Entre os Bárbaros de Cavafy e os Monstros de Gramsci — Texto 4. A vergonhosa e imediata rendição dos democratas a Trump – A Resistência está Morta, Bem-vindo à Rendição. Por Ross Rosenfeld

 

Dedicatória

Dedico a publicação desta série à memória do Rui Namorado certo de que o espírito desta coletânea de textos corresponde aos ideais de verdade em política e na vida de que o Rui Namorado foi um exemplo.


 

Nota prévia

Este é um artigo curioso publicado pelo jornal The New Republic, que penso estar ideologicamente muito próximo dos democratas ditos centristas como Obama, Clinton, Biden e outros. Curiosamente, o artigo é implacável para com a viragem de muitos democratas dispostos a servir Trump e acha que a subida de Trump ao poder é da pura responsabilidade dos media e não das políticas até aqui seguidas pelos Democratas! O artigo descreve o comportamento de muitos democratas dispostos a servir Trump, os mesmos que têm servido o Partido e não de agora, desde há anos, e remete o resultado das eleições para uma posição muito próxima da crendice do povo americano quando nos diz:

“A verdade está mais próxima do que concluiu o escritor político Kurt Andersen ao afirmar: “Ser americano significa acreditar em absolutamente tudo aquilo em que se quer que o americano acredite. Agora levamos isto a um extremo tal que muitos de nós estamos desligados da realidade.”

Mas isto não explica nada, não explica, por exemplo, porque é que o povo americano ouviu tanto as mentiras de Trump e não ouviu as “verdades” de Kamala Harris? De forma maliciosa poder-se-ia responder: porque não se foi tão mal educado quanto Trump e o seu gangue! Na verdade The New Republic afirma:

“Em vez de começarem numa posição de fraqueza, os Democratas precisam de aprender um pouco com os Republicanos — especialmente a partir da era Obama — e descobrir como ser perturbadores e obstrutivos. Pode-se não ter o controlo do Congresso ou da Casa Branca, mas ainda se tem um púlpito digno desse nome e pode reunir os seus apoiantes e pode criar uma situação de oposição infernal e fazer enormes estragos políticos. Deixe de procurar fazer acordos com Trump e comece a procurar um terreno politicamente de nível. mais elevado, ou mesmo um terreno politicamente de nível mais baixo, se isso for necessário para vencer o trumpismo”.

Descer ao nível de Trump seria então a saída para estes centristas, porque os fins justificam os meios. Relembro aqui Trotsky que nos explicou que quando em política os fins justificam os meios, são então os meios que acabam por se transformar em fins. Diremos logicamente não à estratégia proposta por The New Republic. E quanto à proposta destes centristas diz-nos Gabriel Wynant e em contraponto da tese centrista referida e defendida pelo jornal:

O trumpismo não pode ser atacado com base em estratagemas porque o trumpismo refere-se a forças reais da sociedade americana—racismo, misoginia, frustração de classe—e oferece uma expressão obscena e satisfatória aos seus destinatários. O trumpismo só pode ser derrotado pelo confronto direto-não apenas com Trump, mas sim contra o que ele representa e contra a reconstrução da América que ele prevê.

 O jornal The New Republic defendeu sempre a candidatura de Biden, e sabe-se que Biden estava doente há mais de um ano antes do debate público que o levou a sair da corrida presidencial, e percebe-se então que a argumentação do The New Republic se deve à sua fidelidade a uma corrente ideológica neoliberal “centrista” que quer branquear a todo o custo o que tem sido a política neoliberal do Partido Democrata desde Clinton até Biden, embora com alguma viragem positiva de Biden por via de um protocolo feito com Bernie Sanders. Nem é por acaso que estes mesmos centristas sob a direção de Obama neutralizaram a campanha de Bernie Sanders em 2016, contra o qual terão gasto mais dinheiro que os próprios republicanos, não é por acaso que os pesos pesados do Partido Democrata. apoiaram recentemente o falcão George Latimer contra Jamaal Bowman em que este último contava com o apoio de Bernie Sanders e de Alexandria Ocasio-Cortez. E gastaram-se muitos milhões para conseguir que o falcão Latimer ganhasse a eleição contra Jamaal.

Pela parte que me toca considero importante a leitura deste artigo do jornal The New Republic por aquilo que descreve quanto às portas giratórias, sejam estas o que forem, mas quanto à sua leitura de como chegámos aqui, remeto antes  para os próximos artigos desta série, – de Wendy Brown, de Sean T. Byrnes, de Gabriel Winant e de Tim Barker – e onde, ao contrário e contra a tese do The New Republic, se analisam em profundidade as razões que levaram à chegada, pela segunda vez, de Trump ao poder.

