Poesia Palestiniana em português
por António Gomes Marques
O suplemento do Jornal Público Ípsilon, do passado dia 7 de Fevereiro, dedicou um grande espaço aos últimos lançamentos de poesia de e para a Palestina, num texto da autoria de Amanda Ribeiro, referindo, sobretudo, a publicação em Portugal de vários livros de poesia palestiniana, de onde recolhi alguma da informação de que me servi para esta minha publicação.
A Editora Flâneur lançou dois livros de Mahmoud Darwish: Poemas e Na Presença da Ausência, este agora reeditado.
Por sua vez, a Contracapa lançou uma antologia, Se Eu Tiver de Morrer, e, em 2022, As Pedras Têm Entranhas?, com recolha e tradução de Regina Guimarães, e ainda Um Árabe é um Árabe, é um Árabe, um Árabe, uma colecção de poesia árabe incluindo poetas palestinianos.
A revista Limoeiro Real, tendo também como objectivo obter alguns recursos financeiros para Gaza, lançou uma Pequena Antologia pela Palestina, para além de já ter publicado a poesia de Najwan Darwish, a que juntou poetas portugueses contemporâneos.
Também a revista-postal Frente, de Álvaro Seiça e Mariana Varela, lançou uma edição dedicada à Palestina.
in: https://naoedicoes.tumblr.com/post/729168346439974912/frentea-frente-é-uma-revista-postal-literária-que
A revista Nervo, no seu n.º 22, inclui poemas de dois palestinianos: Faiha Abdulhadi e Murad Al-Sudani.
autores: ANA PAULA INÁCIO, DENISE PEREIRA, FABIANO CALIXTO (Brasil), FAIHA ABDULHADI (Palestina), INÊS LOURENÇO, JOSÉ-ALBERTO MARQUES, MURAD AL-SUDANI (Palestina), NUNO FELIX DA COSTA, PAULO JOSÉ MIRANDA, SOFIA A. CARVALHO, ZA GALLO
Um testemunho de ALMEIDA FARIA sobre Alexandre O’Neill
Traduções de REGINA GUIMARÃES
Imagens de capa e interior: NUNO VIEGAS
(Design Editorial: Inside Vanity)
Nervo 2024
in: https://www.livrariasnob.pt/product/nervo-22
No Ípsilon diz-se ainda estar à venda nas livrarias Um Garoto de Haifa Gira a Palavra e Outros Poemas Palestinos, de Najwan Darwish, da Urutau.
«_sobre este livro
“Nunca houve nada em que eu acreditasse, mas se existir um deus, ele é o mesmo deus para mim e para o poeta palestino Najwan Darwish”
Raúl Zurita
Najwan Darwish (Jerusalém, Palestina, 1978) é um dos principais poetas de língua árabe de sua geração, traduzido para mais de vinte línguas. E esta é a primeira vez que temos a chance de ler os seus poemas em português, colhidos de três dos seus livros publicados até aqui. Se não é uma antologia exaustiva, sem dúvida é uma consistente apresentação da força (ou ainda: do campo de forças) da poesia palestina contemporânea. Logo de cara, um assombro: “não há homem livre com quem eu não tenha parentesco, e não há uma única árvore ou nuvem à qual eu não seja devedor.”
A tradução do poeta Thiago Ponce de Moraes que temos em mãos foi realizada na companhia do próprio Najwan Darwish, ao longo de mais de sete anos de trabalho, em que foram cotejadas muitas das traduções publicadas em outros cantos do mundo. Aliás, o livro é muito coerente com a trajetória de Thiago, que tem se destacado como um dos poetas mais interessados em criar relações multilaterais do Brasil com outros países, ao representar nosso país em diversos festivais internacionais de grande importância, e atuando como o coordenador brasileiro do World Poetry Movement.
