As sílabas marginais/SÓTÃO/Nelson Ferraz

 

SÓTÃO

 

 

a vida entardece noites adentro.

todos os velhos são fim de dia.

 

o mundo inteiro existe neles

mas a carne é de porcelana.

 

todos os velhos cavalgam o excesso

das coisas na cabeça.

e a cabeça é um sótão

tão só um sótão

ao cimo de uma escada com mil degraus cansados.

 

o tempo pinta de branco as paredes do sótão.

lá dentro as coisas têm nódoas de sombra.

essas coisas são as coisas mais valiosas

dos velhos que cavalgam o excesso

das coisas na cabeça.

 

as coisas que os velhos guardam

nascem quando eles se cansam das notícias

da civilização e das conversas importantes

e prestam atenção às coisas mais pequeninas.

 

todos os velhos cavalgam pelas margens

do poente.

os dias tingem-se de indiferença

e inclinam-se para dentro.

 

a madrugada é uma dúvida sem sótão.

a madrugada é uma coisa longe que pode não ser

quando a noite adormece.

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