Abreviando quanto às explicações apresentadas nestes artigos aqui vos deixo a posição de Gore Vidal – escritor, ativista e político norte-americano falecido em 2012 (sobre G. Vidal ver aqui) – sobre a realidade partidária na América (no ensaio “The State of the Union”, 1975):

“There is only one party in the United States, the Property Party … and it has two right wings: Republican and Democrat. Republicans are a bit stupider, more rigid, more doctrinaire in their laissez-faire capitalism than the Democrats, who are cuter, prettier, a bit more corrupt — until recently … and more willing than the Republicans to make small adjustments when the poor, the black, the anti-imperialists get out of hand. But, essentially, there is no difference between the two parties.”

“Há apenas um partido nos Estados Unidos, o partido da Propriedade … e tem duas alas de direita: Republicana e Democrata. Os Republicanos são um pouco mais estúpidos, mais rígidos, mais doutrinários no seu capitalismo laissez-faire do que os Democratas, que são mais encantadores, mais bonitos, um pouco mais corruptos — até recentemente … e mais dispostos do que os Republicanos a fazer pequenos ajustamentos quando os pobres, os negros, os anti-imperialistas ficam fora de controle. Mas, essencialmente, não há diferença entre os dois partidos.”

Talvez a posição de Gore Vidal expresse o sentimento de apatia e de desilusão de muitos eleitores americanos e há nos resultados eleitorais das últimas presidenciais um dado que vai nesse sentido: Trump aumentou o número dos seus eleitores em cerca de 700 mil e Kamala Harris perdeu face aos resultados eleitorais anteriores de Biden, cerca de 10 milhões de votos. Pense-se nisto.

 

Júlio Mota


Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

6 min de leitura

Texto 4. A vergonhosa e imediata rendição dos democratas a Trump – A Resistência está Morta, Bem-vindo à Rendição

O presidente eleito ainda nem tomou posse e os democratas de todos os tipos já se estão a comprometer a trabalhar com ele – Democratas de todos os tipos—incluindo Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez—estão a comprometer-se em encontrar um terreno comum com Trump e os Republicanos, na crença equivocada de que os eleitores os recompensarão por isso.

 Por Ross Rosenfeld

Publicado por The New Republic em 9 de Janeiro de 2025 (original aqui)

 

A deputada Alexandria Ocasio-Cortez e o senador Bernie Sanders à porta do Capitólio em 21 de março de 2024/Win McNamee/Getty Images

 

Na terça-feira, a Câmara dos Representantes aprovou a Lei Laken Riley, que permitiria à Segurança Interna deter e deportar imigrantes indocumentados que foram apenas acusados — não condenados — por crimes menores e não violentos. Se o projeto de lei também prevalecer no Senado, onde se espera que avance no final desta semana, Donald Trump assiná-lo-á imediatamente após tomar posse — altura em que poderemos ver pessoas deportadas sem o devido processo instaurado, simplesmente porque um polícia alega que roubaram. digamos, um tubo de pasta de dentes numa qualquer loja ou supermercado. É também fácil imaginar como é que as autoridades policiais e os procuradores favoráveis ao MAGA poderiam tirar partido de uma lei deste tipo, exagerando ou mesmo inventando acusações na esperança de capturar um “ilegal”.

Apesar disso, 48 democratas juntaram-se aos republicanos na aprovação do projeto de lei. Um deles, o deputado Tom Suozzi de Nova Iorque, escreveu recentemente um artigo de opinião para o The New York Times no qual argumentava: “Só trabalhando em conjunto para encontrar um compromisso em partes da agenda do presidente eleito poderemos fazer progressos para os americanos que estão claramente a exigir mudanças na economia, na imigração, no crime e noutras questões importantes.” O senador John Fetterman, da Pensilvânia, concorda, sem dúvida. Não só é co-patrocinador da versão do Senado da Lei Laken Riley, como nos últimos meses tem-se promovido como um democrata supostamente “responsável” e “razoável“, com a intenção de encontrar compromissos com Donald Trump e os republicanos. Depois de a Câmara ter aprovado o projeto de lei, juntou-se à senadora republicana Katie Britt na Fox News para um segmento de Bret Baier intitulado “Common Ground”, durante o qual repetiu as mentiras de Trump sobre os migrantes, declarando: “Temos centenas e centenas de milhares de migrantes aqui ilegalmente, que foram condenados por crimes.… Não sei por que razão alguém acha que é controverso que todos eles precisem de ir embora.”

