Já lá vão alguns dias, desde que descobri uma nova palavra –anemoia– e para evitar que os ignorantes como eu, revolvam dicionários e enciclopédias, aqui vai o resumo resumido de tal palavrão, que me pareceu, à primeira, uma pandemia provocada por um bicho qualquer; mas não, é apenas ‘O desejo nostálgico de voltar a um tempo passado, mesmo que nunca tenhamos vivido naquela época específica’.
Voltar a ver o Rei Afonso, o primeiro, mais o seu espadalhão, ver como a padeira deu cabo deles em Aljubarrota, ver como Camões salvou os ‘Lusíadas’, ou admirar a ‘Barcarola’ de Bartolomeu de Gusmão e parar em Lisboa, para ver o Pessoa a descer os Restauradores. Estes são alguns dos tempos passados de que sinto saudades, mesmo sem nunca os ter vivido.
É óbvio que estes são só alguns sintomas da minha anemoia, um misto de história e de estórias, onde tudo depende de quem as conta, bem como da maneira como interpretou as ‘provas’ das pesquisas efectuadas; mas estes são os meus, outras pessoas arranjarão mais para eles, diversos e particulares, que esta coisa não se deve ‘pegar’, mas apenas desenvolvida em cada um. Só tenho algumas dúvidas em relação aos mais novos –a adição aos ecrãs talvez lhes possa dar os sintomas resumidos e explicados com ‘emojis’; chegarão?
Na verdade, o escritor francês Jacques de Lacretelle, que foi director do ‘Le Figaro’, tem uma frase que se adapta perfeitamente a esta circunstância –A rádio marca os minutos da vida, o jornal as horas, e o livro os dias’, mas alguém lhe acrescentou, ‘As redes sociais também marcam agora os instantes’.
A propósito, convém salientar a importância da rede X, do senhor Musk, pois desde que ele se tornou a principal arma de influência de Trump, este apareceu, no dizer de uma conhecida cronista do ‘La Vanguardia’, como ‘Um delirante cavalo de Tróia, para atacar a democracia mais emblemática do mundo, porque o objectivo real é aplicar a agenda que irá recortar, mais ainda, o controlo das empresas e media tradicionais, dos direitos dos consumidores e trabalhadores, e os embargos médio ambientais’.
Se dermos atenção ao filósofo Santiago Alba Rico, ‘temos a impressão de que o mal conspira todos os dias, enquanto o bem só o faz em dias de luto ou de festa; esta diferença não quer dizer que o número dos ‘bons’ seja inferior ao dos ‘maus’, mas apenas uma fatal desigualdade, a ‘grande assimetria’, ou seja a desproporção entre a velocidade de construção e a da destruição’.
É, parece-me bem, o caso de o capitalismo relacionar sempre as piores pessoas com os piores dos nossos gestos e impulsos, apesar das inúmeras provas de solidariedade e entreajuda que, sigilosa e mansamente, vão enchendo o nosso quotidiano, acrescento eu, baseado também na longa explicação com que o filósofo fundamenta a sua assimetria entre ‘bons’ e ‘maus’.
Parece também que o neoliberalismo ‘tomou o freio nos dentes’ nos dois últimos séculos, mas por aqui, neste mundo ocidental, principalmente desde os tempos Thatcher e Reagan, e todos estamos só a assistir, como se fosse uma série da Netflix, calmamente sentados num banco da cozinha, num sofá, ou deitados no quarto de dormir.
Mas a explicação de Alba Rico, ainda pode ser levada mais longe –A classe operária não vai para o paraíso– nas palavras do historiador Pedro Luis Angosto, ‘por ter sempre procurado os caminhos para sair da escravidão e da exploração, e ter um modo de viver de maneira digna que lhe permitisse dar aos filhos um futuro mais justo e feliz’; a outra classe, lá nas terras muskeadas do sor trumpa –a dos ricos e candidatos para o serem também– que em muitos casos não são mais que trabalhadores, que preferem ser chamados empregados, ou ‘classe media’, acabou por ser o ‘tiro de partida que o neoliberalismo esperava, para recuperar o terreno que lhe tinha sido arrebatado’, acrescenta Luis Angosto.
Ao ler e ver todas estas coisas, por lá e por cá também, vou ter de escolher novos sintomas para a minha anemoia, guardando apernas o da Barcarola do Gusmão, ou a ‘Passarola’ de Saramago, para poder ver tudo de cima e, se calhar, encontrar uma Terra da Promissão só para mim, onde também nunca estive!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor


