Quatro democracias em crise profunda: França, Reino Unido, Alemanha e Estados Unidos — Estados Unidos – Texto 19. Quem é que manda na América?  Por Malcolm Kyeyune

 

Nota prévia:

Continuamos a fazer circular textos sobre as Democracias em profunda crise. Hoje publicamos o décimo nono da série de textos sobre as Estados Unidos da América do Norte.

 

Júlio Mota


Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

4 min de leitura

Estados Unidos – Texto 19. Quem é que manda na América? Biden desestabilizou a psique da nação

 Por Malcolm Kyeyune

Publicado por em 23 de Julho de 2024  (original aqui)

 

Biden aparece numa varanda da Casa Branca – (NICHOLAS KAMM/AFP via Getty Images)

 

No domingo, o impossível acabou por se concretizar. Joe Biden, depois de ter jurado que só o próprio Deus Todo-Poderoso o poderia obrigar a abandonar a corrida presidencial de 2024, revelou subitamente que estava acabado. O anúncio, que só apareceu sob a forma de uma publicação nas redes sociais, apanhou os seus próprios colaboradores de surpresa. Mesmo os que trabalham na Casa Branca só souberam da sua decisão na rede do X.

Dizer que se trata de uma situação sem precedentes corre o risco de subestimar a singularidade do momento atual. Não só estamos num território muito estranho do ponto de vista eleitoral (dada a proximidade do anúncio com a convenção do partido), como também há a sensação de que algo correu muito mal com o próprio sistema político.

No momento em que escrevo, há uma preocupação crescente – que ronda a paranoia – de que Joe Biden possa não ter efetivamente assinado a sua carta de demissão. Estão a circular comparações entre a assinatura da carta e as de anteriores ordens executivas, e outros pormenores curiosos, nomeadamente a ausência de um papel timbrado oficial da Casa Branca, que estão também a ser analisados. E seja qual for o mérito destas alegações conspiratórias, o facto básico continua a ser que se trata de uma demissão comunicada pelas redes sociais, através de uma conta que o próprio Biden não controla, enquanto o próprio homem ainda não foi visto. Ontem à noite, a Casa Branca ainda não tinha publicado os planos oficiais para Biden se dirigir à nação. Estará amuado? Estará fisicamente incapacitado? O facto de estas questões estarem a ser colocadas – de existir algum grau de incerteza sobre tudo isto – é, por si só, um momento importante

Terá a América acabado de experimentar a sua própria versão do golpe de 1991 na União Soviética, em que Mikhail Gorbachev foi confinado à sua dacha, com todas as linhas de comunicação cortadas, e pressionado a assinar uma carta declarando o estado de emergência? Será que o funcionário que publicou a notícia da demissão de Biden atuou sob ordens do próprio Biden? Ou foi outra pessoa que tomou essa decisão? Cada hora que passa sem que Biden desfaça publicamente estes rumores aumenta a sensação de irrealidade. Escusado será dizer que este não é exatamente um estado saudável para a “maior democracia do mundo”.

Mas, independentemente dos pormenores, chegou-se a uma conclusão: Joe Biden está fora e Kamala Harris está dentro. Este facto está a ser recebido com um bom grau de celebração entre muitos da direita americana: Harris é uma candidata notoriamente fraca, propensa a gafes e que foi completamente incapaz de avançar nas primárias democratas de 2020. Mas contar com as galinhas eleitorais antes de elas chocarem nunca é sensato, e muito menos nestes tempos extraordinários. O próprio Biden também era um candidato notoriamente fraco (tendo tentado concorrer à presidência várias vezes e falhado espetacularmente de cada vez), ainda mais propenso a gafes do que Harris, e só se tornou o candidato democrata de 2020 como parte de uma conspiração interna concertada para impedir Bernie Sanders de alcançar o poder. Nem Harris nem Biden poderiam esperar ganhar uma primária democrata minimamente competitiva, mesmo que as suas vidas dependessem disso. Mas, como aprendemos em 2020, a incapacidade básica de ganhar uma corrida primária não significa que um candidato não possa depois ganhar a corrida presidencial.

