DIOGO MARTINS – KAMALA vs TRUMP – SUPERAR UMA FORMA EQUIVOCADA DE COLOCAR A QUESTÃO

Vejo com frequência ser apresentado o argumento de que é importante derrotar Trump “pelo que a sua presidência representaria para o mundo”. Confesso que me parece uma forma equivocada de colocar a questão.

Se tivesse direito de voto nos EUA ponderaria votar estrategicamente em Kamala, tendo em conta o que uma presidência de Trump representaria para os residentes nos Estados Unidos. Na perseguição e assédio a imigrantes e minorias sexuais e raciais, no acesso aos escassos programas acessíveis de saúde e no combate aos sindicatos e às organizações laborais. Sim, há uma significativa diferença entre Kamala e Trump. Mas coloca-se no plano interno.

No que a presidência de cada um destes candidatos representará para o mundo, não existe nenhuma diferença significativa. Como Gaza nos recorda a cada dia, democratas e republicanos partilham a mesma visão da política externa. O que não constitui surpresa, já que se candidatam à presidência de um país cujo modelo de acumulação e supremacia depende de manter vivo a sua pulsão imperialista; e o imperialismo só sobrevive com o fosso entre uma ordem liberal interna a quem se aplicam valores de democracia, tolerância e direitos humanos ativamente negados aos outros povos, a quem se reserva uma ordem moral externa, onde a elevação dos direitos humanos como imperativo categórico não passa de uma mitologia.

Para os efeitos sobre o mundo, a única diferença reside no combate às alterações climáticas. No entanto, até aí a ordem liberal muito antes de Trump falhou em toda a linha as metas éticas da sustentabilidade ecológica do planeta. Com uns ou com outros, iremos arder em breve. É tudo uma questão do ritmo a que se procede ao churrasco.

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