

‘É fascinante esta época em que vivemos, mas, ao mesmo tempo, também nos enche de medo. Precisamos de uma outra visão da identidade. Há uma tendência natural no ser humano, para procurar uma comunidade em que sinta integrado, mais seguro’.
Estas palavras constam da entrevista que o escritor libano-francês Amim Maalouf, concedeu do Jornal ‘Publico.es’ nos primeiros dias do passado Dezembro, salientando ainda ‘ser necessário que a gente se sinta a fazer parte de uma tribo humana, ou a fragmentação continuará’. À data da tal entrevista, ainda o celebrado escritor e conhecedor dos ambientes em volta do Mediterrâneo, não tinha visto as fotografias de uma ‘operação especial preventiva’ no Martim Moniz, em Lisboa, em que se encostam cerca de 30 pessoas à parede para só encontrar uma arma branca.
Foram inúmeros os comentários que vieram a público, mas John William Wilkinson, poeta e jornalista australiano, a viver na Europa há umas dezenas de anos, escreve no dia 15, no ‘La Vanguardia’, ‘aproxima-se o retorno ao poder dos homens fortes que nunca se foram’; e mais acrescenta Wilkinson, ‘de uma forma ou de outra, os autocratas nunca morreram de todo, como estamos a ver no ressurgimento que, nós ingénuos, já dávamos por mortos e enterrados, mas há cada vez mais os netos de Hitler, Stalin, Mussolini, Franco, Mao (e porque não de Salazar?) a reclamar a herança do avô’.
Só a título de exemplo, o jovem Roberto Floriani que joga no ‘Juve Stabia’, um clube de futebol da Série B italiana, marcou no dia 22 do mês passado, um golo e o estádio saudou o feito levantando o braço direito entre 120º e 140º, como marcam os cânones do fascismo para realizar tal saudação. Resta dizer que o rapaz é neto do antigo ditador italiano Benito Mussolini, afirmando também, no final do jogo, que o devem identificar com esse apelido a não o Floriani que usa.
Note-se aliás, que uma macro sondagem da Open Society Foundations, uma rede filantrópica internacional fundada pelo magnata George Soros, mostrou também em Dezembro, que o conceito de democracia é ainda o mais popular; o grupo mais céptico é o da Geração Z (entre 18 e 35 anos) onde apenas 55% a preferem, 42% acredita num governo militar, e 35% até apostaria num líder forte que prescindisse de eleições. Havia uma anotação no final destes números, a explicar tratar-se de um colectivo que passava quatro ou mais horas ‘pendurado’ nas redes.
Talvez seja conveniente voltar a apelar à sabedoria da filósofa Annah Arendt, que penou o nazismo, ao afirmar ‘a banalidade do mal, aparece no indivíduo massificado, incapaz de pensar por si, fazer reflexões e construir noções éticas individuais’. Se pensarmos bem, os extremos ideológicos da sociedade actual, estão hoje representados por grupos, no dizer de Theodor Adorno, ‘no fundo só mostram o medo às consequências do desenvolvimento da sociedade em geral’.
E devemos ter em mente o que escreveu o cronista Lluís Foix, também em Dezembro, no ‘La Vanguardia’ sobre a nova aristocracia: Elon Musk, Jeff Bezos, Mark Zuckerberg, devidamente apoiados pelo cabeludo mordomo Trump, ‘são os grandes capitalistas que podem tanto elogiar como humilhar, através dos seus algoritmos cruzados, milhões de seguidores, agora parecidos com aquelas mesmas massas que, no século passado, apoiaram os totalitarismos e esqueceram a dignidade humana’.
Lembro também o que me mandaram há uns dias, e perfeitamente adaptável a esta época –as cinco coisas antigas que continuam a ser boas– a pessoas idosas e sábias, velhos amigos para conversar, lenha velha para aquecer, vinho velho para celebrar e livros antigos para ler.
É, será, a melhor maneira de ‘ser’ e ‘estar’ em comunidade, uma outra e possível visão da identidade, como disse Amim Maalouf.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor
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