CARTA DE BRAGA – “de ovos e balas” por António Oliveira

A última semana de Novembro foi marcada por notícias ‘laterais’, daquelas que nem interessam ao grande público nem aos influenciadores, aquelas pessoas que arranjam seguidores nos tão famosos whatsup e tiquetoques, (assim, até escrito em português por não ser presumido), dos que nunca falariam dos 99 anos da morte de Pessoa, no dia 30, por ele não ser jogador de futebol ou ténis, por usar sempre chapéu, fumar cigarros enrolados em papel, e ter escrito uma coisa chamada ‘Mensagem’, coisa que agora fazemos todos os dias e se calhar com mais leitores.

Mas, uma delas até falava do trumpa, o cabeludo que voltou à presidência da América, mas para dizer que o tipo do ‘Facebook’, o da ‘Amazon’ mais o dono do antigo ‘Twitter’, que agora se chama X, estão cada vez mais próximos do cabeludo, para ganhar os seus favores, e não quaisquer retaliações, por o terem corrido dos seus domínios virtuais, das redes ao ‘Washington Post’ do Bezos. Até jantam juntos na casa do cabeludo. Além disso, convém não esquecer que Musk e Bezos têm tecnologia para ir a Marte, embora ainda ninguém fale do que lá se poderá plantar, a não ser que alguém já tenha inventado um novo tipo de marmita, para a viagem, a entregar a cada um dos utentes dos foguetes.

Quem não está para pensar nessas coisas, apesar da ‘massa’ que tem, é um cavalheiro que dá pelo nome de Justin Sun, que na semana anterior, tinha dado 6,2 milhões de dólares (mais de 5,8 milhões de euros), num leilão da Sothebay em Nova Iorque, por uma banana com casca, colada numa tela, obra de arte conceptual do italiano Maurizio Catela.

Também no dia 29, num acto devidamente testemunhado por todo o tipo de câmaras, o senhor Sun descolou a banana da tela, descascou e comeu a dita, e nem se engasgou com tanto dólar! E li, num post qualquer, que o senhor Sun, tem em vista comprar 100 mil bananas após toda esta ‘aventura’, como forma de agradecer ao vendedor que forneceu a ‘banana de 25 centavos’, usada para concretizar aquela obra de arte conceptual, mas devidamente comível.

‘Comedian’, banana de 6,2 milhões

‘El País’. 29.11.24

Não quero nem devo comentar esta notícias, mas salientar como uma espécie de feudalismo tecnológico (apoderei-me desta denominação de um escrito do historiador e cronista, Luis Angosto), é um conjunto de entre mil e duas mil pessoas que, acrescenta ‘agem como senhores indiscutíveis do planeta, e aos quais se deve obediência cega e entregar toda a riqueza, e uns outros cavalheiros encarregados em manter a ordem, e uma imensa maioria alienada, contente por ter um telemóvel’.

Mas até ao folhear um jornal ou uma revista, saltar de um canal para outro no aparelho de televisão ou no tal telemóvel, nem nos questionamos se estaremos equivocados ao dar assim, o nosso apoio a todos os que usam tais canais para a manipulação, mentiras, falsificações e falácias para promover o ódio, crispação social, e conseguir o poder que eventuais eleições lhes negaram.

Estão aí os tão falados algoritmos, para dar aparência de verdade a situações, bem próprias numa população penalizada pela incultura, manipulada racional ou ideologicamente, tão confundida que poderá vir a amar o opressor e a desprezar o oprimido. E Abril, já está a cinquenta anos de lonjura, e nem a História que agora se ensina se preocupa muito em mostrar isso!

E as coisas ganham uma outra dimensão quando tive oportunidade de ler no ‘El País’ também no dia 29, que este Verão, já é possível comprar munições, em máquina como as do tabaco, em lojas de Oklahoma, Alabama y Texas e, a empresa que as comercializa, espera cobrir o território todos dos states, nos próximos meses.

Será fácil e possível, ouvir já na Primavera, alguém pedir, naquelas lojas celebrizadas nos filmes de cobóis, ‘Quero uma dúzia de ovos e outra de balas para o meu Colt!’

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

2 Comments

  1. É delicioso ler o artigo. Preocupante também. A memória de Abril está a se apagar. A de 1964 se foi. Já se festejam os ditadores.

    1. Obrigado caro Paulo.
      Tudo se tem feito para a apagar, a começar pelas escolas!
      Mas toda a gente sabe das homenagens a heróis da bola e afins!
      E é uma delícia ver quatro pessoas sentadas a uma mesa para almoçar,
      mas com os respectivos “móveis” nas mãos
      E qual o canal da tv que se deve escolher?
      Também é por isso que já se festejam os ditadores, a aspirantes a tais comendas!
      Um abraço
      A.O.

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