ADÃO CRUZ – CARTA A UM AMIGO ( III ) ( Continuação )

Diz o meu amigo que a segurança dos que não acreditam é invejável, e que a intolerância se verifica mais em relação àqueles que acreditam. Plenamente de acordo. Tal facto deve-se a que a segurança dos que não crêem não existe, e antes constitui um exercício permanente de aprendizagem, interrogação, reflexão e descoberta ao longo do difícil caminho da razão.

Se me tivessem provado que com a morte tudo termina, creio que já teria partido voluntariamente, confessa o meu amigo. Penso que o Homem não tem, gratuitamente, provas de nada, e pode rejeitar todos os argumentos falaciosos que de nada lhe servem. Bastam-lhe as provas que nascem do desenrolar da sua razão no campo científico. Por que motivo o meu amigo rejeita a força das hipóteses lógicas, racionais, a luz da ciência, pobre ciência humana, é certo, mas que o meu amigo aceita e utiliza numa elevadíssima percentagem dos actos da sua vida diária, e adere à fragilidade de teses fantasistas, ilógicas e mesmo irracionais, carecendo de todo e qualquer substrato que não seja a fé, fé essa – não pode negar – directamente proporcional ao desconhecimento e mesmo à ignorância, à pouca cultura e a toda a espécie de fundamentalismos não racionais. Isto não significa que não haja pessoas crentes muito inteligentes e muito cultas – que é o caso do meu amigo -. Simplesmente, em meu entender, não foi a cultura, mas outra razão qualquer, não difícil de descortinar hoje em dia, que gerou e enraizou a crença.

A verdadeira cultura é, habitualmente, um obstáculo, e remete muito mais para o antagonismo do que para o agonismo da fé. Para quem espera o céu, a gente sabe que a razão da vida não pode ser considerada o natural percurso desta pequeníssima dimensão humana na História da Evolução, no seio infinito da Natureza e do Universo, em permanente mutação e movimento, mas uma espécie de celestial e eterna pensão de reforma que a imaginação deste limitado ser, mesmo dando-lhe o fluido nome de alma, não consegue despir das materiais aspirações, prerrogativas e necessidades do corpo que por cá ficou.

Com a vida tudo e nada começa, e com a morte nada termina. A parte é diluída no todo. Em cada instante o Universo é outro. O início da minha decomposição é, precisamente, o início da minha ínfima contribuição para a formação ou transformação de milhares ou milhões de outros seres.

Vamos agora descer das planuras estrelíferas, vamos aproximando, aproximando, aproximando a lupa, e vamos pousar nesta mão-cheia de terra habitada por bichinhos chamados homens. Vamos pensar à sua escala no deus que eles criaram. Como pode esse deus do amor e da justiça ter algum crédito, quando permitiu e permite que se cometam em seu nome crimes e barbaridades como os da Inquisição, como os do Holocausto da Croácia e tantos outros, e manifeste a sua indisfarçável indiferença perante cruéis genocídios como o da Indonésia, do Iraque e da Palestina?  No caso da Inquisição, com requintes de sanguinário espírito, a partir de altas decisões eclesiásticas como a Inconsutilem Tunicam, a bula Ad Extirpanda e, mais tarde, o Santo Ofício, tudo, repito, em nome de deus e para o serviço de deus. Como pode aceitar-se um deus que deixa os seus máximos representantes na terra fazerem alianças e concordatas com o nazismo e o fascismo, transformando-se em seus colaboradores e cúmplices, e elevando Hitler, Mussolini, Salazar, Netanyahu e tantos outros à categoria de confrades e profetas? Não é fácil aceitar-se um deus justo quando não tem a coragem de aconselhar os seus ministros e servidores a pedir perdão pelo mal que fizeram aos povos do mundo inteiro, ao colocarem-se, nos momentos decisivos para a história da humanidade, ao lado dos criminosos, dos ricos, dos poderosos e dos opressores.

Leave a Reply