Seleção e tradução de Francisco Tavares
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A contra-insurgência está “em andamento” – contra a ‘tempestade’ Trump
Publicado por
em 22 de Novembro de 2024 (original aqui)
Mais do que uma perigosa provocação dirigida à Rússia, os ataques com ATACMs e Storm Shadows representam uma tentativa de virar a política externa de pernas para o ar.
“O estado profundo sussurrou aos ouvidos de Trump: ‘Você não pode resistir à tempestade’. Trump sussurrou de volta: “Eu sou a tempestade”. A guerra começou. O Estado Profundo lançou uma guerra de perturbações para desactivar a ‘tempestade’ Trump. O ataque com ATACMs desta semana foi apenas uma parte de uma contra-insurgência interinstitucional – um ataque político dirigido a Trump; assim também o são todas as falsas narrativas interinstitucionais atribuídas ao campo de Trump; e assim também, as crescentes provocações dirigidas ao Irão.
Tenha a certeza de que os Five Eyes [n.t. aliança dos serviços de inteligência da Austrália, Canadá, Nova Zelândia, Reino Unido e EUA] são participantes plenos da contra-insurgência. Macron e Starmer conspiraram abertamente em Paris antes do anúncio dos EUA de promover o ataque dos ATACMS. Os grandes chefes inter-institucionais são claramente muito medrosos. Eles devem estar preocupados de que Trump possa desmascarar a ‘farsa da Rússia’ (que Trump em 2016 era um ‘ativo’ russo) e colocar os seus lugares em risco.
Mas Trump compreende o que está em marcha:
“Precisamos de paz sem demora … o establishment da política externa continua a tentar puxar o mundo para o conflito. A maior ameaça à civilização ocidental hoje não é a Rússia. É provavelmente mais do que qualquer outra coisa nós mesmos… Deve haver um compromisso total de desmantelar todo o establishment globalista neo-conservador que está perpetuamente a arrastar-nos para guerras intermináveis, fingindo lutar pela liberdade e democracia no exterior, enquanto eles nos transformam num país de Terceiro Mundo e uma ditadura de Terceiro Mundo aqui em casa. O Departamento de Estado, a burocracia da Defesa, os Serviços de informação e tudo o resto têm de ser completamente revistos e reconstituídos. Para despedir os que controlam o Estado Profundo e colocar a América em primeiro lugar – temos de colocar a América em primeiro lugar”.
Embora o lançamento dos ATACM de longo alcance no ‘território russo profundo pre-2014’ não vá alterar os dados – não mudará o curso da guerra (os ATACMS são regularmente – em 90% dos casos – abatidos pelas defesas aéreas russas); a relevância deste ato, no entanto, não é estratégica; antes reside na passagem para o domínio dos ataques diretos da NATO à Rússia.
O coronel Doug MacGregor [n.t. coronel estado unidense reformado, foi líder nas batalhas da Guerra do Golfo e planeador principal nos bombardeamentos da NATO à ex-Jugoslávia em 1999] relata que duas fontes lhe estão a dizer que “as forças russas de foguetes nucleares estão em alerta total. Estão ao mais alto nível de prontidão alguma vez alcançado. Sugere que a Rússia levou muito a sério esta passagem das linhas [vermelhas]”.
Sim, foi uma provocação e o Presidente Putin responderá adequadamente. Tem de o fazer – mas não necessariamente através de uma escalada nuclear. Porquê? Porque a guerra na Ucrânia está a avançar rapidamente a seu favor, com as forças russas a aproximarem-se da margem leste do Dnieper. Efectivamente, os factos no terreno serão o resultado determinante, deixando pouco espaço à mediação externa.
Mas mais do que uma provocação perigosa dirigida à Rússia, os ataques com ATACMs e Storm Shadow representam uma tentativa de virar a política externa – literalmente – de pernas para o ar. Em vez de a política ser dirigida directamente a um adversário estrangeiro em ascensão que ameaça a hegemonia dos EUA, está a ser transformada numa arma carregada e presa à guerra interna dos EUA. Visa especificamente Trump-para ‘amarrá-lo’ e para desviar a sua atenção para guerras que ele não quer.
