PALCO 248 – ROBERTO MERINO – ENCONTRO E LEMBRANÇAS

Nos primeiros dias do ano 2025 tive um encontro em casa do meu irmão Rafael com Maria Elena  Duvachelle e a sua sobrinha Orietta Paz.

Maria Elena é a única sobrevivente de uma família de actores chilenos notáveis, três irmãos e uma irmã, que com a actriz Orietta Escámez formaram a Companhia dos Quatro, a mais notável companhia teatral independente chilena, que revelou ao público autores como S. Beckett, E. Ionesco, P. Shaffer, entre outros. Foi Secretária do sindicato Sidarte dos actores de Chile, num momento difícil: quando em 1987 um autodenominado “Comando Trizano” ameaçava de morte a 78 pessoas vinculadas ao mundo do teatro. Sidarte enfrentou o terror com amor e solidariedade.

“A partir desta data: 30 de outubro de 1987, as seguintes figuras do marxismo internacional têm um mês para deixar o país”, dizia o documento assinado pelo grupo Comando 135 – Acción Pacificadora Trizano, ligado à extrema-direita chilena.

María Elena Duvauchelle e Julio Jung, dois dos artistas chilenos que foram ameaçados de morte em 1987.

A atriz María Elena Duvauchelle, que na época era secretária do Sindicato dos Atores (Sidarte) do Chile, lembra que “imediatamente que o escândalo chegou aos ouvidos das grandes estrelas internacionais da época, estas  manifestaram-nos solidariedade. Recebemos cartas e telefonemas de pessoas como Robert Redford, Robert De Niro, Jane Fonda, Laurence Olivier, Meryl Streep, Glenn Close, Glenda Jackson, Arthur Miller e Christopher Reeve. Aí liguei para o escritor chileno Ariel Dorfman, que já morava nos Estados Unidos, e ocorreu-lhe que se uma estrela internacional viesse ao nosso país e nos apoiasse e se solidarizasse conosco, isso poderia ajudar a salvar-nos, e então ele conseguiu trabalhar. Pensamos em convidar Jane Fonda, mas ele disse que Christopher Reeve, mundialmente famoso por seu papel como Superman, era a pessoa ideal.” 

O actor norte-americano viajou para o Chile e participou em atividades solidárias com os actores e artistas chilenos. 

 

           Christopher Reeve de punho erguido no acto organizado na Garagem Matucana/Santiago do Chile

Maria Elena continua lembrando que, graças à inesperada visita de Christopher Reeve ao nosso país, as ameaças de morte contra os 77 artistas chilenos deram em nada. Na quinta-feira, 3 de dezembro de 1987, o famoso ator do Superman regressou aos Estados Unidos, embora a sua ligação com nosso país não fosse cortada. Em 1988 seria um dos rostos que protagonizou um dos spots da campanha do Não ao plebiscito. “A votação é secreta… O futuro do seu país está em suas mãos”, disse Reeve ao público chileno naquela ocasião.

Curiosamente quando regresso a Portugal no dia 4 de Janeiro, via Barcelona, no avião vejo, no ecrã individual que está a minha frente, o filme documental “Super/Man: A História de Christopher Reeve”, que conta a trajetória do intérprete mais icónico do super-herói no cinema. A produção acompanha a ascensão de Christopher Reeve ao estrelato, quando conquistou o papel de Super-Homem na década de 1970. Além disso, o documentário retrata o trágico acidente de cavalo que o deixou paralisado em 1995, e como ele passou o resto de sua vida em busca de uma cura para as lesões na medula espinhal.

Emocionante é constatar o apoio familiar, da sua mulher Dana e dos seus filhos, e daquele que foi o seu “irmão” no cinema e na vida, o comediante Robin Williams. A coragem e otimismo do actor foram notáveis nos momentos de recuperação e luta, tudo isto ainda em imensas atividades de apoio dado a outros doentes tetraplégicos como ele através da Fundação Christopher/Dana Reeve.

Lembrar ainda que há 10 anos o jornal satírico Charlie Hebdo, em Paris, foi alvo de um ataque terrorista. Decorreu, em Paris, esta terça-feira uma cerimónia que assinala o ataque que vitimou 12 pessoas. Entre as vítimas Georges Wolinski (*) cartunista e escritor de banda desenhada, quem foi o nosso companheiro no júri de várias edições, nas quais colaborei, do Porto Cartoon –World Festival.


Notas:

(*) María Elena Duvauchelle Concha (Concepción, 30 de agosto de 1942), atriz chilena de teatro, cinema e televisão com uma longa carreira. Obteve múltiplos reconhecimentos ao longo da sua vida, incluindo o Prémio Teatro Municipal da Venezuela em 1977 e a Medalha de Excelência do Conselho Nacional de Cultura e Artes do Chile em 2014.

Em 2019, a direção do Teatro Sidarte atribuiu à sala 1 o nome da atriz, “Sala 1 María Elena Duvauchelle”, em comemoração ao Dia Nacional do Teatro Chileno.

(**) George Wolinski, importante cartunista francês, colaborador de publicações como o jornal satírico Charlie Hebdo ou a revista Paris Match, e habitualmente Presidente do Júri Internacional do Porto Cartoon, referiu-se a este evento como um evento “único no mundo”, afirmando ainda que Portugal é dos poucos países onde existe “uma grande tradição de desenho de humor”.

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