Seleção e tradução de Francisco Tavares
4 min de leitura
Porquê tanto ódio?
Publicado por
em 30 de Outubro de 2024 (original aqui)
Trump aproveitou uma corrente subterrânea de ódio bruto e encorajou os seus apoiantes a expressá-lo. De onde vem todo esse ódio?
Recebo muitos e-mails de ódio, especialmente em resposta a colunas ou postagens críticas a Donald Trump. O meu artigo no outro dia sobre Trump e fascismo trouxe algumas dessas lindezas.
Aqui está um trecho de um dos mais apresentáveis:
Eu acho que para um tolo atrasado liberal como você, é fascismo apenas se conservadores/republicanos/Trump estão no poder, mesmo que eles nem sequer tentem fazer tais coisas. Por outro lado, para um atrasado liberal, os democratas serem de facto fascistas de alguma forma é equiparado a “proteger a democracia” (na qual nem sequer vivemos, nem fomos criados para estar). Seu maldito comunista de merda nojenta e mentirosa!
Algumas destas cartas de ódio fazem um tímido esforço para se envolver em argumentos, mas a maioria são puro veneno. De onde vem este ódio e o que o poderá atenuar para que possamos regressar a uma democracia um pouco mais civilizada?
A resposta curta, penso eu, é que esta gente que odeia fomentados por Donald Trump odeiam especialmente os liberais. E se você se preocupar em rever a história do século passado, você pode ver o porquê.
Desde, pelo menos, a presidência de Bill Clinton, os Democratas tornaram-se o partido dos profissionais das duas zonas costeiras, educados e cosmopolitas, e prestaram muito pouca atenção à situação dos trabalhadores comuns, em pequenas cidades, áreas rurais e comunidades outrora prósperas desertas por fábricas que não se mantiveram. Juntamente com esta negligência económica veio a condescendência cultural. A frase “estados de sobrevoo” diz tudo.
Se o Partido Democrata estivesse a fazer o seu trabalho, parte do ódio seria direcionado para os banqueiros bilionários e os monopolistas que estão a aumentar os preços, a destruir empregos e a capturar rendimento que deveria estar a ir para os americanos comuns. Mas esta gente que odeia não odeiam os bilionários. Seria uma estranha inversão do interesse de classe, se os Democratas fossem um partido populista mais credível. Mas não são.
Compare a forma de ódio de hoje com os tempos de FDR [Franklin Delano Roosevelt]. Havia ódio naquela época, mas não era o ódio das pessoas comuns dirigido para os democratas. FDR definiu-o perfeitamente quando disse dos banqueiros e lealistas económicos: “eles são unânimes no seu ódio por mim, e congratulo-me com o seu ódio.”
FDR, ao cumprir com os americanos comuns e restringir os capitalistas abusadores, ganhou o ódio destes. Havia também fatores de ódio racial durante a era do New Deal, que aumentou à medida que Roosevelt se tornou mais um liberal racial. Na Convenção Nacional Democrata de 1936, quando um ministro negro foi convidado para proferir a invocação, o senador “Cotton Ed” Smith, da Carolina do Sul, líder dos racistas Dixiecrats, saiu ruidosamente em protesto. No entanto, FDR ganhou todo o sul.
Mesmo em 1948, quando Harry Truman se tornou um liberal racial muito mais explícito do que Roosevelt, Truman ganhou a maior parte do Sul branco porque os eleitores se lembraram com gratidão de como o New Deal salvou as suas condições de subsistência.
Isto leva-me à complicada questão da ligação entre o ódio anti-liberal de hoje e a inevitável reação contra os Democratas pós-LBJ [Lyndon Johnson] como o partido da igualdade racial e de género. Os homens brancos sofreram alguma perda relativa de status no lar e na comunidade, à medida que negros, mulheres e, posteriormente, minorias sexuais ganharam direitos, de modo que os Democratas tiveram a garantia de sofrer algumas perdas.
Mas as perdas – e o puro ódio – teriam sido muito menores se esta não fosse também uma era de negligência económica dos trabalhadores em geral, combinada com os Novos Democratas ao estilo Clinton a irem para a cama com os banqueiros. Em comparação com duas gerações atrás, é muito mais difícil conseguir um emprego com um salário que sustente uma família, compre uma casa, financie os estudos na universidade, obtenha cuidados de saúde confiáveis ou espere uma aposentação decente. O presidente Biden deu alguns bons primeiros passos e Kamala Harris promete mais, mas não o suficiente para inverter as tendências mais profundas.
E isto leva-me ao anúncio televisivo que a campanha de Trump tem veiculado em transmissões de jogos de futebol e basebol. O anúncio mostra Harris com duas pessoas trans, inclui um clipe editado de uma entrevista antiga em que Harris parece estar a dizer que apoia o direito dos presos de fazerem uma cirurgia de alteração de género e termina com o slogan astuto “Kamala é para eles/elas, o presidente Trump é para você.”
É verdade que seria um pesado para os democratas fazerem tudo para apoiar os direitos trans, mesmo com mais atenção ao que aconteceu com a classe trabalhadora. Mas, na ausência de uma política de classe credível que cumpra, os Democratas estão a agitar bandeiras vermelhas contra o proverbial touro.
Se Kamala vencer, será um longo caminho de volta para diminuir o ódio e reconquistar o apoio da classe trabalhadora. Talvez na próxima geração.
__________
O autor: Robert Kuttner (1943-) é um jornalista americano e escritor cujos livros apresentam pontos de vista liberal/progressistas. É co-fundador e co-editor do The American Prospect criado em 1990 e professor na Brandeis University’s Heller School. Durante 20 anos foi colunista no Business Week e no The Boston Globe. Atualmente continua a escrever no Huffington Post. É também um dos cinco fundadores do Economic Policy Institute em 1986, integrando presentemente o seu comité executivo. Entre 2007 e 2014, Kuttner aderiu ao centro liberal de investigação e política Demos como ilustre membro senior. O seu último livro é Can democracy Survive Global Capitalism?