A lógica sugere que Trump gostaria de manter-se afastado dos planos de Netanyahu para uma guerra contra o Irão. Mas os ‘Israel Firsters’ [os incondicionais de Israel] e o lobby israelita (como argumenta o Professor Jeffrey Sachs) há muito tempo têm um controle efetivo sobre o Congresso e os militares dos EUA – mais do que o Presidente. Explica Sachs:
“Como o lobby sionista é tão poderoso, Netanyahu basicamente teve controle sobre o Pentágono para travar guerras em nome do extremismo israelita. A guerra no Iraque em 2003 foi uma guerra de Netanyahu. A tentativa de derrubar Bashar al-Assad na Síria, o derrube de Moamar Gaddafi – todas foram ‘guerras de Netanyahu'”.
O ponto importante é que Netanyahu pode ‘fazer o que faz’ porque desde sempre foi planeado desta forma – um plano que está há 50 anos em execução. A estratégia do ‘Israel First’ foi totalmente adoptada por Scoop Jackson (duas vezes candidato presidencial). E apenas para que a política não pudesse ser revertida, o Scoop insistiu em que os sionistas integrassem os recursos humanos do Departamento de Estado, e que os neoconservadores e os sionistas detivessem as rédeas do NSC [Conselho de Segurança Nacional]. Esse mesmo padrão continua até hoje.
No fundo, encontra –se o sorvedouro último através do qual a classe política de ambos os partidos dos EUA se torna rica e arca com os custos de campanha dos legisladores remanescentes: “é um acordo bastante elegante que o lobby de Israel ou o lobby sionista coloque, digamos, cem milhões de dólares em campanhas e obtenha em contrapartida milhares de milhões, milhões de milhões de gastos [do governo]. E assim, quando Netanyahu fala, e é bizarro para mim, mas não é Trump quem está a nomear ou indicar [aqueles ‘Israel Firsters’ que fazem parte da sua equipa, mas Netanyahu]“, diz Sachs.
Quando Netanyahu descreve as nomeações ‘Israel First’ de Trump como a sua ‘equipa de sonho dos EUA’, a explicação não é difícil de ver. Por um lado, Trump tem uma ‘revolução’ a conduzir nos Estados Unidos e quer que as suas nomeações sejam aprovadas. E, por outro lado, Netanyahu tem mais uma guerra que quer que os EUA lutem por ele.
“O ‘grande feio’ [big ugly] foi sempre uma descrição da batalha que poucos compreenderam”, observa outro comentador:
“O Senado é factualmente o núcleo da oposição republicana ao MAGA e ao presidente Trump. A batalha visível … consome mais atenção. No entanto, é a batalha menos visível contra os republicanos ideológicos entrincheirados que se revela a mais difícil”.
“Os Republicanos na câmara alta não renunciarão facilmente ao poder. Eles têm uma infinidade de armas para usar contra a insurgência (Trump) … estamos a ver isso acontecer agora no alinhamento de senadores republicanos que se opõem à nomeação de Matt Gaetz por Trump como procurador-geral, [como] este relato recente [explica]”.
“O esboço básico é que a liderança do Senado apoiará relutantemente Matt Gaetz para procurador geral [1], onde ‘apoio’ significa que eles não se oporão diretamente; em troca da nomeação para diretor do FBI de Mike Rogers [um co-fundador do Grupo ‘Never Trump’] para defender os interesses inter-intitucionais no FBI”.
O potencial líder republicano do Senado, John Thune, jogará as suas cartas com cuidado para conseguir o máximo de dano. Ele tem influência ao tentar ligar Trump à carnificina de Netanyahu na região.
Thune, enquanto anunciava enormes quantidades de armas para Israel, disse:
“Aos nossos aliados em Israel e ao povo judeu em todo o mundo, a minha mensagem é a seguinte: reforços estão a caminho. Em seis semanas, os Republicanos vão recuperar a maioria no Senado, e vamos deixar claro que o Congresso dos Estados Unidos está inequivocamente ao lado de Israel”.
