O espírito de Natal, da mensagem de Cristo, da humanidade quando vestida de fraternidade – À procura de Jesus e do Natal nos resquícios da História — Jesus no fim da história. Por David Lloyd Dusenbury

Nota prévia:

Meus caros amigos e amigas

Dedico este trabalho a dois amigos meus, formados em filosofia, António Gomes Marques e António Manuel Martins da Faculdade de Letras

É Natal, não, ainda não é Natal. Este está a chegar e em velocidade cruzeiro, de 24 horas por dia, a velocidade a que o tempo corre. Esta velocidade física não é a que vai no quadro emocional de muita gente. Para os mais velhos, para aqueles que procuram nos bolsos uns cobres para as prendas que desejam comprar e oferecer ou caso as tenham já comprado que encontrem as pessoas solidárias a quem as desejam oferecer, para todos estes retardatários dos abraços de Natal o Natal está a chegar depressa demais. Mas o maior grupo de retardatários, dos que precisariam de mais tempo para o Natal chegar não são estes, são aqueles que não têm direito material a ter Natal, aqueles a quem a chegada do Natal na data marcada não lhes dá o tempo necessário para refazerem as suas vidas para poderem ter um Natal para si ou para darem um Natal aos seus e,. por isso, desejariam até que o Natal fosse suspenso nos seus corações. Há ainda os outros, entre os quais estão maioritariamente as crianças com direito a Natal, e para estes o Natal está a chegar demasiado lentamente, tal é a ânsia de ver os embrulhos rasgados.

Por estarmos nesta quadra esqueçamos então o exercício académico, escolar, de analisar as pontes entre a situação na Argentina e na América de Trump, assim como os paralelismos, se existem, entre as condições que conduziram a estes dois resultados eleitorais.

Por isso vou antes partilhar os seguintes três textos sobre o Natal:

  1. Era Jesus um homem político?, por David Lloyd Dusenbury
  2. Jesus no fim da história, por David Lloyd Dusenbury [n.e. publicado abaixo]
  3. Natal-Uma perspetiva antropológica, por Daniel Miller,

Em termos de ideias gerais o primeiro texto passa em análise os documentos históricos escritos e que são considerados como dos mais relevantes no que se refere à morte de Cristo.

O segundo texto exige um pouco mais de fôlego, é uma explicação das ideias de Hegel quanto ao sentido e ao fim da História. Trata-se de um texto nada fácil, como seria de esperar, quando se trata de interpretar Hegel. Assinale-se, porém, que se trata de um texto poderoso, seja-se crente ou não crente. E eu estou neste último grupo e li-o mais que uma vez e recomendo-o.

O terceiro texto é um muito longo texto. Trata-se da análise da ideia de Natal ao longo da história e, com essa análise percorrem-se vários países e em várias épocas. Um longo texto sobre a ideia de Natal no tempo, o tempo longo da história, no espaço, a diversidade de países que entram na elaboração desta visão antropológica do Natal. Isto é verdade, e pode-se dizer que terá mesmo algumas páginas de que o leitor se pode queixar de uma certa monotonia, mas correspondem à disponibilização de matéria-prima a partir da qual o autor desenvolve posições para mim inovadoras sobre o Natal, sobre a sua importância no magma económico e social de diversos países e em diversas épocas, e, porque não, sobre a sua importância no capitalismo global atual. Um texto que não deixará de interessar historiadores, antropólogos, sociológos, economistas e outros, para além do cidadão comum, que se poderá interrogar e colocar a seguinte pergunta: porque razão é que o Natal se vive em todas as latitudes, em todas as longitudes, onde faz muito frio, onde faz muito calor? O que é que há de comum por detrás desta ligação entre sociedades tão diferentes, de culturas tão diferentes?

A resposta, talvez a encontremos em Hegel:

“O próprio Hegel considera que a história mundial apresenta “um quadro aterrador”. Mas também conclui que os “acontecimentos concretos” da história são “os caminhos da providência”. O que ele quer dizer com isto é que “a história do mundo é um processo racional”. E o que isso significa, para ele, é que a razão divina – e o amor divino – devem estar obscuramente presentes “em tudo, especialmente no teatro da história mundial”(…)

“Para Hegel, a essência da história é a razão divina, que deve ser reverenciada. Para Schopenhauer, é um efeito da vontade demoníaca, que deve ser negado. O contraste não é somente atrativo é também consciente. E, no entanto, nas últimas páginas de ambas as obras icónicas do século XIX, descobrimos que, se o amor é o segredo da história (Hegel) e a compaixão a base da ética (Schopenhauer), então “o lugar de uma caveira” – o lugar onde Jesus morreu – é o centro simbólico da história mundial. Todo o caos, a angústia e a destruição dos últimos meses convidam-nos a recordar este facto.”

Para este ano, deixo o Natal por aqui.

