Li há alguns dias o comentário de um cronista, depois da vitória de Musk nas eleições americanas (por ter pendurado e sentado o trumpa no gabinete principal da Casa Branca), onde afirmava que os políticos tinham matado a democracia’ .
Agarrado pelo título, não tardei em entender o que ele queria dizer, ‘Esta vitória acaba por ser mais um aviso para a classe política, por ter pervertido o sistema de tal maneira, que populistas e extremistas já estão a abocanhar o poder’. E, diz ele, tudo terá começado com a crise financeira mundial de 2008, originada pela quebra do Lehman Brothers, um banco norte-americano de investimento, que mostrou e provou a incapacidade e perversão da classe política.
Como os meus conhecimentos de economia vão pouco mais além do que me sobra ou falta para chegar ao fim do mês, não me quero alongar em considerações sobre tal tema, mas lembro-me das contribuições extraordinárias com que tive de ‘ajudar a resolver aquele problema’, que veio a agravar o já levantado pelos estádios do Europeu de 2004, e até nem sei se ainda os estarei a ajudar a pagar.
Mas tirando estes apartes, também li que nada daquilo tinha a ver com ideologias, ‘Tantos as direitas como as esquerdas são culpadas e cúmplices, por terem sido incapazes de antepor os interesses dos cidadãos aos outros’, o que me parece completamente aceitável, por saber que nos equivocamos sempre quando cremos que basta ir votar, e o resto vai aparecer feito, pondo de lado comunidade, partilha e compromissos.
Creio também que este afastamento, o isolamento que estamos a cultivar com o novo ‘ópio do povo’, que carregamos vaidosos e afectados para todo o lado, às vezes até a falar em voz alta e com o ‘alta voz’ ligado à frente do nariz, sem ter mais qualquer outra fonte de informação, é a maneira de dar espaço a grupos ultra, que só pretendem originar e fomentar ódios e cortar liberdades, acabar ou tirar importância aos serviços públicos, e voltar ao velho gasto e insidioso slogan ‘lei e ordem’, o caminho aberto para todas as humilhações.
O professor e poeta António Carlos Cortez, afirma no DN do dia 11, ‘Por um lado, há que denunciar o óbvio: em virtude de uma enxurrada de aparelhos digitais que embrutecem e alienam, não podem gostar de ler’, quando, por outro lado, com ‘A concepção provinciana de uma Educação ‘up to date’, facilitadora e, portanto, feita de incúria e de ignorância’, como é que se pode dar aos alunos e também à população em geral, a curiosidade e o gosto pela leitura, quem tem demasiados anos de falência neste país?
Convém não esquecer que por cá, mas muito mais nas terras dos cowboys, dos índios e dos milhões de fugidos das terras do sul do continente americano, os políticos parecem ter esquecido, quase por completo, que o nível de compreensão e seguimento da política, é surpreendentemente baixo entre a cidadania, perfeitamente visível tanto pelos ‘media’ frequentados, como pela abstenção a todos os actos sociais, onde a comunidade exija participação e partilha.
Um outro cronista afirmou em finais de Outubro, ‘A distância maior que hoje se verifica nas nossas democracias, é a que existe entre os conceitos de ser humano e de cidadania, que inclui gente e autorizações de residência’, tanto aqui com o lá. Há muito trabalho a fazer, para ultrapassar essa distância, como para os acordos de paz que tanto tardam em tudo o que é mundo.
E o escritor Luís de Castro Mendes, escreve no DN do dia 13, ‘Por insatisfeitos que estejamos com as nossas democracias, não podemos resignar-nos e baixar os braços face a esta maré obscurantista e antidemocrática que vemos alastrar’.
Só que os interesses envolvidos são grandes e poderosos –nem será preciso descriminá-los– e, quando penso nestas coisas, sempre me vem à cabeça um mini diálogo, (não lembro as palavras exactas), num filme com 50 anos, ‘Chinatowon’, realizado por Polanski, em que o detective Jack Nicholson, pergunta ao prepotente e milionário oligarca, John Huston, ‘Que pode comprar mais, ainda?’ a que o milionário responde cinicamente, ‘O futuro, filho! O futuro!’
Pena é que esta resposta só se possa esperar e ouvir, vindo sempre da mesma gente, vestindo a mesma roupa, ocupando os mesmos lugares e sempre guardada da mesma maneira.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor