A CUMPLICIDADE NOS VERBOS
não sei se aqueles anos foram anos bons
[nunca aprendi a catalogá-los como tu]
mas havia bom café e o ar tinha o perfume
dos amigos substantivos.
entre sonhos e conversas cultivava-se então
um tempo quase eterno como se fosse um livro.
um tempo que tinha a perfeição dos lugares à prova de ruína.
a cumplicidade estava nos verbos
e era uma coisa repetidamente nova que nos apedrejava
com dias limpos e sucessivos como se fosse sempre de manhã.
éramos diferentemente iguais mas completos
na possibilidade real do afecto improvável das circunstâncias.
habituei-me ao esvoaçar imprevisto de todos os nossos gestos
que nos pertenciam por dentro.
e não.
não me apercebi que íamos crescendo em direcção a um depois
sem nós nos mesmos sítios.
o campus.
tu e tu ficaram lá longe dobrados em duas pessoas bonitas.
não sei se aqueles anos foram anos bons
[nunca aprendi a catalogá-los como tu]
mas havia bom café e o ar tinha o perfume
dos amigos substantivos.
sim. foram anos bons.



Tu e tu. Um nós…