Júlio Mota

Coimbra, 20 de Dezembro de 2024

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

6 min de leitura

Jesus no fim da história 

Para Hegel, o sacrifício monstruoso nunca é sem sentido

Por David Lloyd Dusenbury

Publicado por  em 30 de Março de 2024 (original aqui)

 

Crianças reúnem-se durante a Semana Santa em Espanha (CESAR MANSO/AFP via Getty Images)

 

A palavra mais difícil na notória e difícil Fenomenologia do Espírito de Hegel aparece na frase final do livro. Não é uma densa construção alemã, mas a tradução de um nome local hebraico. Ou, talvez dito de forma mais correta, de um nome de lugar aramaico, já que é o que agora chamamos de vernáculo falado por Jesus e pelos seus contemporâneos, na Galileia e Judeia, no que agora chamamos do primeiro século da Era Comum.

Embora Hegel o deixe sem nome, é a figura de Jesus que paira sobre a conclusão do seu emocionante e romântico tratado sobre a humana (e divina) “experiência da consciência”. Pois o que a frase final de A Fenomenologia do Espírito nos diz – e este é o livro, lembre-se, que evoca todos os espectros de Marx na Europa do século XIX, na Ásia do século 20 e além – é que o segredo da história humana, em toda a sua glória melancólica, é o Golgotha.

Na visão misteriosa de Hegel do fim da história, a história gira inquietamente e gradualmente em espiral para cima (e para baixo) do seu núcleo espiritual. Essa é a rocha sobre a qual as ondas do grande livro oceânico de Hegel quebram, uma e outra vez – “o Gólgota do espírito absoluto”. Sem o seu Gólgota, diz Hegel, a história “seria sem vida”. Que é também dizer que, sem o Gólgota – seja lá o que for – a história global estaria a faltar em “verdade”.

Como sabemos isto? No original alemão, Hegel emprega a frase “die Schädelstätte“, que Martin Lutero, o teológico vanguardista (e restauracionista) do século XVI, usou para germanizar um sinistro nome de lugar em Jerusalém, Gólgota, na sua tradução do Novo Testamento. Lemos no Evangelho de Marcos, por exemplo, que na manhã de sua morte, os recrutas romanos levaram Jesus “a um lugar chamado Gólgota, que significa o lugar de uma caveira”. Foi lá que os romanos o crucificaram. E a representação de Lutero desse lugar – “o lugar de uma caveira ” – é Schädelstätte [n.t. também conhecido por Calvário]. Trezentos anos depois, esse é o nome que Hegel dá ao coração negro da história global. Em aramaico, é o Gólgota – e em latim, Calvariae Locus. O lugar de uma caveira. O lugar onde Jesus morreu.

Se Karl Marx & Co. se tivessem lembrado disso, eles poderiam ter sabido que o comunismo de luxo mundial totalmente libertado nunca foi uma opção. E se Francis Fukuyama & Bros. se tivessem lembrado disso, eles não teriam sido levados pelo sonho tardio e liberal de fim da história.

Quer sejamos ou não hegelianos, podemos concordar que Hegel viu melhor do que a maioria o que estava por vir no seu século – e ainda está a chegar no nosso. Que é o sofrimento e a morte, e a sublime questão do que farão os humanos com isso. O que será de nós através do sofrimento e da morte? O que será de nós através do nosso próprio Gólgota?

Hegel coloca de forma diferente, e mais vívida, num manuscrito das suas Palestras sobre a filosofia da história do mundo. Ele escreve que:

“Mesmo quando olhamos para a história como um altar no qual são massacradas a felicidade das nações, a sabedoria dos Estados e a virtude dos indivíduos, os nossos pensamentos inevitavelmente impelem-nos a perguntar: a quem ou para que fim último foram feitos estes monstruosos sacrifícios?”

Esta visão sombria da história do mundo pode ajudar-nos a decifrar a última frase da sua Fenomenologia. Pois o que é a história, aqui, senão uma vasta zona em que “sacrifícios monstruosos” foram feitos (e ainda estão a ser feitos, e serão sempre feitos)? E o que é o Gólgota de Hegel, senão o lugar por excelência onde um “sacrifício monstruoso” foi feito?

No entanto, a questão formulada nas Palestras de Hegel continua a pairar: O que havemos de fazer do espetáculo macabro da história humana?

Uma das particularidades desta questão é que o espetáculo da história mundial não é um espetáculo que possamos observar desinteressadamente. Nunca pode ser apenas um objeto para a nossa “reflexão meditativa”, pois todos nós estamos imersos no espetáculo. E a história irresistivelmente faz algo de nós também – algo que Hegel acaba por chamar de sacrifício. A sua questão é, portanto: a quem ou para quê estamos a ser sacrificados? Um sacrifício não é um sem sentido. Não é desprovido de intencionalidade ou de estrutura.