Temos assistido a um tom semelhante de muitos outros democratas desde a derrota de Kamala Harris frente a Trump — e não apenas dos habituais moderados, mas também de defensores progressistas como Bernie Sanders. Sanders tem-se oferecido para trabalhar com Trump para limitar as taxas dos cartões de crédito e aumentar o salário mínimo (boa sorte com isso). Ao Business Insider, disse no mês passado que Elon Musk é um “tipo muito inteligente” com quem gostaria de trabalhar para cortar nas despesas de defesa. Embora tenha criticado o pensamento conspirativo e as opiniões de Robert F. Kennedy Jr. sobre as vacinas, Sanders parecia ansioso por trabalhar com ele noutras questões relacionadas com a saúde.

É como se os Democratas se tivessem tornado cúmplices da sua perceção de facto consumado. Muitos deles assumiram como certo que adotar uma postura de oposição é antitético aos princípios democráticos e que lhes cabe, após uma derrota eleitoral, encontrar acordos com os republicanos para alcançar progressos sempre que possível. Estão a ignorar, no entanto, a dinâmica real da situação — nomeadamente, que, ao ajudarem Trump a obter vitórias, apenas aumentarão o seu poder e influência e, assim, promoverão o Trumpismo. Este é o paradoxo de Trump.

A lista de democratas que estão a cair nesta armadilha cresce de dia para dia. Como Mica Soellner e Melanie Zanona relataram na quarta-feira para o Punchbowl News, “os democratas da Câmara e do Senado estão a avaliar ativamente formas de trabalhar com a administração Trump.… Vários democratas disseram-nos que estão abertos a unir-se a Trump, mas deixaram claro que estão a escolher os seus lugares e os seus temas. Algumas áreas potenciais de pontos em comum que os democratas listaram incluem a fronteira e a imigração, questões económicas e o chamado esforço ‘DOGE’, que terá como objetivo erradicar gastos governamentais desnecessários.” Esta é uma lista preocupante de problemas. Isto não sugere que Democratas e Republicanos chegarão a um acordo, mas que os Democratas capitularão perante a posição republicana em deferência ao que imaginam ser o sentimento público sobre estas questões.

“Devemos aproveitar todas as oportunidades em torno da segurança das fronteiras e da reforma da imigração”, disse o deputado Greg Landsman, do Ohio, ao Punchbowl. “Este é o problema número um, e o número dois é reduzir custos.” Embora a fronteira seja uma questão importante, sem dúvida que mais muros e mais guardas não resolverão o problema; o que o país precisa é de mais infraestruturas jurídicas, a começar por mais juízes, para processar a enorme acumulação de processos. Além disso, a imigração empalidece em comparação com problemas como os cuidados de saúde e a violência armada, para não falar das ameaças à liberdade de expressão e à democracia representadas por Trump e pelos seus acólitos. Quanto à redução dos custos, isso deve ser bastante fácil, uma vez que já estão baixos, os salários reais têm geralmente superado a inflação e a economia deixada por Biden para Trump está extraordinariamente saudável, especialmente em comparação com outras nações industrializadas.

Poderíamos esperar tal retórica de um congressista democrata do sudoeste do Ohio, mas até Alexandria Ocasio-Cortez, essa pugilista da classe trabalhadora do Bronx, opinou a Punchbowl: “A razão pela qual penso que muitas vezes os democratas perdem eleições é porque somos demasiado reflexivamente anti-republicanos, e que não nos inclinamos o suficiente para uma visão ambiciosa para os americanos da classe trabalhadora.” Foram os Democratas, note-se, que incluíram 83 mil milhões de dólares no American Rescue Act de Biden para reforçar as pensões dos trabalhadores norte-americanos, incluindo mais de um milhão de camionistas que depois viraram as costas a Kamala Harris em novembro. Quanto à sua afirmação de que os democratas são demasiado anti-republicanos por reflexo, bem, há muito a que se opor por reflexo. Os republicanos são o partido da intolerância, do sofisma e da crueldade. E são certamente reflexivamente anti-Democratas (para não falar antidemocráticos).

Aliás, Ocasio-Cortez não está em desacordo com outros políticos de Nova Iorque: como o jornal Politico observou na quarta-feira, a governadora Kathy Hochul e vários legisladores estaduais recuaram no confronto com Trump, calculando erradamente que os eleitores os respeitarão mais se eles se encolherem perante Trump.

Que diferença podem fazer quatro anos — e uma eleição decidida por menos de dois milhões e meio de votos. Adeus, #Resistência. Olá, #Rendição.

