Se os grandes e poderosos fossem sensíveis e humanos, o que é um contrassenso, entenderiam que a esta ameaçadora globalização acima das liberdades e das consciências, deveria contrapor-se uma inserção internacional, caracterizada pela interdependência sem dependência, procurando explorar as sinergias entre mercado interno e externo. A abertura internacional, mais do que um meio de agigantar a eficiência económica, grande catalisador da exclusão social e da destruição ambiental, deveria ser um objectivo em si mesma, estimulando a cooperação e a circulação de experiências técnicas e sócio-culturais. O desenvolvimento descentralizado, a autossuficiência regional num espaço global, a consciencialização das enriquecedoras diferenças entre as dinâmicas regionais, nacionais e globais, a participação democrática e a socialização da partilha política são formas de desenvolvimento que levariam à participação da sociedade civil nas tais cimeiras de discussão das decisões de interesse público, aprofundando o enraizamento social dos processos políticos.
A educação e a lucidez, sendo por vezes um exercício de dureza sentimental, são também o principal factor de compreensão do equilíbrio da prosperidade. Antigamente denominavam-se a tuberculose e outras doenças como a epidemia da fome. Hoje denominam-se as doenças cardiovasculares e outras doenças degenerativas como a epidemia da fartura.
Manter a actividade intelectual, a actividade física, o descanso, a redução do stress, a moderação e a contenção alimentar são meios preventivos da doença e do envelhecimento. Em termos de alimentação, por exemplo, o que hoje se vê sai fora de todas as normas higieno-dietéticas, mesmo em pessoas cultas. A fome mata milhões de seres humanos, enquanto a superalimentação é uma das maiores doenças das sociedades abastadas. Ou não há nada para comer ou come-se dez vezes mais do que aquilo que é preciso ou come-se da forma mais errada e desequilibrada. Não são precisos estudos para saber que a fome mata inexoravelmente, mas vários estudos sérios têm comprovado que a super-alimentação e a má alimentação são factores fundamentais na génese de inúmeras doenças, desde as doenças oncológicas às doenças degenerativas, incluindo as doenças cardiovasculares. O que se vê, a par de esqueletos ambulantes em países famintos, é um crescimento constante da obesidade em países ditos civilizados, mercê de uma proliferação imparável dessa alimentação repleta de nefastas consequências físicas e mentais. A arteriosclerose não existe só no idoso. Ela começa na infância e talvez na vida intra-uterina. Qualquer mãe ou avó que encha permanentemente o filho ou o neto de comidas erradas e guloseimas está inexoravelmente a semear o seu sofrimento futuro. Sabemos quão difícil é lutar contra isto, por causa da ganância das transnacionais da alimentação de plástico, que tudo invadem em termos reais e mediáticos. Daqui a enorme importância da reflexão, da mentalização e do combate a todos os níveis, escolares e pedagógicos.
Na realidade, é tremendamente cruel que dois terços do mundo morram de fome para que um terço morra de fartura. Quantos tratados de Ética e de Educação serão necessários para corrigir este desastre da humanidade?