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Pluralismo, ideias e disputa da hegemonia num capitalismo deslaçado, mas poderoso
O meu Professor Júlio Mota pediu-me “uma nota” sobre este texto de Adam Tooze (ver aqui), muito gramsciano e, por isso, muito útil. É um texto recheado de assuntos: desde a discussão que prolifera sobre a política industrial até às relações económicas entre os grandes blocos do mundo, passando pela economia política americana ou pela globalização. Sem lhe perguntar, intuí, no entanto, que a sugestão era que falasse do que me parece ser o tema mais transversal do artigo: o pensamento económico predominante, os elementos ideológicos que lhe dão forma, a redução do pluralismo através da imposição de narrativas poderosas e asfixiantes que criam o que Tooze chama “uma dissonância cognitiva generalizada” – interpreto eu, em termos prosaicos, um grande e improdutivo desentendimento.
A frase em que ponho todos os sublinhados é esta: “Se a economia é sobre narrativas, essas narrativas fazem mais do que apenas esclarecer. Até certo ponto, elas obrigam-nos”. Sim, a economia estabelece narrativas, em primeiro lugar porque as ideias contam – sempre contaram. Depois porque as ideias são poder e o poder está mal distribuído, como sabemos. E, por isso, as construções intelectuais que se produzem, embora permitam dizer (como eu quero aqui dizer) que o pensamento económico contemporâneo é plural, como aliás sempre foi plural nas diferentes sucessões de épocas, a verdade é que a “obrigação” que cada campo do pensamento económico gera é muito diferente. Umas são obrigações quase indiscutíveis, porque ressoam ao que se generalizou, ao que fica mal não aceitar, ao que é legitimado pelos donos de muita coisa. E outras são “simples” pontos críticos, alusões inquietas, dissensões ou divergências marginais e impertinentes. De que vale, por exemplo, ter andado décadas a discutir quer a visão “globalista” quer a realidade da globalização, se tanta gente põe logo esse pé na porta e impõe o conceito, porque a isso se habituou?
Dou outro exemplo: ontem mesmo foi atribuído o “nobel” da Economia. A economistas, sobretudo um, que falam de instituições e de construção (palavra já aqui usada e a que voltarei) de instituições. Para um economista político institucionalista como eu, isso é de saudar? Talvez, dentro da ideia de que é preciso fazer prevalecer o pluralismo. Contudo, o institucionalismo, que vem de longe e que é um campo crítico e inquieto, foi há muito elevado à condição de instrumento classificatório para reduzir o conceito e fazer dele um elemento de julgamento de bem e de mal (boas instituições, más instituições). A carga “obrigacionista” deste discurso elevou-se, e muito.
O essencial do argumento de Adam Tooze sobre “a força do discurso coletivo ou da ideologia em ação” estará porventura num ponto muito particular: em termos simples, como saímos disto, como resolvemos a dissonância cognitiva, como podemos aspirar a mais do que uma crise hegemónica, como podemos rivalizar com um pensamento que dê espaço para interpretações equilibradas e mais justas do mundo e da economia? Como nos desembaraçarmos das obrigações obsessivas a que o pensamento económico dominante nos submete?
É aqui que regresso à palavra “construção”: “as crises hegemónicas são problemas de construção”. São sim. E isto pode significar duas coisas: inserem-se em processos longos e implicam uma perceção generosa dos conjuntos alargados de instâncias e meios que são necessários para construir e disputar a hegemonia. Uma pergunta simples: Por que é que o capitalismo tem sido tão longo e persistente? Revelo já que estou a aproveitar para fazer publicidade grátis a um artigo que escrevi com este título e para que o link que aqui deixo remete. O que ali quis dizer foi mais ou menos isto: o capitalismo não está inserido na ordem natural das coisas, não caiu do céu, não é um resultado inevitável da natureza humana – é uma construção institucional longa, complexa, em que se incluem os próprios mercados (que são uma instituição e foram laboriosamente criados para que o capitalismo dispusesse deles), mas em que o Estado, as organizações e as comunidades também são mobilizados, como mostra o que se passou nos capitalismos desenvolvidos quando se formaram sólidas economias mistas e Estados-providência muito intervenientes. O capitalismo é, pois, uma entidade sempre amparada e protegida. Isto não soa ao que frequentemente ouvimos, pois não?
