SÓTÃO
a vida entardece noites adentro.
todos os velhos são fim de dia.
o mundo inteiro existe neles
mas a carne é de porcelana.
todos os velhos cavalgam o excesso
das coisas na cabeça.
e a cabeça é um sótão
tão só um sótão
ao cimo de uma escada com mil degraus cansados.
o tempo pinta de branco as paredes do sótão.
lá dentro as coisas têm nódoas de sombra.
essas coisas são as coisas mais valiosas
dos velhos que cavalgam o excesso
das coisas na cabeça.
as coisas que os velhos guardam
nascem quando eles se cansam das notícias
da civilização e das conversas importantes
e prestam atenção às coisas mais pequeninas.
todos os velhos cavalgam pelas margens
do poente.
os dias tingem-se de indiferença
e inclinam-se para dentro.

