma adoração

com tinta cheiro a tinta papel cheiro a papel

e uma caneta qualquer.

nunca soube qual de todas a minha amada

e depois outra dúvida ainda

esferográfica tinta permanente

ou nem uma coisa nem outra mas bic?

amo-vos canetas mas com o tempo a minha caligrafia

está parecida com a das receitas

que antigamente me passavam

escritas à mão

num obtuso segredo médico-farmacêutico

e por isso às vezes:

– aqui diz cortigripe ou corte e gripe

que é como quem diz:

corta o cabelo e apanhas uma gripe. não. nada disso.

brincadeira.

amo-vos canetas mas com o tempo

a minha caligrafia come vogais

e faz empadas de consoantes

os poemas ganham silenciosos um tremendo sentido

mas ficam algum tempo sem sentidos

moribundos como os fantoches sem mãos por dentro.

eis que chego com as mãos e ficamos todos vivos

abraçados a todos os rabiscos possíveis.

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In “Os Cordões Desapertados”, Seda Publicações, 2016.

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