Começo esta Carta com alguns extractos da entrevista que Roger Chartier, o historiador francês da evolução do livro, da edição e da leitura, deu a um grande jornal europeu, já nos primeiros dias de Dezembro passado, mas que guardei à espera de uma oportunidade. Oportunidade pela chegada de alguns acontecimentos que poderemos ligar às suas afirmações. Aqui vão elas, mantendo a tradução o mais literal possível, para não lhes estragar o sentido:
– Desde quando escrevemos?
– Termos a escrita cuneiforme, nas plaquinhas de barro sumérias, desde 4.000 anos a.C. São sinais fonéticos O alfabeto chegará pouco depois, o cananeu, divulgado pelos fenícios.
– E desde quando existem livros?
– Durante o século II da nossa era, em Roma, começou a impor-se o códice (livro) ao volume (rolo), folhas religadas e encadernadas.
– Morrerá o livro algum dia?
– ‘Antes morrerei eu’, respondia Umberto Eco, farto dessa pergunta. Os jovens afastam-se do texto impresso como discurso, e afastam-se da arquitectura do livro…
– E o audiolivro?
– ‘Ler é escutar os mortos com os olhos’, afirmou Quevedo. Ou com os ouvidos, agora com o audiolivro, claro.
– Como fomentaria a leitura de livros? – Proibindo-os!
Dispenso-me de deixar aqui os comentários do jornalista, por toda a gente saber de cor a estória do fruto proibido.
Mas não posso deixar de salientar que, nalgumas das distopias mais célebres, vermos sempre a leitura e a literatura como alvos principais dos profetas e adoradores do pensamento único, da normalização dos públicos e, em algumas delas como ‘Fahrenheit 451’, de Ray Bradbury, há mesmo bombeiros, cuja função é queimar livros e bibliotecas; num prefácio muito curto, curtíssimo, escrito pelo próprio autor, diz apenas ‘Fahrenheit 451 é a temperatura a que um livro se inflama e consome…’.
É também e só, uma espécie de conclusão drástica, de uma ‘sentença’ já de 95, do presidente da Time-Warner, de Gerald M. Levin, depois do investimento inicial de alguns biliões de dólares, para conquistar o domínio campo de entretenimento, de jogos e de compras virtuais, ‘Os media electrónicos, podem comandar tudo a qualquer momento – filmes, shows, noticiários, compras; ensina-nos a experiência, que o consumidor nunca soube o que queria, antes de ter o produto diante dos olhos’. Quem comanda quem?
El País, ‘Queimaram livros’, 19.06.19.
Marta Rebón, escritora, tradutora e crítica literária, afirma também, num escrito do passado Natal, ‘A estratégia para neutralizar os livros é torná-los agora mais irrelevantes, por serem radicais, que procuram, numa actividade individual e nos liga ao mundo, dissolver através da leitura, certezas quase absolutas, o que pode ser considerado um acto subversivo’.
Somos assim consumidores ‘recortados’, por desprovidos das noções de contexto e profundidade, afirma outro crítico, que começa e também se estende às aulas, as mesmas de onde a literatura vai gradualmente sendo afastada, quando é (ou talvez por ser) fundamental para as Humanidades, como também para qualquer outra das áreas do conhecimento.
E ainda em Dezembro passado, os ‘media’ noticiaram que o conceito ‘brain rot’, que se pode traduzir por ‘podridão cerebral’, tinha sido eleito como ‘palavra do ano’ pela Universidade de Oxford. Refere a sensação que fica depois de se terem passado horas enganchado ao ecrã, a ver coisas que deterioram o estado mental ou intelectual, num consumo excessivo de material vazio ou trivial.
Exactamente na mesma altura, o neurocientista português António Damásio, também afirma numa entrevista ao DN, ‘Há substituição da educação, do tempo pessoal e de reflexão, pela diversão e entretenimento. Há exemplos nas ciências humanas, como a filosofia em geral, nas artes, como a pintura, a música e a literatura, que dão sinais fortes de como nos podemos reerguer’. Tudo coisas bem diferentes acrescenta Damásio, ‘Uma forma de elevação que não se vive na internet, nas redes sociais, no momento presente, por muito deslocada daquilo que é a vida real’.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor