FERNANDO PESSOA/ÁLVARO DE CAMPOS (1888-1935), “ODE MORTAL” (FRAGMENTO)
Tu, Caeiro, meu mestre, qualquer que seja o traje
Com que vestes agora, distante ou próximo, a essência
Da tua alma universal localizada,
Do teu corpo divino intelectual …
Viste com a tua cegueira perfeita, sobre o não ver …
Porque o que viste com os teus dedos materiais e admiráveis
Foi a face sensível e não a face fisionómica das coisas,
Foi a realidade, e não o real.
É à luz que ela é visível,
E ela só é visível porque há luz,
Porque a verdade que é tudo é só a verdade que há em tudo,
E a verdade que há em tudo é a verdade que o mostra!
[…]
Vou em diagonal a tudo para cima.
Passo pelos interstícios de tudo,
E como um pó sem ser rompo o invólucro
E partirei, globe-trotter do Divino,
Quantas vezes, quem sabe? regressando ou mesmo partindo
(Quem a andar de noite quer saber do andar e da noite?),
Levarei na sacola o conjunto do visto –
O céu é de estrelas, e o sol em todos os modos,
E todas as estações e as suas maneiras de cores,
E os campos, e as serras, e as terras que cessam em praias
E o mar para além, e o para além do mar que há além.
E de repente se abrirá a Última Porta das coisas,
E Deus, como um Homem, me aparecerá por fim.
E será o Inesperado que eu esperava –
O Desconhecido que eu conheci sempre –
O único que eu sempre conheci,
E –
12-1-1927

