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Macron e Marine Le Pen: centro-esquerda e extrema-direita? Ou extrema-direita e direita clássica?
Um diálogo que não é surdos, entre dois amigos, entre dos antigos alunos e antigos docentes do ISEG, Júlio Mota e Manuel Ramalhete.
Coimbra, 5 de Dezembro de 2024
Disse a um amigo meu, Manuel Ramalhete, quando este me disse que temia a ascensão de Marine Le Pen, que Macron estaria mais à direita que Marine Le Pen e que o silêncio quase total que se verifica sobre este ilustre Presidente da República significa o branqueamento político de um homem para quem é mais importante que a polícia de choque vise os olhos dos manifestantes ditos Coletes Amarelos, os abandonados da globalização em França, do que atingir os Black Blocs, os anarquistas da burguesia que são uma perfeita ofensa a tudo o que possa ser chamado de Democracia.
A sua resposta foi a seguinte:
Quanto ao Macron estar mais à direita, poderás ter razão, mas uma França dominada pela Sra. Le Pen causa-me pesadelos, como me causam a escolha de Trump, embora já estivesse à espera. Aliás, penso que muita gente que votou em Trump espera que ele não cumpra algumas das promessas, e eu também espero isso.
Nota. Não deixa de ser curioso que a frente da sra. Le Pen foi muito reforçada pelos antigos apoiantes, votantes, do partido comunista, o mesmo acontecendo cá com o Chega (por isso têm muito apoio relativo no Alentejo).
Face a esta resposta vamos então por pontos. O Manuel Ramalhete diz-me,
mas uma França dominada pela Sra. Le Pen causa-me pesadelos,
Quanto a isso também a mim me dá pesadelos, mas muito mais pesadelos me dá Macron, porque é mais à direita que ela e como toda a gente entende que a extrema-direita é ela, Macron passa por ser o cordeiro e não o lobo: só um lobo na história e assim este só pode ser Marine Le Pen. Exemplo: nas últimas eleições à primeira volta a Nova Frente Popular (de Le Pen) teria ganho; no entanto, os arranjos de coligação para impedir a vitória de Le Pen na segunda volta deram a maioria a Macron e este nomeou um governo de direita, um governo que irá cair amanhã.
Dizes depois:
Não deixa de ser curioso que a frente da sra. Le Pen foi muito reforçada pelos antigos apoiantes, votantes, do partido comunista
A Europa está toda ela a virar à direita dizes-me tu e é verdade. Interroguemo-nos então porquê. No caso francês. foi o PS F que lentamente destruir o PC, e mais fortemente a política seguida por François Hollande e o desmantelamento das estruturas sindicais da classe operária foi feito pelo seu ministro do Trabalho. Quem era ele? Macron! Entretanto sob a mão de Hollande o PSF desfaz-se e fazem depois de Macron o seu candidato a Presidente e este ganhou. O PSF teve de criar uma fábrica de lixivia para o branquear na sua prática de ministro, para poder fazer dele o candidato do POVO, branqueando toda a feroz política que ele fez contra as classes desfavorecidas. E toda a classe política, com exceção da direita clássica, isto é, Marine Le Pen, entrou nesse jogo. Alguém caracterizou muito bem Macron. Que vale Macron? Bom, vale o que vale o seu carnet d’adresses, fornecido pelo Banca Rothschild. Tudo dito. Por seu lado, como é que o próprio Macron se caracterizou? Como um Presidente “jumpeteriano” Que quer isto dizer? Vejamos o que nos disse a imprensa francesa da época:
Um presidente “jupiteriano” seria, portanto, um chefe de Estado que se baseia em Júpiter -o deus romano que governa a terra, o céu e todos os outros deuses- e “tem o caráter imperioso, dominador”, precisa o Larousse.
“Júpiter, na mitologia, não é um simples deus, é o rei dos deuses e protetor da cidade, no sentido de todos os cidadãos, neste caso, para nós, a República”, observa para BFMTV.com Marie Treps, semiologista.
A França foi então governada pelo deus dos deuses e o resultado está à vista: os deuses devem estar loucos. Veja-se o que nos diz o sítio UnHerd (aqui) sobre Macron:
“O verdadeiro problema é que o governo Macron levou a França à falência. Quando Macron foi eleito pela primeira vez em 2017, ele foi retratado como a solução para os problemas da França e da Europa, com o Economist aclamando-o como “Salvador da Europa”. Macron foi dito ser um tecnocrata inteligente com formação em banca que poderia reformar o estado francês e reforçar a economia francesa.