E, no entanto, 2024 não é um ano que se preste a previsões fáceis. No espaço de pouco mais de uma semana, os Estados Unidos viram um candidato presidencial ser baleado e o outro abandonar o cargo em circunstâncias pouco claras. A ideia de que Trump tem agora um caminho automático para a vitória cheira à mesma complacência que o viu perder em 2020 e que alimentou tantas esperanças de uma enorme “onda vermelha” nas intercalares de 2022.

Mas embora seja impossível prever com confiança o resultado das eleições em novembro, o futuro próximo é bastante fácil de prever: mais caos político, paranoia e incerteza. A decisão de Biden de permanecer como presidente, mesmo admitindo agora que não está apto para fazer campanha para a reeleição, não é de todo sustentável. Cada vez mais republicanos estão a dizer o óbvio: se não se está suficientemente saudável para concorrer à presidência, é óbvio que não se está suficientemente saudável para ser presidente. É provável que esteja prestes a começar uma verdadeira batalha para retirar Biden do seu lugar na Sala Oval – quer convencendo-o ou coagindo-o a demitir-se “voluntariamente”, quer invocando a 25ª Emenda. Esta última hipótese seria um momento de viragem sem precedentes, mas os momentos de viragem sem precedentes parecem ter-se tornado uma dúzia de vezes mais frequentes nos Estados Unidos nos últimos tempos.

Existe um velho provérbio africano: quando os elefantes lutam, é a relva que é espezinhada. É tentador analisar estes grandes e caóticos movimentos dentro do sistema político americano simplesmente em termos da corrida aos cargos políticos: o que é que esta corrida poderia significar, poder-se-ia perguntar, para os grandes doadores, se de facto Biden tivesse continuado a concorrer? Mas embora isso possa ser interessante, o contexto mais alargado de todo este caos é mais importante. Quem é que manda nesta altura? Será Barack Obama, ou Nancy Pelosi? Será o próprio Joe Biden, apesar de todos os sinais em contrário? Ou será que ninguém está a mandar?

Poucos parecem ser capazes de responder a estas questões com autoridade, e parece cada vez mais improvável que as eleições resolvam esta rutura fundamental. É pouco provável que uma vitória de Trump acalme a paranoia que se infiltrou nas paredes da consciência política americana; uma vitória de Harris, especialmente nesta altura, pode não ser aceite como legítima por um grande número de republicanos.

Assim, embora a América não esteja ainda ao mesmo nível de crise que a União Soviética em 1991, reconhecer esse facto é sujeitar os EUA a um elogio muito fraco. É verdade que as interpretações de O Lago dos Cisnes ainda não estão a passar num loop infinito na CNN e na MSNBC, exortando os cidadãos soviéticos da América a manterem a calma enquanto os tanques sobem a Pennsylvania Avenue. Mas a fé está certamente a começar a diminuir. Alguns podem dizer que a saída de Biden é a prova de que o sistema político dos Estados Unidos está a funcionar. Mas, tal como os últimos meses provaram o contrário, não se surpreendam se os próximos meses fizerem o mesmo.

 

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O autor: Malcolm Kyeyune [1987-] é um escritor sueco. Escreve em publicações tais como Aftonbladet. Fokus. Göteborgs-posten, Dagens Samhälle, Kvartal, Unherd, The Bellows, American Affairs, Compact magazine. Tem uma distribuição de conteúdos on line [podcast] juntamente com Markus Allard do Partido Örebro. Ele faz parte do Conselho Diretor do grupo de reflexão conservador Oikos, liderado pelo político Mattias Karlsson. Kyeyune foi membro da Jovem Esquerda Sueca e presidente do distrito de Uppsala até 2014, altura em que foi suspenso devido a conflitos no seio do partido de esquerda. Embora às vezes seja rotulado pelos media como conservador devido à sua participação em Oikos, Kyeyune descreve-se principalmente como um marxista. Ele defendeu o populismo como uma doutrina política, que ele define como a noção de que “um país onde a vontade do povo dirige a agenda será um país justo e que funciona bem” e que se deve “acreditar nas pessoas comuns, nos trabalhadores”, mesmo que tal posição implique que ele, um marxista, se junte a “pessoas como Jimmie Akesson [líder do partido de extrema-direita Democratas Suecos] ou Paula Bieler [foi membro ativo dos Democratas Suecos, partido que abandonou em 2020]”.

 

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