Hegel pensa que o sofrimento humano não é desprovido de significado intrínseco. Por isso, coloca-se na linha do incomparavelmente brilhante Gottfried Wilhelm Leibniz, que fez avançar as ciências da terra e da vida, formulou o cálculo infinitesimal, prefigurou a IA, promoveu o diálogo civilizacional com a China e elaborou uma metafísica radicalmente moderna, mas ricamente tradicional. Hegel diz-nos que a sua própria filosofia pode ser lida, tal como a de Leibniz, como “uma teodiceia, uma justificação dos caminhos de Deus”. Diz-nos também que está “pessoalmente convencido” de que o mundo é “governado pela providência”. É a sua “noção geral de uma ordem mundial divina” – parodiada por Voltaire na sua novela de 1759, Candide, ou o Otimismo – que ele [Hegel] partilha com Leibniz.

“É na história mundial”, escreve Hegel, ‘que encontramos a soma total do mal concreto’. Escusado será dizer que essa soma é incalculável e inexprimível. O próprio Hegel considera que a história mundial apresenta “um quadro aterrador”. Mas também conclui que os “acontecimentos concretos” da história são “os caminhos da providência”. O que ele quer dizer com isto é que “a história do mundo é um processo racional”. E o que isso significa, para ele, é que a razão divina – e o amor divino – devem estar obscuramente presentes “em tudo, especialmente no teatro da história mundial”.

Como é que o amor divino pode estar presente nos “sacrifícios monstruosos” que a razão humana, com razão, considera abomináveis? Só há uma maneira, e é aquilo a que Hegel chama “a categoria do negativo”. O negativo é, para ele, precisamente uma categoria de sacrifício. “Não podemos deixar de notar”, escreve, ‘como tudo o que há de melhor e mais nobre na história do mundo é imolado no seu altar’. O negativo é, pois, o altar de Hegel – o seu lugar de sacrifício. E ele pensa que o amor divino pode estar presente na história global, porque o próprio divino foi colocado nesse altar. O Deus de Hegel não é alheio à angústia e à irracionalidade do negativo.

É apenas através do sofrimento – ou “o trabalho do negativo”, como Hegel o diz nas páginas iniciais da Fenomenologia – que um amor divino pode provar a sua “seriedade”. E onde está, então, para ele, o lugar onde o amor divino revelou a sua seriedade – ao convulsionar, morrer e “decair” na história?

No Gólgota, na Schädelstätte.

Para Hegel, o lugar onde Jesus morreu simboliza assim a essência da história – tanto passada como futura – porque é o lugar onde podemos contemplar o sofrimento humano em todo o seu horror reluzente, onde é o próprio divino que está a ser sacrificado e o próprio divino que está a morrer. Só depois do seu batismo de sangue, na leitura que Hegel faz dos evangelhos, é que Jesus é finalmente transformado no portador (ou figura) de uma vida nova e superior.

Hegel não pode considerar a racionalidade da história sem o sofrimento de Deus. Ao mesmo tempo, ele não pode considerar a realização do sentido na história sem o nosso sofrimento – o que talvez seja o mesmo que dizer, sem a nossa participação no sofrimento de Deus. Sem o nosso Gólgota.

Mas a ênfase de Hegel na necessidade e no significado radical do sofrimento humano não faz dele – tal como do seu contemporâneo mais novo, Schopenhauer – um pessimista. É Schopenhauer que sistematiza o pessimismo como um novo estilo de filosofia, em oposição consciente a Hegel – gerando uma feroz e largamente esquecida “Controvérsia do Pessimismo” (Pessimismusstreit) na Alemanha do século XIX. Para Schopenhauer (como para Voltaire, antes dele), o otimismo é um termo abusivo. Nas suas palavras, o mundo não passa de uma terra de sangue de “seres atormentados e ansiosos que sobrevivem apenas devorando-se uns aos outros”. Enquanto Leibniz argumentava que o nosso mundo deve ser “o melhor de todos os mundos possíveis”, Schopenhauer contrapõe que é certamente “o pior de todos os mundos possíveis”.

Schopenhauer é contundente nas suas críticas tanto a Leibniz como a Hegel. E, no entanto, na última página da sua enorme obra, The Lord as Will and Representation, Schopenhauer aponta-nos – tal como Hegel, na última página da sua Fenomenologia – para as narrativas sagradas da morte de Jesus. Schopenhauer diz-nos aqui, independentemente do que achemos disso, que a sua própria teoria da ética está “em total concordância com a ética cristã”. Além disso, diz-nos, é a figura do “Salvador crucificado” – ou talvez, acrescenta, um dos fora da lei crucificados com Jesus – que revelou “a essência interior do mundo”.

Para Hegel, a essência da história é a razão divina, que deve ser reverenciada. Para Schopenhauer, é um efeito da vontade demoníaca, que deve ser negado. O contraste não é somente atrativo é também consciente. E, no entanto, nas últimas páginas de ambas as obras icónicas do século XIX, descobrimos que, se o amor é o segredo da história (Hegel) e a compaixão a base da ética (Schopenhauer), então “o lugar de uma caveira” – o lugar onde Jesus morreu – é o centro simbólico da história mundial. Todo o caos, a angústia e a destruição dos últimos meses convidam-nos a recordar este facto.

 

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O autor: David Lloyd Dusenbury é filósofo e historiador de ideias. O seu último livro, saído agora, é I Judge no one: a Political Life of Jesus.

 

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