Avançando sete anos, as suas políticas, juntamente com as suas tentativas cínicas de se manter no poder, estão a ameaçar empurrar a Quinta República da França para um precipício. Quando Macron assumiu o poder, a dívida pública era de cerca de 98,5% do PIB. Em 2023, atingiu 110,6%. Em 2017, a França tinha um défice orçamental de cerca de 3,4% do PIB, enquanto em 2023 este tinha aumentado para 5,5% do PIB
Curiosamente, Macron parece querer acumular ainda mais pressão sobre as finanças do Estado em prol da guerra na Ucrânia. Em novembro, quando os juros dos títulos franceses estavam a subir, Macron deu luz verde para permitir que mísseis franceses Scalp atingissem alvos de longo alcance dentro da Rússia. Sabendo que isso provocaria uma resposta russa, o ministro francês dos Negócios Estrangeiros deu então sinais que iniciaram uma discussão sobre o envio de tropas para a Ucrânia. Parece óbvio que se a França se envolvesse diretamente na guerra, os mercados de títulos entrariam em pânico e o país ficaria imediatamente falido.
O que explica o comportamento estranho de Macron? Parece que, à medida que se torna cada vez mais isolado em casa e com o seu projeto de reforma doméstica a bater contra as rochas, ele tentou recriar-se como um estadista internacional. Esta semana, com o governo quase dissolvido no meio de uma crise orçamental o presidente francês está a ir para a Arábia Saudita para tentar envolver mais a França no Oriente Médio. Essas ações sugerem que Macron nunca foi o tecnocrata teimoso que ele foi considerado ser; ao invés, ele parece ser um político disposto a tomar grandes apostas para tentar reforçar sua própria importância e garantir seu próprio legado.
Mas é improvável que o legado de Macron seja positivo, dado os danos duradouros que se seguirão a esses níveis astronómicos de dívida. O comportamento do presidente francês está a tornar-se mais volátil, e parece estar a piorar essas crises. A solução para os problemas da França não está no Médio Oriente ou em Donbas, na Ucrânia. A menos que haja mudanças drásticas em breve, a história pode ver Macron como o presidente francês que precipitou o fim da Quinta República” Fim de citação.
A França foi sujeita como toda a Europa a um longo processo de desindustrialização. A classe operária enquanto classe foi desmantelada como acabo de assinalar. O PCF não está isento de culpas quanto à política imposta pelo PSF e pelos seus arranjos com a direita. (Olhe-se para a nossa gerigonça em que Bloco de Esquerda e PCP passaram a legislatura a engolir sapos impostos pelo PS e aconteceu em Portugal algo de equivalente).
Com esse processo de desindustrialização, curiosamente quem aparece a oferecer uma malha de esperança a essa gente foi exatamente o grupo conservador, esse é o termo mais correto na minha opinião, o grupo de Marine Le Pen. É assim que se explica a deslocação do eleitorado que não dispõe de formação universitária, que não tem grande formação política. Mas aqui podemos ir mais longe, procurando perceber o profundo significado desta deslocação. Uma classe pode ser definida como classe em-si, ou como classe para-si. Como classe em si é definida pela sua situação no trabalho e na sociedade, enquanto classe para-si é definida pela sua praxis política. Ora, na França, eliminadas as estruturas que criavam no indivíduo o sentido de pertença à classe enquanto classe para-si, enquanto classe politicamente definida pela sua praxis, eliminadas as estruturas que lhe conferiam o estatuto político de classe política, ficava apenas a multitude de indivíduos a serem apenas parte de uma classe económica definida pelo rendimento recebido, ficava o indivíduo isolado, atomizado, perante todos os outros em igualdade de circunstâncias. Esta é uma realidade que Margaret Thatcher, ao contrário das elites ditas de esquerda, percebeu muito bem, daí a sua luta encarniçada contra tudo o que representasse estruturas sindicais. Não há sociedades, há indivíduos, foi o seu grito de guerra. E de uma guerra que ela transitoriamente ganhou. Neste contexto, devemos então falar não de comunistas mas sim de indivíduos ideologicamente descaracterizados que votam apenas pelo que no plano imediato se lhes torna mais apelativo
Vale a pena lembra aqui o que nos diz o marxista Daniel Wynant:
“as classes sociais são fenómenos históricos. Não podem ser corretamente entendidas como agrupamentos na distribuição de rendimentos ou mesmo como grupos de pessoas: em primeiro lugar só são compreensíveis como relações sociais, – não há trabalho sem capital ou capital sem trabalho; e, em segundo lugar, no quadro de um modelo de funcionamento entre estas relações em constante mudança. Por outras palavras, as classes não são categorias, mas processos, como disse E.P. Thompson no posfácio de 1968 da sua história clássica The Making of the English Working Class (um livro extremamente influente para os Ehrenreichs e para a Nova Esquerda em geral).
