EM LOUVOR DE ALEXANDRE O’NEILL (1924-1986) – no centenário do seu nascimento

 

(1924 – 1986)

 

No centenário do nascimento (19-12-1924) do poeta satírico – talvez único depois de Filinto Elísio –, e em jeito de homenagem, eis um exemplo da sua veia sarcástica no segmento do poema que O’Neill designou como

AUTOCRÍTICA (achegas)

 

NINGUÉM ma pediu e já não está na moda,

pelo menos aquela pressurosa contrição

feita com cálculo e unção, aquela hipócrita

auto-flagelação despudorada,

mas já é tempo (para mim) de deitar contas

ao verso e ao seu reverso, de mostrar a língua

a esse médico de quem tenho um pouco,

para ver como vai o foro íntimo

e, por consequência, o verso público.

                      *

«Nado e criado em Lisboa …» era um começo

não autocrítico, mas autobiográfico.

sei muito bem que a biografia

explica muita coisa (até a azia!)

mas para quê esquadrinhar os anos

(joguei berlinde, joguei pião e juro aqui

que nunca o fiz para os americanos!)

à cata de raiz, se o que vivi,

para o mal ou para o bem, está aqui?

«Nado e criado em Lisboa …»: rejeitado

por excessivamente circunloquial.

                        […]

A poesia é a vida? Pois claro!

Conforme a vida que se tem o verso vem

– e se a vida é vidinha, já não há poesia

que resista. O mais é literatura,

libertinura, pegas no paleio;

o mais é isto: o tolo dum poeta

a beber, dia a dia, a bica preta,

convencido de si, do seu recheio …

A poesia é a vida? Pois claro!

Embora custe caro, muito caro,

e a morte se meta de permeio.

                        *

De permeio a morte? Sim, a arrenegada,

venha rebuçada ou escancarada,

a que te ceifa inteiro ou se deita, primeiro,

de esperanças, na tua lástima de cama.

De permeio, pois pois, que isso de morrer

não faz parte de nenhum programa.

E podia fazer?

(de “Feira Cabisbaixa”, 1965)

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