Por volta de 1949, nos anos em que a migração rural colidiu com a nova realidade urbana, Condorito ergue-se como a representação gráfica do camponês pícaro/burlão e brincalhão, que tenta superar os reveses da vida urbana através da ingenuidade. (memória Chilena)
Podia ser o meu irmão mais velho, três anos me separam do seu nascimento, e como bom irmão, me acompanhou na infância e na juventude com as suas brincadeiras, aventuras, peripécias e esteve junto de nós, dos meus irmãos e da minha família e da minha geração, nos bons e nos maus momentos.
Mas há um momento que todos nós abandonamos este tipo de literatura e a deixamos para trás, é o momento em que pensamos em coisas mais sérias e no qual nos mais julgamos adultos, momento no qual pensamos que só há lugar para uma outra literatura, mais clássica, mais moderna, a tal chamada boom, etc…
Condorito é uma personagem de banda desenhada, que combina de uma forma muito inteligente as suas características quase humanas com as de um condor e as de um camponês do Chile. Assim a sua primeira vestimenta foi desenhada com um poncho (pequena manta) e sandálias utilizadas nas fainas do campo, na boca sempre aceso um cigarro encendido.
Criada pelo caricaturista René Ríos Boettiger, Pepo, a figura de Condorito foi inspirada nas três personagens de Walt Disney de Los tres caballeros, de 1943, filme de live-action (que combina actores e desenhos animados) onde os países latino-americanos foram caracterizados como diferentes aves que se encarnavam no Pato Donald, Zé Carioca e Panchito.
No escudo de armas/brasão do Chile, aparecem dois animais que encarnam o espírito da natureza do nosso país andino, eles são o Condor e o Huemul, uma espécie de pequeno veado, hoje quase em perigo de extinção.
Pepo criou o Condorito: com este pensamento,”. Pensei no nosso escudo, pensei no huemul e no condor, pensei que entre as duas figuras estavas muito mais perto do que nós (…), foi por isso que te fiz descer da serra, vesti chinelos, pus um chapéu huaso em ti, fiz-te viver no mundo dos humanos.”
Publicado nas páginas da revista Okey, desde sua primeira aparição no primeiro número da revista, em 6 de agosto de 1949, Condorito foi passando por uma transformação gradual tanto na vestimenta como no físico, o poncho e a penugem no pescoço desapareceram e sua aparência tornou-se cada vez mais humana, o bico alongado encurtou, e as características do rosto foram arredondadas.
Como era de esperar junto à figura central Pepo, teve que criar uma família particular e um lugar para ele viver. Assim apareceram Yayita – a eterna namorada de Condorito -, Don Chuma – compadre e fiel amigo – e Coné, o sobrinho do Sul que Condorito recebe em sua casa e adota como filho, curioso (!), como Donald, a nossa personagem não tem filhos. Também foi concebida uma cidade Pelotillehue, uma cidade semirrural localizada entre algures e nenhures e uma infinidade de personagens que dão vida a um universo heterogêneo e pitoresco.
As aventuras de Condorito são do quotidiano e refletem o carácter trabalhador e lutador da personagem, não tem o cariz filosófico da menina argentina Mafalda, as suas frases, diálogos são terra a terra e se destacam pelo engenho de um sabor popular.
Condorito foi publicado no Brasil pela primeira vez em 1982, pela Rio Gráfica Editora, tendo 12 edições. Entre 1991 e 1992, foi lançada uma nova revista pela Editora Maltese que teve apenas 8 edições.
Em 1962, a revista local especializada em cinema Ecran-Chile, publicou um artigo discutindo a produção de um filme intitulado “Condorito en el Circo” (“Condorito no Circo”), baseado no personagem. Há pouquíssimas informações, sobre esta possível realização, não entanto, o projeto nunca chegou a ser lançado: houve problemas no financiamento até que o resultado não agradou ao seu criador, Pepo, frustrando sua saída. Nunca foi lançado.
Na década de 1980, Condorito teve uma série de filmes curtos de animação que foram transmitidos pelo no programa Sábado Gigante, um dos populares programas de entretenimento da tv chilena. Os episódios tinham música e efeitos sonoros, mas as personagens não falavam. A série foi uma coprodução da Televisión Española/TVE e da Television Corporation da Universidad Católica de Chile.
Finalmente em 2017, Condorito chega ao grande ecrã, a fita, é uma ousada aventura para salvar o planeta e seus entes queridos de um alienígena cruel. realização de Alex Orelle e Eduardo Schuldt.
“Embora Condorito não baseasse seu humor na contingência política e social nacional ou internacional, ele implicitamente aludia às mudanças que nosso país e o mundo experimentaram nas últimas décadas. Condorito não só realizou inúmeras ocupações e ofícios, mas também incorporou políticos, atletas, cientistas e artistas de cinema e música. As suas aventuras levaram-no a diferentes países e épocas históricas”. (memoria chilena)
No dia 24 de outubro, deste ano, no Município de Barranco/Lima, foi inaugurada uma estátua de Condorito, numa acção conjunta de ambos países, para comemorar os 75 anos da criação do seu autor, Pepo. A estátua é similar à existente na cidade de Concepción. Condorito está acompanhado do seu fiel amigo: o cão Washington.
Em 1974, quando me encontrava já no exílio, visitei em mais de uma ocasião o Zoo da cidade de Frankfurt/Main. Um dos meus companheiros, também exilado, de apelido Ovando, trabalhava nesse parque. Aí havia um exemplar de um Condor chileno. Os animais em cativeiro parecem sempre tristes, o condor pousado num galho de uma árvore ressequida, imitando uma paisagem natural, parece mais adormecido e aletargado que um ser vivente, muito longe do majestoso porte desta ave andina, a de maior envergadura de asas quando voa e planeia. Também havia, nesse zoo, flamingos (Phoenicopterus chilensis) rosados do Chile, estes mais elegantes e equilibrados numa perna foram trazidos de regiões austrais.
Foram breves companheiros que me recordavam a pátria distante.
Notas: René Ríos Boettiger, conhecido com o pseudónimo de Pepo, nasceu em Concepción, Chile 15 de dezembro de 1911.
Desde muito jovem sentiu uma enorme vocação para continuar a prosseguir o seu talento. Com apenas 7 anos e com o apoio do pai, publicou o seu primeiro cartoon no jornal El Sur de Concepción. Continuou fazendo seus desenhos até que aos 10 anos fez sua primeira exposição na confeitaria Palet da sua cidade. Os seus estudos foram realizados no Colégio Alemão de Concepción e posteriormente continuou no Liceu de Homens nº 1 de Concepción. Quando já tinha idade para cursar o ensino superior, ingressou na Universidade de Concepción para estudar medicina, mas não conseguiu terminar porque queria continuar com a vocação para o desenho. Depois de dois anos, se retirou da universidade. Devido ao seu grande amor pela arte e pelo desenho, aos 20 anos, em 1932, mudou-se para a cidade de Santiago, no Chile, para estudar na Escola de Belas Artes. Não demorou muito e passou a fazer parte da revista satírica Topaze, destacando-se como um hábil caricaturista da realidade política da época.