Os sociólogos que pararam a máquina do tempo e, com uma boa dose de inveja concetual, desceram à casa das máquinas para as ver, dizem-nos que em lado nenhum conseguiram localizar e classificar uma classe. Só conseguem encontrar uma multidão de pessoas com diferentes ocupações, rendimentos, hierarquias de estatuto e outras coisas. Claro que têm razão, porque a classe não é esta ou aquela peça da máquina, mas o modo como a máquina funciona quando é posta em movimento – não este ou aquele interesse, mas a fricção de interesses – o movimento em si, o calor, o ruído estrondoso. A classe é uma formação social e cultural (que muitas vezes encontra expressão institucional) que não pode ser definida de forma abstrata ou isolada, mas apenas em termos de relação com outras classes; e, em última análise, a definição só pode ser feita no meio do tempo – isto é, ação e reação, mudança e conflito. Quando falamos de uma classe, estamos a pensar num corpo de pessoas muito vagamente definido que partilha o mesmo conjunto de interesses, experiências sociais, tradições e sistema de valores, que tem uma disposição para se comportar como uma classe, para se definir nas suas ações e na sua consciência em relação a outros grupos de pessoas de forma classista. Mas a classe em si não é uma coisa, é um acontecimento.” (original aqui)
A classe não é uma coisa, a classe não deve ser pensada e analisada como algo de abstrato, uma classe é uma situação, um momento, são sentimentos, são aspirações individuais reunidas num coletivo, a classe são visões coletivas de futuro, próximo ou longínquo. Dou-te um exemplo que vivi de perto e que assinala um comportamento habitual das nossas elites em analisar os d’en bas. Em tempos passámos na Faculdade um filme chamado MetalEurope, e referente a uma grande empresa do mesmo nome, empresa dirigida por Marc Rich [1], diretor do grupo Glencore. Tratava-se de uma multinacional em crise, sediada no cantão mais Up da Suiça, Zug, o cantão que é o paraíso fiscal por excelência. Convidámos um quadro dirigente dos trabalhadores da empresa a participar num debate e a comentar um filme sobre a empresa. Apresentámos o filme no Teatro Académico Gil Vicente. O nosso quadro dirigente da MetalEurope, um engenheiro, avisa que possivelmente se emocionará muito ao visionar o filme e se tal acontecer pede antecipadamente desculpa, mas irão passar imagens de amigos seus que terão já morrido no calor da luta sindical. E assim foi, emocionou-se e muito. No entanto um dos elementos da mesa e também comentador do referido filme, professor universitário da Universidade de Coimbra ironizou com o acontecido, como sendo um comportamento inadmissível numa Universidade! Pasmei, ser-se de esquerda não é ser capaz apenas de pensar a classe operária de forma abstrata, é ser capaz de a compreender nas suas vivências concretas.
Dizes-me ainda:
o mesmo acontecendo cá com o Chega (por isso têm muito apoio relativo no Alentejo).
Podias acrescentar o Algarve onde o Chega ganhou em toda a linha. Quanto aos comunistas e ao Alentejo porquê não falar então da política migratória que, em parte, estará na raiz do problema por ti levantado. No caso do Alentejo este é um dos grandes motivos que estão na base do problema e o problema meu caro Ramalhete não são os comunistas ou a sua falta de formação política, são as condições materiais (as circunstâncias) criadas pela política seguida nas últimas décadas e basicamente por governos ditos de esquerda. Repara: simplificou-se a entrada de imigrantes legais ou ilegais no país como forma de combate às máfias que organizam esses fluxos migratórios. Não se combateram as máfias externas (são externas) mas também, e isso é muito importante, não se combateram as máfias internas. Tudo parece conviver à grande, repartindo os ganhos dessa intensa exploração. As terras como Odemira repetiram-se e multiplicaram-se, sem que nada tenha sido feito. A exploração intensiva dos migrantes é uma vergonha, a desintegração das escolas com estudantes que não sabem sequer ou sabem muito mal português gera uma situação de conflito para os nacionais que têm os filhos em escolas assim tornadas tão heterogéneas. Muitos destes nacionais não falam sobre o problema, não querem ser acusados de racistas, de xenófobos, ninguém fala mas depois votam, em linha com a sua angústia. E o Chega vai subindo, claro.
Em tempos encontrei-me com uma professora em Faro, penso que arquitecta de formação e passámos uma tarde a falar sobre o ensino. Deixa-me reproduzir o que na altura, Páscoa de 2024, escrevi sobre o tema:
“Estava eu numa dada loja a falar com o empregado que tinha falhado na sua opção Ciências no curso secundário, no 10º ano, e a quem dizia:
“Meu caro, você está agora em Humanidades, não vai precisar diretamente de grande capacidade de abstração, disso pode estar descansado, mas vai indiretamente precisar daquilo que sustenta essa capacidade: a imaginação. Fortaleça-a, e a melhor via para o fazer é a literatura de qualidade, conscientemente lida e intelectualmente digerida. Não se esqueça.”