Trump também terá de jogar as suas cartas com cuidado. Uma vez que, para os seus propósitos, a prioridade absoluta são as suas duas guerras internas: primeiro, “desmantelar todo o establishment globalista neoconservador” e, em segundo lugar, acabar com as despesas governamentais fora de controlo que incharam o sorvedouro do Estado Profundo e transformaram a economia real dos EUA numa sombra do que era antes.
Trump precisa que essas nomeações de reforma radical sejam aprovadas, mesmo que ele tenha que sacrificar uma ou duas para garantir a aprovação do Senado para as outras. Os “First Israel” nomeados, é desnecessário acrescentar, serão aprovados sem problemas.
Das duas ameaças de ‘complicação’ à agenda de reformas de Trump, a escalada russa é a menor das duas. A guerra da Ucrânia está progressivamente a conduzir para alguma forma de desfecho. Um desfecho que funciona a favor da Rússia. Putin está no lugar do condutor e não precisa de uma grande guerra com a NATO. Putin também não precisa da ‘arte de negociação’ de Trump. Uma resolução de algum tipo se produzirá sem ele.
No entanto, o papel de Trump será importante posteriormente para definir uma nova fronteira entre os interesses de segurança dos Atlanticistas e os do coração Asiático (incluindo a China e o Irão).
A outra guerra putativa – o Irão – é a mais perigosa para Trump. A influência política judaica e o lobby levaram os EUA a várias guerras desastrosas antes. E agora, Netanyahu precisa desesperadamente de uma guerra e não está sozinho. Grande parte de Israel está a clamar por uma guerra que acabaria com ‘todas as frentes’ que enfrentam. Há uma profunda convicção nesta perspectiva como sendo a solução e a ‘Grande Vitória’ de que Netanyahu e Israel tanto precisam.
O terreno foi preparado, tanto pela propaganda de que o programa nuclear iraniano é ‘incrivelmente vulnerável’ (o que não é), como pelo ataque dos meios de comunicação social que reproduzem o meme de que atacar o Irão representa agora uma oportunidade única na vida, com o Hezbollah e o Hamas já enfraquecidos. A guerra com o Irão – de forma totalmente errónea – está assim a ser vendida como uma ‘guerra fácil’.
Há uma certeza inabalável de que deve ser assim. “Nós somos fortes e o Irão é fraco”.
Quem fará retroceder os Firsters de Israel? Eles têm o impulso e o fervor. Uma guerra contra o Irão vai correr mal para Israel e para os EUA. As amplas ramificações provavelmente precipitarão precisamente a grave crise financeira e de mercado que poderia inviabilizar a ‘tempestade’ de Trump.
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[1] N.T. Entretanto Trump nomeou Pam Bondi após Matt Gaetz se retirar em virtude dos seus escândalos sexuais.
O autor: Alastair Crooke [1949-] Ex-diplomata britânico, fundador e diretor do Fórum de Conflitos, uma organização que advoga o compromisso entre o Islão político e o Ocidente. Anteriormente, era uma figura de destaque tanto na inteligência britânica (MI6) como na diplomacia da União Europeia. Era espião do Governo britânico, mas reformou-se pouco depois de se casar. Crooke foi conselheiro para o Médio Oriente de Javier Solana, Alto Representante para a Política Externa e de Segurança Comum da União Europeia (PESC) de 1997 a 2003, facilitou uma série de desescaladas da violência e de retiradas militares nos Territórios Palestinianos com movimentos islamistas de 2000 a 2003 e esteve envolvido nos esforços diplomáticos no Cerco da Igreja da Natividade em Belém. Foi membro do Comité Mitchell para as causas da Segunda Intifada em 2000. Realizou reuniões clandestinas com a liderança do Hamas em Junho de 2002. É um defensor activo do envolvimento com o Hamas, ao qual se referiu como “Resistentes ou Combatentes da Resistência”. É autor do livro Resistance: The Essence of the Islamist Revolution. Tem um Master of Arts em Política e Economia pela Universidade de St. Andrews (Escócia).



