As sílabas marginais/ESCREVER A SAUDADE (EM LUSOFONIA)/Nelson Ferraz

 

ESCREVER A SAUDADE (EM LUSOFONIA)

 

há uma caneta nesta praia poisada sobre o sol que se deita.

mil multidões acenam às nuvens que bebem os barcos que eram.

o silêncio é um compêndio de madrugadas antigas que foram margens

onde nasceu a música da partilha sem fronteiras.

a cultura implantou um coração em cada substantivo.

o idioma é um tinteiro aberto num corpo sem distância.

o sal é o mesmo de outros jardins com mar.

daqui outros mundos foram a porta cheia de janelas.

a árvore da fonética comum que semeou caminhos plurais

em territórios singulares unidos pelas primeiras palavras.

dizer amor com muitas sílabas.

escrever saudade com o peito em chamas.

desenhar a nostalgia com a gramática dos olhos.

acreditar que a Língua é uma luz vinda de dentro.

e sermos isto numa cidade invisível

cheia de ruas que nos procuram nas palavras.

há uma caneta nesta praia poisada sobre o sol que se deita.

de um e de outros lados os dedos buscarão os poemas.

não é fácil soletrar as âncoras.

 

 

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