As sílabas marginais/A CUMPLICIDADE NOS VERBOS/Nelson Ferraz

 

 

A CUMPLICIDADE NOS VERBOS

 

 

não sei se aqueles anos foram anos bons

   [nunca aprendi a catalogá-los como tu]

mas havia bom café e o ar tinha o perfume

dos amigos substantivos.

 

entre sonhos e conversas cultivava-se então

um tempo quase eterno como se fosse um livro.

um tempo que tinha a perfeição dos lugares à prova de ruína.

 

a cumplicidade estava nos verbos

e era uma coisa repetidamente nova que nos apedrejava

com dias limpos e sucessivos como se fosse sempre de manhã.

 

éramos diferentemente iguais mas completos

na possibilidade real do afecto improvável das circunstâncias.

 

habituei-me ao esvoaçar imprevisto de todos os nossos gestos

que nos pertenciam por dentro.

e não.

não me apercebi que íamos crescendo em direcção a um depois

sem nós nos mesmos sítios.

 

o campus.

tu e tu ficaram lá longe dobrados em duas pessoas bonitas.

não sei se aqueles anos foram anos bons

   [nunca aprendi a catalogá-los como tu]

mas havia bom café e o ar tinha o perfume

dos amigos substantivos.

 

sim. foram anos bons.

 

 

 

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