CARTA DE BRAGA – “da tosse e da fome a Pessoa” por António Oliveira

Vou basear esta Carta num aforismo, que ouvi de manhã da Antena 2, num programa dos primeiros dias do mês de Outubro. Como o achei curioso, verdadeiro e até aproveitável para uma Carta, aqui o deixo tal como o ouvi, mesmo sem ter conseguido saber o nome do autor, ‘O amor, a tosse e a fome, não se podem esconder’.

Tudo coisas que se podem depreender das notícias e comentários que separei, para alinhar esta crónica a que os meus amigos decidiram chamar ‘Carta de Braga’, embora raramente fale sobre ela, por me preocuparem muito os problemas e questões que nos rodeiam; começo por pegar num texto da jornalista Cynthia Valente no DN do final de Outubro, ‘Mais de vinte e três mil alunos sem aulas a pelo menos uma disciplina desde o início do ano lectivo, com mais de setecentos horários por preencher’.

Também me disseram (pessoa conhecedora do mister), que dentro de dois anos, muitos alunos do ensino básico (até ao 12º ano), poderão ficar sem professor a mais de uma disciplina, por se prever a falta de algumas dezenas de milhar de professores. O descrédito da profissão, a remuneração que não cobre o trabalho, as responsabilidades que suportam e a ausência de apoio, levam os jovens a escolher uma qualquer outra profissão.

Fui professor do ensino secundário e superior mais de vinte e cinco anos, e todas estas coisas me incomodam, até por ver como, nas palavras do professor e poeta António Carlos Cortez, em crónica no DN, ‘As crianças e os adolescentes têm como companheiro fiel o telemóvel: o mal e a imbecilidade à distância dum clique. As reformas do ensino proletarizam os professores. Os portugueses, como os professores, foram decapitados. Como os professores, estão exaustos. Sentem-se traídos por décadas de políticas que servem interesses dos poderosos, mas já não servem a ninguém’.

Acontece também que o catedrático e antigo ministro da Educação João Costa, acusa, também naquele jornal, o actual primeiro ministro, de ‘Querer retroceder civilizacionalmente, ao propor a revisão do currículo da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento, considerando que Luís Montenegro, está a pôr-se ao lado de movimentos bastante extremistas’, por ‘alinhar com agendas que são conhecidas a nível internacional’.

E pergunta-se, ainda António Carlos Cortez, depois de lamentar a falta de disciplinas formadoras de espírito –literatura, artes, música, filosofia, história– numa espécie de comentário, ‘Das bestializantes redes sociais que infantilizam os adultos, às letras das músicas ouvidas por crianças e adolescentes; da publicidade aos programas das televisões, dos bairros suburbanos ao desertificado país das cidades-fantasma – vemos, ouvimos e lemos… continuaremos a ignorar?’.

Ainda no mesmo jornal, mas já no dia 30, aparece mais uma outra notícia que, de algum modo também pode estar incluída no aforismo citado no princípio desta Carta, por dizer o seguinte ‘Portugal quer comprar 36 equipamentos militares de artilharia até 2034, investimento previsto na Lei de Programação Militar que, até 2026, tem 60 milhões de euros’.

Um dos cronistas que nunca perco quando se sai com alguma coisa, escreveu também nos últimos dias de Outubro, e a propósito do que está a acontecer nos states, ‘Chama-se pareidolia à tentativa de perceber traços humanos em objectos inanimados, como nas nuvens; com Musk tenho uma pareidolia inversa, pois na sua cara não percebo nada que me pareça humano, porque aos saltos ao lado do trumpa, tem menos graça que um pinguim borracho’.

Talvez só aplicando, em casos como estes, o que fez um Jardim zoológico chinês, para chamar visitantes: a sua principal atracção são dois cães da raça Chow Chow, pintados como sendo filhos de panda, por serem ‘gentis, inteligentes, amigáveis, fofos e adoráveis’.

Só que, o amor, a tosse e a fome não se podem esconder; e por isso, mas referindo apenas este país nosso, tirei os quatro primeiros versos do último poema da segunda parte da ‘Mensagem’ de Fernando Pessoa,

Senhor, a noite veio e a alma é vil.

Tanta foi a tormenta e a vontade!

Restam-nos hoje, no silêncio hostil,

O mar universal e a saudade.

António M. Oliveira 

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 
 

2 Comments

  1. Excelente António Oliveira. Pelo menos resistir… apesar dos resultados da votação na sede do império… já que “o amor, a tosse e a fome não se podem esconder”.

  2. Obrigado caro Francisco. São as pequenas coisas que vou lendo ou ouvindo, que me permitem ir mantendo estas Cartas, até por saber que também tenho leitores certos.
    Não preciso nem tenho bagagem para grandes discursos mas, com simplicidade, cá
    vou andando graças a todos os Francisco’s que me vão alimentando o ânimo.
    Um abraço. A.O.

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