As sílabas marginais/o peito é a cotovia /Nelson Ferraz

 

o peito é a cotovia

onde esvoaça

uma lição de algarismos

uma tenda sem chão

que não morre na sebenta deste alfabeto desordenado

a que eu chamo

chama de água

aguarela mistela fogo de nenúfares com olhos de nuvem

sítio de quietude fosso de alvoroço… e mar de palavras.

eu não sou mais do que um país de mins desconhecidos

onde as sílabas têm o cheiro das árvores e das plantas anónimas

no corpo dos montes e nos desenhos com montes.

se quiseres saber qual a primeira coisa que me vem à ideia

todas as noites

em sendo vinte e duas horas e quarenta e cinco minutos

ou vinte e três horas e trinta e seis minutos…

eu digo-te:

é a mudez triste de não saber colorir os dias

que já tendo sido

ainda são hoje

(minuto após minuto)

longos instantes seculares

de espanto cor de lume.

 

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In, “POIS”, Versbrava Editora, 2015.

1 Comment

  1. Meu amigo, é ” marginal” o seu poema: busca palavras marginais, nasce à margem dos dias, ergue-se à margem dos versos e eleva-se , em MARGENS de espanto! PARABÉNS!! O meu abraço!!

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