As sílabas marginais/PÓLVORA/Nelson Ferraz

 

 

PÓLVORA

 

o ruído dos dias amamenta

o tiquetaque das folhas secas.

 

depois de nos termos perdido

continuamos a perder-nos.

 

os pontos cardeais são territórios

que estremecem nas bússolas.

 

há poças de água que são feridas

à procura de um rio.

 

a luz que se levanta é uma luz armada

um vulto cheio de pequenez doente.

 

este ruído dos dias cola-se à pele.

 

os vermes rasgam postais ilustrados.

 

todos os países são ruas perigosas.

 

 

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