Tudo isto se deslaçou e está em crise, por se ter colocado no lugar do que era complexo um poder largamente dominante – o poder financeiro, que pôs o capitalismo a assentar no ter (ter ativos financeiros, que por isso recebem juros) em vez de no fazer (coisa que tornava os capitalistas industriais detentores de lucros). Pode pensar-se que ficou mais simples, pois a razão das crises está essencialmente num único lugar, a crítica é mais direta e um único mecanismo é mais facilmente removível. Mas não. Porque tudo isto é uma construção laboriosa, poderosa. Tanto como construído e laborioso tem de ser o que o possa desmontar. Sim, talvez não seja difícil o consenso acerca da economia que se deseja: produtiva, criadora de valor, capaz de o redistribuir, desglobalizada, facilitadora do acesso ao que deve ser comum, transparente nos poderes que nela intervêm e na legitimidade que eles devem ter. Mas entre esse desejo e o que forma os nossos dias é preciso colocar uma intensa construção.
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O autor: José Reis é Professor Catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC), onde se licenciou [1978] e doutorou [1989] em Economia com uma tese publicada em livro sob o título “Os Espaços da Indústria: a regulação económica e o desenvolvimento local em Portugal”, Porto, Afrontamento, 1992. Em 1998 obteve a Agregação, com uma lição sobre “O institucionalismo económico: crónica sobre os saberes da Economia”. É membro do Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável, Coordenador do Observatório sobre Crises e Alternativas e Cocoordenador do Programa de Doutoramento em Governação, Conhecimento e Inovação. Foi Presidente da Comissão de Coordenação da Região Centro [1996-1999], Secretário de Estado do Ensino Superior [1999-2001], Presidente do Conselho Científico [1992-1994 e 2000-2004] e Diretor da FEUC [2009-2015] e Presidente da Direção da Associação Portuguesa de Economia Política [2016-2020]. Em 2018 foi convidado da Maison des Sciences de l’Homme, em Paris, como Directeur d’Études Associé. Tem sido investigador ou professor visitante em Universidades dos Estado Unidos da América, da França, da Itália e do Brasil. Desenvolve investigação em três grandes áreas: a) organização e evolução dos sistemas económicos, tendo em conta as dinâmicas produtivas, o trabalho e os sistemas de emprego e de provisão e a formas de inserção internacional; b) territórios, sistemas produtivos e as dinâmicas regionais; c) governação e instituições da economia. Assume uma perspetiva de economia política institucionalista e interessa-se pelas economia portuguesa e europeia. É autor dos seguintes livros: “Cuidar de Portugal: Hipóteses de Economia Política em tempos convulsos”, Coimbra, Almedina, 2020, “A Economia Portuguesa: Formas de Economia Política numa periferia persistente (1960-2017)”, Coimbra, Almedina, 2018, “Ensaios de Economia Impura”, Coimbra, Almedina/CES, 2007 (1ª edição) e 2009 (2ª edição),” Portugal e a Europa em Crise: Para acabar com a economia de austeridade”, Lisboa, Actual, 2011 (com João Rodrigues). Coordenou os livros “A Economia Política do Retrocesso: Crise, causas e objetivos”, Coimbra, Almedina/CES, 2014, e “Como Reorganizar um País Vulnerável?”, Coimbra: Actual, 2020. Em 2019 participou em dois livros resultantes de projetos de investigação de que fez parte: “A Nova Questão da Habitação em Portugal: Uma abordagem de economia política (Ana Cordeiro Santos, org., Coimbra: Actual, 53-86), onde publicou o capítulo “O território ainda existe? Sistemas de provisão de habitação e o desperdício do país” e “A Ciência Económica em Portugal” (Vítor Neves e José Reis, org. Coimbra: Edições Almedina), sendo autor do capítulo “O GEBEI: Um pensamento económico estruturado na periferia da Europa” e co-autor de “As ideias económicas em debate”.