Não estou a argumentar que os Democratas devem ser tão intransigentes e irracionais quanto o são os Republicanos — apenas que devem reconhecer que cada vitória que alcançam e cada compromisso que fazem sob uma administração. Trump vem depois com uma sobretaxa, e essa sobretaxa é que eles vão fazer com que o trumpismo se torne mais aceitável e enraizando-o ainda mais no nosso sistema político e na nossa psique coletiva. Há algumas semanas, Fetterman disse à ABC News: “Se está a colocar-se contra o presidente, está a colocar-se  contra a nação”. Mas, e se (como é o caso) Trump for realmente mau para o país? Por que razão, então, estaremos a defendê-lo?

Muitos americanos já foram convencidos pela câmara de eco dos media de direita de que o dia 6 de janeiro [de 2021, de invasão do Capitólio] foi apenas um “protesto” e não um golpe e que Trump foi uma vítima inocente de “guerra jurídica”. De acordo com o The Washington Post, apenas 51% dos norte-americanos consideram que a ordem de Trump para os seus apoiantes marcharem até ao Capitólio ameaçou a democracia. Setenta e dois por cento dos republicanos disseram que é “tempo de avançar”, como se não fosse realmente grande coisa (em comparação com 14 por cento dos democratas). Isto demonstra o poder da pressão da direita. Qualquer vitória que dê a Trump será ecoada da mesma forma. Os Democratas acreditam que o povo americano compreende os factos básicos e sabe o que é melhor para o país. A verdade está mais próxima do que concluiu o escritor político Kurt Andersen [1] ao afirmar: “Ser americano significa acreditar em absolutamente tudo aquilo em que se quer que acredite. Agora levamos isto a um extremo tal que muitos de nós estamos desligados da realidade.”

Os Democratas concluíram das eleições que não foram mensageiros eficazes para o povo americano e, embora haja verdade nisso, não consideraram a possibilidade de que, para derrotar o Partido Republicano e o Trumpismo, tenham de mudar de tática e combater mais agressivamente a máquina de desinformação da direita. Os Democratas ainda sofrem com a fé desenfreada no sistema e com a crença de que o povo americano está informado e capaz de tomar decisões sábias. A partir desta crença, concluem que, se parecerem suficientemente razoáveis, ou se (como Sanders está a tentar provar) Trump parecer suficientemente hipócrita, o povo americano recompensará os Democratas e punirá os Republicanos.

De nenhuma recompensa podem estar à espera. O único Democrata que Trump e os Republicanos veem alguma utilidade é aquele que lhes é completamente subserviente. E se a grande maioria dos americanos compreendesse realmente a política do nosso tempo, Trump teria perdido de forma esmagadora. Venceu porque os americanos desinformados acreditaram em narrativas sobre inflação, invasões de migrantes e inépcia governamental. A eleição disse mais sobre a credulidade do eleitor do que sobre os seus desejos.

Em vez de começarem numa posição de fraqueza, os Democratas precisam de aprender um pouco com os Republicanos — especialmente a partir da era Obama — e descobrir como ser perturbadores e obstrutivos. Pode-se não ter o controlo do Congresso ou da Casa Branca, mas ainda se tem um púlpito digno desse nome e pode reunir os seus apoiantes e pode criar uma situação de oposição infernal e fazer enormes estragos políticos. Deixe de procurar fazer acordos com Trump e comece a procurar um terreno politicamente de nível. mais elevado, ou mesmo um terreno politicamente de nível mais baixo, se isso for necessário para vencer o trumpismo. Acima de tudo, não desista antes mesmo da luta começar.

 

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[1] Nota do tradutor. Vale a pena escutar Kurt Andersen


O autor: Ross Rosenfeld é colaborador frequente de numerosas publicações, escrevendo sobre política, História, Cultura, Educação. O seu último livro é The Slow Death of American Democracy: 50 Reasons the US Is Not A True Democracy and How We Can Fix It. Aborda a supressão dos eleitores, o gerrymandering, a composição distorcida do Senado, o encarceramento em massa, a desigualdade de rendimentos e muito, muito mais. Ross também tem vários livros para crianças, incluindo The popular fantasy-adventure, The Stolen Kingdom e várias histórias complementares. A sua série What I Should Know foi projetada para ser uma maneira divertida para as crianças testarem seus conhecimentos e para os pais avaliarem as habilidades de seus filhos. Ross tem sido um professor da cidade de Nova York, o operador de seu próprio serviço educacional e o desenvolvedor de um programa de leitura altamente eficaz, mas o que ele mais gosta é contar histórias.

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