A nossa conversa é interrompida, chega uma cliente, alguém bem conhecido pelo nosso jovem, uma vez que lhe pergunta como é que ele vai nos seus estudos. Antes de ele responder, eu, que nos trambolhões da minha vida nunca aprendi o que é politicamente correto, respondo por ele colocando a cliente recém-chegada numa conversa triangular, dizendo-lhe: “Era exatamente sobre isso que estávamos a falar.” Pelo que me disse esta nossa visitante ao longo da conversa, tratava-se de uma arquitecta e professora, bisneta de um universitário de referência da Universidade de Coimbra da década dos anos de 1930, o que me deu para perceber que a matriz cultural desta senhora era de exceção. (…)
[E a conversa passou a ser a três, o professor universitário, a professora do liceu e o aluno].
Falou-se do ensino técnico-profissional, quer de Paço de Arcos, quer de Faro, quer da escola onde andou o filho desta nossa visitante, que concluiu o seu curso com “especialização” em equitação. Sobre Paço de Arcos ficámos a saber que muitos dos profissionais de profissões fisicamente difíceis vêm destes ambientes socialmente complicados. Quanto a Faro, falou-se de gente que suportou, com muita dificuldade, o choque da crise Covid, arrastando-se num estado de depressão. Curiosamente esse efeito depressivo, no caso de Faro, será mais evidente nos jovens que frequentam o ensino técnico-profissional do que nos jovens que frequentam o ensino liceal clássico. A diferença, compreende-se, é o resultado da diferença social dos meios em que vivem uns e outros.
Se isto é verdade, e não tenho razões para duvidar disso, esta realidade mostra o que eu já senti em muitos estudantes da Universidade de Coimbra: há uma terrível falta de apoio à juventude e era necessário que se olhasse para a saúde mental, para a saúde física e até para a saúde intelectual [2] dos nossos jovens como prevenção contra males maiores que poderão aparecer no futuro com os ignorantes que estamos agora a criar. Isso custa dinheiro, talvez muito dinheiro, mas é necessário escolher, entre o retorno ao passado que a atual conjuntura política permite antever, e os caminhos de esperança no futuro que é necessário abrir e que será possível com essa mesma juventude construir. Esta última via sairia mais barata ao País do que os pesados custos que a primeira via irá logicamente acarretar a médio e longo prazo. Penso que é urgente pensar-se nisto, porque pensar no futuro dos nossos filhos e netos é bem mais importante do que as contas certas de Centeno e de Medina, e também das contas certas que a União Europeia irá obrigar a atual coligação, uma coligação que vai da direita (PSD) à extrema-direita (CDS) com este partido a querer situar-se ainda mais a direita que o próprio Chega. Sobre Vilamoura diz-nos esta arquiteta de formação e professora de profissão:
“ a ideia que circula por Vilamoura, a de que há gente com muito dinheiro interessada em criar ali a Las Vegas da Europa. De resto, assiste-se a um outro fenómeno: a Escola Internacional de Vilamoura, até há pouco tempo propriedade de gente algarvia, foi vendida e ao que parece estará na calha a compra de mais duas dessas escolas fora do Algarve, uma delas provavelmente na linha de Cascais. compra essa feita por um americano.”
Disparo, incomodado uma pergunta: “De quanto é o valor das propinas agora.”
“Cerca de 1000 euros/mês em regime de externato no primeiro ciclo ”, foi a resposta.
O ensino privado atinge assim preços impossíveis para a quase totalidade dos algarvios. É certo que há muitos estrangeiros a residir no Algarve e alguma gente muito endinheirada. É igualmente seguro de que muitos outros estudantes poderão vir do estrangeiro e com eles, até porque são jovens, podem vir também os pais. Há aqui uma aposta de qualidade no ensino, uma aposta sobre gente altamente selecionada. E gente fina é outra coisa. É sempre assim, há os que têm e os que não têm. Estes últimos são para esquecer, aqueles são para receber e de braços abertos e para eles haverá sempre casas disponíveis. A gentrificação encarrega-se de as disponibilizar.
E em paralelo, “como está o ensino público?”, perguntei eu a esta nossa visitante. Com a voz embargada pela emoção diz-me: “Há turmas em que cerca de 50 por cento dos alunos são estrangeiros. Muitos deles mal sabem inglês ou até nem o sabem. Como é que se ensina nestas condições? Mas mais ainda: como se ensina em condições aos portugueses, nestas salas?”
Falámos da queda de qualidade do ensino público e falo-lhe das histórias da Nova FEUC quanto às passagens aparentemente avulsas. Diz-me que isso é consistente: ela também é pressionada a passar, passar. Essa lógica estende-se de baixo para cima e em toda a pirâmide. “Professor, aqui só posso dizer uma coisa: ser-se professor sério é doloroso”.
