CARTA DE BRAGA – “da pobreza, desigualdade e de ovos” por António Oliveira

A pobreza e a desigualdade, se não considerarmos –as guerras e os candidatos a imperador que as comandam– marcam decisivamente esta década e este século, pelos números escandalosos que nos saltam aos olhos, tanto pelas fortunas envolvidas e até guardadas –quase sempre de forma menos limpa– como pelos seres humanos que as sofrem, pois de acordo com o ‘Diário de Notícias’ do passado dia 16, ‘O risco de pobreza ou exclusão social afecta uma em cada cinco pessoas, só em Portugal’.

De acordo com a Rede Europeia Anti-Pobreza (REAP), ‘A luta contra a pobreza é uma escolha política. No relatório de 2024, a organização destacou que 1,78 milhões de pessoas vivem com menos de 591 euros por mês, a maioria mulheres (54%)’, um aumento efectivo de 20.000 pessoas em situação de risco de pobreza ou exclusão social, em relação ao ano anterior, atingindo 2.104.000 pessoas.

Se quisermos saber a dimensão destes problemas a nível global, o ‘Diario 16’ daqui ao lado, chama para a primeira página do dia 13, um título fantasmagórico, ‘A desigualdade mais cruel: mais de 330 milhões de crianças vivem numa pobreza extrema’, logo seguido da real interpretação –a pobreza, as desigualdades, as deslocações forçadas, os conflitos, a alteração climática, a inseguridade alimentar e a exploração sexual, a instabilidade política e a natureza mutável da delinquência organizada, nacional e transnacional– são alguns dos entraves a afectar cada vez mais, as crianças no mundo inteiro.

A representante especial das Nações Unidas para estas casos, Najat Maalla, garante ainda, numa entrevista ao Canal de Notícias daquela organização, ‘O problema está em que não há nenhum país que seja imune, nenhuma criança é imune, e em todos os países encontramos muitas, mas mesmo muitas, formas de violência’.

Não posso deixar de voltar àquele tema do estudo da REAP, onde se afirma ‘A luta contra a pobreza é “uma escolha política’, acrescentando e justificando assim, tal afirmação, ‘Todos os dias, nos confrontamos com situações de pobreza que resultam da desigualdade enraizada na nossa sociedade, da injustiça, da intolerância e do estigma’, considerando depois ‘É necessária uma intervenção próxima das pessoas, de cada pessoa, de cada família’.

O estudo não aponta causas nem responsabilidades, mas pede ‘Um novo paradigma social, um combate colectivo e políticas transversais; uma frase bem bonita, se calhar duramente pensada, mas que, creio bem, ficará bem arrumada na prateleira das intervenções, das notícias publicadas e até uma palmada amiga nas costas do autor.

Por mim contraponho um diálogo de Woody Allen, tirado do seu filme ‘Annie Hall’, mesmo sem saber a exactidão das palavras ali usadas, a contar a ida de um fulano a um psiquiatra, para se queixar de um irmão, ‘Ele está louco, julga que é uma galinha!; o psiquiatra pensa bem no que o fulano conta e diz-lhe para o internar. Só que o tal fulano lhe responde ‘Até o poderia fazer, mas preciso dos ovos!

Este diálogo, made in Woody Allen, acaba por ser um retrato, se calhar cruel, da relação dos políticos com os cidadãos ou vice-versa, pois todos precisamos dos ovos, o que não deixa bem, tanto uns como os outros, dependendo do modo como se ler.

A pensar friamente, qual dos grupos deveria ser internado?

E, já agora, quem ficaria com os ovos?

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

 

Leave a Reply