ESCREVER A SAUDADE (EM LUSOFONIA)
há uma caneta nesta praia poisada sobre o sol que se deita.
mil multidões acenam às nuvens que bebem os barcos que eram.
o silêncio é um compêndio de madrugadas antigas que foram margens
onde nasceu a música da partilha sem fronteiras.
a cultura implantou um coração em cada substantivo.
o idioma é um tinteiro aberto num corpo sem distância.
o sal é o mesmo de outros jardins com mar.
daqui outros mundos foram a porta cheia de janelas.
a árvore da fonética comum que semeou caminhos plurais
em territórios singulares unidos pelas primeiras palavras.
dizer amor com muitas sílabas.
escrever saudade com o peito em chamas.
desenhar a nostalgia com a gramática dos olhos.
acreditar que a Língua é uma luz vinda de dentro.
e sermos isto numa cidade invisível
cheia de ruas que nos procuram nas palavras.
há uma caneta nesta praia poisada sobre o sol que se deita.
de um e de outros lados os dedos buscarão os poemas.
não é fácil soletrar as âncoras.