Venho-me embora, mas fico com a consciência de um drama ao nível da pequena e média burguesia algarvia: estes grupos sociais sabem que a escola pública está em clara degradação por múltiplas razões. Sabem isso, e sabem outra verdade: agora também não têm dinheiro para os colocar em escolas privadas de alta qualidade como serão (?) as escolas ditas internacionais do grupo Nobel ou outro. Lamentavelmente, os sindicatos reduzem o problema da escola à contagem do tempo de serviço, o que é pena, daí o enorme silêncio sobre os problemas (muitos) da escola pública. Dos outros problemas de que ninguém fala dou dois pequeníssimos exemplos:
- Em dada escola uma aluna termina o 12º ano como aluna NES – Necessidades Educativas Especiais. Conclui o secundário e vai para a Universidade. Licencia-se e regressa à escola como professora. Um neoliberal dirá que se trata de um verdadeiro sucesso escolar. Pessoalmente direi o contrário.
- Numa escola da cidade de Coimbra uma professora estipula o trabalho de um aluno, dizendo-lhe: vais fazer o autorretrato do teu colega, ao lado!
Conto as histórias sobre o ensino no Algarve relatadas pelo miúdo do liceu de Faro e pela professora referida a ensinar numa cidade algarvia a um amigo meu e este diz-me: fiz sempre a escola pública, as minhas filhas fizeram sempre a escola pública e eu já tinha dinheiro para outro tipo de despesas. Mas era onde estavam melhor. Hoje, tenho quatro netos e andam todos na escola privada. Custo escolar dos 4 miúdos: ronda os 1700 euros mês sem contar com a alimentação na escola, em média de 7 euros por refeição.
No caso do Algarve, se juntarmos a isto a falta de empregos de qualidade, a falta de empregos, mesmo precários, na restauração e hotelaria, ocupada massivamente por brasileiros, hispano-americanos, africanos ou de outras nacionalidades, com toda esta gente a viver sujeita a uma exploração intensíssima para poder sobreviver [3], incompatível com a dignidade humana e sobre a qual o silêncio das autoridades tem geralmente sido de ouro, se juntarmos a isto a falta de habitação alugável nas cidades algarvias e a falta de serviços de saúde, percebemos quais são os caminhos que levam os eleitores adultos até ao Chega. Quanto aos eleitores jovens, a questão é ainda mais complicada. Estes jovens vivem encurralados entre os empregos que podem ter e não desejam e os empregos que desejam e não poder ter, porque estes empregos não existem ou porque eles não têm preparação profissional para os exercer. Daí a escassez de profissionais de qualidade nas carreiras intermédias, seja-se pintor, estucador, marceneiro, canalizador, eletricista, estofador ou até mesmo jardineiro, entre muitas outras. Por onde andam os nossos filhos e netos, afinal? Em cursos e cursinhos para iludir as taxas de desemprego? Politicamente, a caminho do Chega e da Iniciativa Liberal, direi eu [4]. “ Fim de citação.
No Algarve, meu caro Ramalhete, vive-se encurralado num quadrado de problemas. O ensino/formação é o que acabo de explicar, as terras de Faro estão a abarrotar de arrendamento local, com um turismo de massas e, portanto, não há casas, não há quartos para arrendar em Faro para quem queira para lá ir trabalhar. E trabalhar aonde? Na restauração, dir-me-ás, mas só o quarto comerá cerca de metade do ordenado. Poder-me-ás dizer: mas há uma rarificação de mão-de-obra e os salários irão subir e os trabalhos a viver a alguma distância de Faro poderão então alugar um quarto. Ironia, meu caro. Não, acrescento. E porquê? Porque, não te esqueças, a maioria destes empregos são de trabalho simples, e aí sofrem a concorrência a dos fluxos migratórias, que servem de tampão á subida de salários locais. Entras numa das melhores pastelarias-cafés de Faro e tens gente a servir-te que mal fala português. Simples.
Aos problemas de emprego, de habitação, de ensino, e todos eles se articulam e redimensionem, agravando-se, acresce os problemas com o sistema de saúde a abarrotar pelas costuras, com o hospital de Faro a estar SUB subdimensionado enquanto as máfias locais especulam sobre o local de criação do Novo Hospital (mas quando?) para especularem sobre os terrenos. Foi o que foi feito com o grande centro comercial entre Loulé e Faro que dá pelo nome de Mar Shopping, ou centro IKEA.
Para teres uma ideia do Hospital de Faro, a minha mulher deu uma queda, foi internada às 10 da manhã no Hospital de Faro e até à meia-noite ninguém lhe perguntou se tinha fome, se tinha sede. O desespero era total. Para a ver, tinha que andar em ziguezague no Hospital. No corredor por onde tinha de passar estreito havia macas de um lado e do outro, e no corredor não passavam duas pessoas uma pela outra.
Percebes agora porque é que o Chega ganhou no Algarve? Portanto, somos levados a concluir que o Chega tem a importância que tem não tanto por mérito próprio, mas também tem algum, mas sobretudo por culpa de esquerda que saída das Universidades e habituada a pensar pelas abstrações dos livros, se é que os leem, ignora a realidade vivida por aqueles que en-bas vivem e sofrem. Isso paga-se caro.
