Seleção e tradução de Francisco Tavares
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O pior inimigo de Trump
Publicado por
em 13 de Novembro de 2024 (original aqui)
As suas tentativas desajeitadas de autocracia já lhe estão a sair pela culatra, já que os Republicanos do Senado se recusam a nomear a escolha de Trump, o senador da Flórida Rick Scott, como líder da maioria.
Trump agiu rapidamente para nomear ultra-lealistas para posições-chave. Muitos têm em comum o facto de serem totalmente desqualificados para os seus cargos, o que os torna totalmente dependentes de permanecerem nas boas graças de Trump e de cumprirem as suas exigências.
Trump quer que o Senado prescinda de um dos seus principais papéis constitucionais na verificação e confirmação (ou rejeição) de candidatos — isso depois de escolher Pete Hegseth para ser Secretário de Defesa. Hegseth é um apresentador da Fox News com zero qualificações além do facto de ele ter apoiado os esforços para contornar a cadeia de comando em casos de militares acusados de crimes de guerra, e ter apoiado a manobra de 6 de Janeiro [2021] de Trump.
(A história do New York Times, noutro exemplo dos padrões vergonhosos estabelecidos pelo editor executivo Joe Kahn para ser imparcial, polidamente apelidou a nomeação de Hegseth como “fora da norma” para secretários de defesa. Loucura de merda seria mais apropriado.)
Este é um tipo que terá acesso aos códigos nucleares. Para cúmulo dos males, Trump propõe uma comissão extralegal para demitir generais e almirantes que não lhe são suficientemente leais.
Nada disto irá funcionar bem com os militares profissionais ou com a Comissão das Forças Armadas do Senado. Republicanos ou não, os membros da Comissão farão valer o seu papel na protecção da Defesa Nacional.
Apenas para mostrar o seu desdém pela Câmara [dos Representantes] e pelo Senado, Trump selecionou dois membros da Câmara para cargos seniores: a deputada de Nova York Elise Stefanik como Embaixadora da ONU e o congressista da Flórida Mike Waltz como seu conselheiro de segurança nacional. Ele fez isso, aparentemente sem consultar os líderes da Câmara, num momento em que o controle partidário da Câmara será decidido por dois ou três votos.
As consequências do exagero arrogante de Trump foram evidentes quando a bancada do Partido Republicano no Senado rejeitou esmagadoramente a sua escolha pessoal para o líder da maioria, Rick Scott, da Flórida, em favor de John Thune, da Dakota do Sul. Thune e a outra escolha menos servilmente leal, John Cornyn, do Texas, receberam 29 e 22 votos, respectivamente, na votação final. Scott, um membro não popular do Senado, obteve um distante terceiro lugar e foi eliminado na primeira votação.
Trump também anunciou que “o grande Elon Musk, trabalhando em conjunto com o patriota americano Vivek Ramaswamy [n.t. empresário farmacêutico]”, liderará um novo “departamento de eficiência governamental (‘DOGE’)” para “preparar o caminho para a minha administração desmantelar a burocracia do Governo, reduzir o excesso de regulamentos, cortar gastos desnecessários e reestruturar agências federais.”
O único problema é que este departamento proposto, com a abreviatura DOGE para promover a criptomoeda de Musk, não pode ser criado por decreto.
Portanto, haverá barreiras de proteção. Quanto mais autocrático Trump tentar ser, mais os anticorpos do corpo político entrarão em ação.
Até o Supremo Tribunal de [John] Roberts rejeitará alguns dos esforços de Trump para governar por decreto. A Comissão das Forças Armadas do Senado, longe de carimbar a nomeação de Hegseth, vai querer criticá-lo sobre as suas visões bizarras, e é provável que rejeite o plano de Trump de transformar os militares numa força pessoal de generais leais.
Pode-se imaginar uma bancada de sanidade no Partido Republicano do Senado, começando com Lisa Murkowski, do Alasca, Susan Collins, do Maine, e Mitt Romney, de Utah. Será preciso apenas mais um para o Senado se recusar a legislar as ideias mais loucas de Trump, e ainda há alguns Republicanos sensatos numa Câmara [dos Representantes] dividida por estreita margem.
Os esquemas mal concebidos, mal equipados e impulsivos de Trump podem ainda salvar a democracia de Trump.
O autor: Robert Kuttner (1943-) é um jornalista americano e escritor cujos livros apresentam pontos de vista liberal/progressistas. É co-fundador e co-editor do The American Prospect criado em 1990 e professor na Brandeis University’s Heller School. Durante 20 anos foi colunista no Business Week e no The Boston Globe. Atualmente continua a escrever no Huffington Post. É também um dos cinco fundadores do Economic Policy Institute em 1986, integrando presentemente o seu comité executivo. Entre 2007 e 2014, Kuttner aderiu ao centro liberal de investigação e política Demos como ilustre membro senior. O seu último livro é Can democracy Survive Global Capitalism?