No caso americano, isso paga-se já com a chegada de Trump ao poder, porque uma das principais razões que o levam ao poder é exatamente o pensamento das elites democratas, elites Atari que ignoraram ostensivamente as gentes d’en bas.
No caso americano, isso paga-se já com a chegada de Trump ao poder, porque uma das principais razões que o levam ao poder é exatamente o pensamento das elites democratas, elites Atari que ignoraram ostensivamente as gentes d’en bas. Como assinala Lily Geismer (original aqui):
“Na década de 1980, com o crescente eclipse da base tradicional do New Deal, muitos dos Watergate Babies começaram a colocar uma ênfase ainda maior no sector privado – particularmente na indústria de alta tecnologia, o que lhes valeu o rótulo de “Democratas Atari”. [o sublinhado é nosso] (…)
Por exemplo, embora a campanha de Obama tenha feito do registo de novos eleitores uma prioridade, ele concentrou a maior parte da sua atenção e dos seus recursos na conquista do apoio dos quadros técnicos especializados da classe média-alta. (…)
Tanto em 2008 como em 2012, em zonas de batalha como os subúrbios do norte da Virgínia, Denver e o Triângulo de Investigação da Carolina do Norte, Obama combinou habitualmente mensagens de igualdade de oportunidades com promessas de estimular o emprego e o empreendedorismo de alta tecnologia, de reduzir os impostos da classe média e de melhorar a educação. (..)
[As declarações de Obama] ocultam os impedimentos estruturais que tornam tais objetivos difíceis de alcançar para a maioria dos americanos pobres e da classe trabalhadora e demonstram a distância da mensagem do Partido Democrata em relação à realidade quotidiana das suas vidas. (o sublinhado é nosso, JM)
Não culpemos, pois, os eleitores por votarem. Chega, critiquemos os políticos responsáveis pelas políticas que têm empurrado os eleitores, jovens ou adultos, a caminho do Chega.
Este é um fenómeno mais geral, como resultado das políticas de direita promovidas também pela esquerda do arco do poder. Ainda muito recente um analista político americano referia-se à classe política americana do seguinte modo:
“A lógica política de colocar o rótulo ‘fascista’ em Trump é bastante clara. Significa unir por trás do programa da atual liderança democrática Pelosi, Schumer, os Clintons, os Obamas e outros superintendentes da ordem oligárquica; o próprio projeto que deu a Trump a Casa Branca em 2016”.
Este é o resultado atual de uma degradação da vida política americana desencadeada a partir da vaga neoliberal dos anos 80, tal como aconteceu em Portugal e em muitos outros países seja na Europa, seja no resto mundo.
Curiosamente, sobre esta matéria sugiro que leias o excerto abaixo, escrito por um autor que eu considero de direita, mas que deve ser lido com atenção.
Diz-nos Henrique Raposo, jornalista do Expresso: (original aqui)
“Vale a pena voltar ao tema da semana passada, porque é aqui que está a encruzilhada da política ocidental, sobretudo daquilo que ainda apelidamos – à falta de melhor termo – de “esquerda”, um movimento que está a morrer. Repito: um liberal clássico, que até agora esteve à direita, será muito em breve a esquerda. Voltaremos ao mundo pré-1789, isto é, Tories vs. Whigs.
A ESQUERDA DEVIA SER A PRINCIPAL INTERESSADA EM FRONTEIRAS COM FILTROS
Os profetas como Varoufaukis dizem que os progressistas ou liberais não acreditam em fronteiras e pronto. Mas porquê? É só isto: é uma questão de fé. Mas, como diz Bernie Sanders, a esquerda tem de pensar que governa estados-nações através de democracias. Isto é, a democracia e o estado-nação têm sempre fronteiras. Além disso, essas fronteiras, que filtram as entradas de imigrantes, são a primeira defesa sindical dos trabalhadores mais pobres que já estão dentro da democracia. O caso das “open borders” é obviamente um caso para os maiores defensores do capitalismo desregulado. Quando se trata de defender fronteiras totalmente abertas, quem é que está a ser mais coerente do ponto de vista intelectual, em primeiro lugar, e mais consequente do ponto de vista de conquista de poder, em segundo lugar? A esquerda Varoufakis ou a direita do Cato Institute? A pergunta é retórica. Não têm de responder.”
No excerto seguinte do qual discordo em absoluto, o autor escreve:
“Por outro lado, a ideia das fronteiras abertas não é só uma ideia de utopia e quimera fofinha. Não é mera ingenuidade. Há outra coisa a montante. Quando perceberam que o capitalismo e a social-democracia tinham conquistado o povo, a esquerda deixou o marxismo e o socialismo ali pelas bandas dos anos 60; deixou o proletariado branco, digamos assim, e passou a apostar nas “minorias” étnicas, nos migrantes negros, hispânicos, muçulmanos enquanto fermento revolucionário contra a democracia burguesa. Era o sonho de Frantz Fanon: os muçulmanos e negros – o “outro” – iriam juntar-se nas ruas europeias para fazerem a revolução pós-colonial. Aliás, a exploração da raiva árabe é desde os anos 60/70 uma ferramenta da esquerda mais radical. E há políticos de esquerda como George Galloway que estão há décadas a tentar esta via dentro das democracias. A esquerda europeia – ainda hoje – acha que terá sempre o apoio dos muçulmanos e negros, e este é um dos fatores que leva à defesa da política de portas abertas sem perguntas e sem controlo. Ora, nos EUA, a esquerda também pensava assim. Mas sabem o que aconteceu, não sabem? As tais minorias, que a esquerda considerava como suas, passaram a votar à direita. E agora repito a pergunta que faço há vinte anos: mas estavam à espera do quê? Estamos a falar de culturas que são por inerência muito conservadoras ou mesmo reacionárias; estes homens chegam do arco muçulmano e de África, e portanto não progressistas.”
A razão não está de certeza com Henrique Raposo. Ela esconde-se na política que tem sido seguida nas últimas décadas como se sublinha pelos homens do grupo Atari (grupo de Clinton virado para as tecnologias). Como assinala ainda Lily Geismer:
“ao defenderem a economia de alta tecnologia e os valores individualistas e suburbanos de qualidade de vida, os Democratas Atari não tinham abandonado a política de classes. Limitavam-se a defender políticas que refletiam os interesses de classe da base do partido, que tinha passado de operários de automóveis para trabalhadores do conhecimento ou ditos ainda quadros técnicos especializados. (o sublinhado é nosso, JM)
Aí têm permanecido desde então. Nas eleições presidenciais, em particular, a ênfase no estímulo ao crescimento da alta tecnologia e na expansão das oportunidades para conquistar quadros especializados s com formação académica continua a ser o elemento central da estratégia eleitoral do Partido Democrata. No entanto, esta abordagem alienou ainda mais os eleitores com rendimentos mais baixos, muitos dos quais não veem qualquer razão para comparecer no dia das eleições (o sublinhado é nosso, JM). O resultado é uma diferença de rendimentos ainda maior e um preconceito de classe entre os não votantes – que tendem a apoiar mais os sindicatos e a despesa pública com empregos e seguros de saúde – e os eleitores com rendimentos mais elevados, que são menos favoráveis a essas posições.
[Nota do tradutor-Curiosamente Kamala Harris perdeu 10 milhões de eleitores face aos últimos resultados de Biden, Trump a ganhou apenas 700 mil eleitores face aos seus resultados anteriores]
Estes padrões de voto, por sua vez, moldam a estratégia do Partido Democrata – ampliando, em última análise, o poder dos seus eleitores ricos e instruídos. (o sublinhado é nosso, JM)
Isto é o oposto à explicação de Raposo acima dada. Mas reencontramo-nos parcialmente de acordo quando Raposo afirma:
“(…) a esquerda saltou do eurocentrismo absoluto – o caso de Marx é elucidativo – para o ataque diário contra a civilização ocidental – um movimento suicida porque isso é matar o corpo que carrega esta alma. Repito: não há esquerda sem eurocentrismo e, como tem recusado esse lado eurocêntrico, a esquerda está em negação de si própria e em auto destruição. Segundo erro: políticas de portas abertas até para pessoas que chegam de forma ilegal. Terceiro: recusar políticas de integração destas pessoas que são mais reacionárias e que nem sequer compreendem a essência progressista do feminismo, por exemplo. Pior: é dito que integrar estas pessoas nos nossos valores é o mesmo que ser “racista”. Então qual foi a consequência? As pessoas mantiveram os seus valores reacionários e, em consequência, estão agora a votar na direita reacionária. Bravo!” Fim de citação.
Meu caro Ramalhete, o que temos estado a assistir é à negação do espírito dos New Dealers, esmagando as pessoas d’en bas com Clinton e Obama, e começando agora também a esmagar os quadros técnicos especializados e de gestão, a classe média que Clinton e Obama quiseram criar, mas esqueceram-se que era necessário um Estado Providência forte para a sustentar. Deixo em aberto a questão da degradação do modelo europeu, modelo de há muito tempo feito em pedaços, quando me dizes:
“Estou muito pessimista em relação á Europa. Nós estamos muito preocupados, e com razão com a eleição de Trump, mas suspeito que a Europa caminha para um certo trumpismo a prazo. Na Hungria manda a extrema-direita, na Eslováquia idem, na Itália idem. O candidato mais provável vencedor na Roménia é assumidamente pró nazi (à direita da extrema direita). Em França suspeito que a Sra. Le Pen, ou alguém do partido dela, será o próximo presidente. Na Alemanha a extrema-direita já é o segundo partido, à frente dos social-democratas. No dia em que extrema-direita ganhar a França e a Alemanha, penso que a UE tem os dias contados. A juntar a isto a indústria europeia está à beira do colapso. O modelo social europeu idem. A VW, o maior fabricante europeu de automóveis, e o terceiro mundial, anuncia 18 mil milhões de prejuízos e programa encerrar fábricas na Europa, a começar pela Alemanha.” Fim de citação
Na raiz da evolução deste modelo está o problema das elites, está o problema da desindustrialização, está o problema da globalização, está também o problema da desagregação da classe média que a globalização tinha criado. Assim, um dia destes responder-te-ei com uma análise feita para os Estados Unidos onde os problemas começam a ser comuns aos que são por ti aqui levantados, mas onde a esquerda não oficial está intelectualmente muito mais bem preparada neste tipo de análise que a esquerda europeia. É o que me parece.
O texto vai longo pelo que ficamos por aqui. Registo a afirmação de uma pessoa tua conhecido para quem a Europa é uma gigantesca fábrica de tachos destinados a quem jurou servir a Causa europeia, mas é assim não só na Europa. Olha para os destinos de Victor Gaspar, de Álvaro Santos Pereira, de Maria Luís Albuquerque, de Mário Centeno, António Costa, olha para a origem de classe de tudo o que é representante de Portugal em Instituições Internacionais, BEI, Banco Mundial, FMI, etc. e percebe-se que essa pessoa tua amiga tem razão. Numa grande Instituição Internacional um antigo aluno meu descobriu que a partir do meio da escala na Instituição só se seria promovido se…se houvesse um cartão de ministro a defender a promoção. Tudo dito.
Notas
[1] Agora que estamos perante o escândalo do perdão de Biden ao filho, vale a pena recordar aqui Bill Clinton. Para além de perdoar ao seu irmão Roger, por antigas acusações de tráfico de drogas, também perdoou a um acusado de crimes e de alto gabarito, Marc Rich, Terá sido, se a memória não me falha o último ato oficial de Clinton, assinando o seu perdão presidencial com uma caneta de ouro que o próprio Marc Rich lhe terá oferecido. Dizem-nos de Brookings Institute :
“A verdadeira notável realização de Clinton foi criar um consenso contra si mesmo com o seu perdão de Marc Rich, popularmente conhecido como o “financeiro fugitivo”, e também conhecido pela sua fraude fiscal em grande escala e por ter contornado o sistema de sanções aplicadas pelos Estados Unidos” Relativamente a este perdão dizem-nos ainda: o Senador Pat Leahy de Vermont, o membro democrata de alto escalão no Comité de Justiça no Senado, não estava menos irritado com este perdão. “Foi um perdão terrível,” disse ele. “Era indesculpável. Foi ultrajante…. Aqui estava um homem que estava envolvido numa grande fraude e que não mostrou absolutamente nenhum remorso.”
[2] :Perguntei ao aluno do liceu de Faro se no seu liceu não havia atividades circum-escolares como por exemplo, um clube de cinema e fotografia, um clube de teatro, de leitura, de artes visuais ou outros, como projetos cultural e socialmente integradores dos estudantes no espaço liceal e a resposta foi negativa, a que acrescentou mais ou menos o seguinte: faço parte do grupo de colaboradores do Museu Lyceu de Faro e já vi que há registos de que houve atividades deste tipo. Convidou-me a visitar o museu numa tarde em que eu tivesse disponibilidade. Esta foi uma resposta que me confirmava também que estava perante um jovem culturalmente diferenciado e motivado, o que é sempre bom. Um convite que fica para depois.
Falo deste tema, saúde intelectual, desde há muito tempo, e já lá vão décadas, sobretudo deste a altura em que li a biografia de uns mais representativos intelectuais ingleses do século XIX: John Stuart Mill. É encantador ver como é que ele de adolescente se transformou em jovem adulto e depois em adulto inteiro, de corpo e alma.
[3] As histórias sobre a exploração intensíssima de emigrantes são conhecidas pelo que nos dispensamos de falar delas.. Mas dois coisas me espantam: a impunidade dos traficantes de mão- de- obra neste país, com captação de passaportes ou de outros documentos e com múltiplos mecanismos de exploração sobre os emigrantes que vão até à prestação de serviços mínimos, assim como me espanta também o consentimento tácito das autoridades locais sobre esta realidade, de tal modo que qualquer dia este nosso país será uma imensa Odemira e em múltiplas repetições.
[4] Aqui vale a pena lembrar o poema de José Mário Branco, Do que um homem é capaz:
“Pra castrar a juventude/ Mascaram de virtude/ O querer vencer sozinho/ Ficam cínicos brutais/Descendo cada vez mais/Pra subir cada vez menos”.