O encontro de Najwan Darwish e Thiago Ponce de Moraes é uma alegria e um presente para todos nós, leitores de língua portuguesa. Em um ano assombrado pelo genocídio, em que testemunhamos uma espécie de “solução final” para a destruição em massa de vidas e territórios da Palestina, a voz de Darwish traz notícias de um país ao qual não se tem acesso nos jornais ou nos livros de História. Sua poesia, como escreve Thiago, é uma força política na medida em que “apresenta a sua presença, acentuando o caráter daquilo que existe.” Ou ainda, quando traduz as palavras de Darwish: “meu desprezo por sionistas não vai evitar que eu diga que eu fui um judeu expulso de Andaluzia, e que eu ainda teço sentidos a partir da luz daquele sol se pondo.”
Marcelo Reis de Mello»
Um garoto de Haifa gira a palavra e outros poemas palestinos
Najwan Darwish
edição bilíngue
(árabe-português)
THIAGO PONCE DE MORAES
[tradução]
Teria gostado de me deitar
e esperar por Sulamita
com os lírios-do-vale
os narcisos dos montes
e todas as outras flores
cujos nomes não sei
indiferentes à reprovação
dos filhos da minha mãe
ou à culpa
das filhas de Sião.
Mas os aviões voaram da Bíblia Sagrada
para dilacerar uma família
à beira-mar…
Onde você se deita ao meio-dia?
Em que assentamento você dorme
você que matou Sulamita?
(Sulamita, página 55)
in: https://editoraurutau.com/titulo/um-garoto-de-haifa-gira-a-palavra-e-outros-poemas-palestinos
As Edições Antígona editaram recentemente Rifqa, de Mohammed El-Kurd:
RIFQA (2021), palavra árabe que significa amizade, era o nome da avó de Mohammed El-Kurd. Sobrevivente da Nakba, o êxodo forçado do povo palestiniano em 1948, e refugiada na sua própria terra, esta resistente, «mais velha do que Israel», é aqui evocada como símbolo do combate contra a opressão e o colonialismo. Livro de estreia do autor, belo exemplo da poesia palestiniana de resistência e que retoma vozes como as de Mahmoud Darwish e Ghassan Kanafani, RIFQA transmite-nos o sentimento de um povo em luta pela sua terra e memória. Prefácio de aja monet, poeta, performer e activista norte-americana.
in: https://antigona.pt › products › rifqa
A Traça Edições publicou se eu tiver de morrer – Poesia de Resistência Palestiniana,
preparando-se para publicar Dear Bones. Dear Yellow, de Noor Hindi, e Things You My Find Hidden in My Ear: Poems from Gaza, de Mosab Abu Toha, o seu primeiro livro de poesia.
“Mosab Abu Toha é o vencedor do Palestine Book Award, do American Book Award, do Walcott Poetry Prize e também finalista do National Book Critics Circle Award in Poetry.
Ele é um poeta, estudioso e bibliotecário palestiniano que nasceu em Gaza e onde passou sua vida. É o fundador da Biblioteca Edward Saïd, a primeira biblioteca de língua inglesa de Gaza. Things You May Find Hidden in My Ear é o seu primeiro livro de poemas. Ele ganhou o Palestine Book Award em 2022 e foi nomeado finalista do National Book Critics Circle Award in Poetry.
Em 2019-2020, Abu Toha foi Poeta Visitante no Departamento de Literatura Comparada da Universidade de Harvard.
Abu Toha é colunista da Arrowsmith Press, e os seus escritos de Gaza também apareceram no The Nation and Literary Hub. Os seus poemas foram publicados em Poetry, The Nation, The New York Review of Books, Poem-a-Day da Academy of American Poets e Poetry Daily, entre outros.”
in: https://www.goodreads.com/book/show/59418414-things-you-may-find-hidden-in-my-ear (tradução minha-AGM)
Se eu tiver de morrer, de Refaat Alareer
Incluído em Se Eu Tiver de Morrer – Poesia de Resistência Palestiniana – Séc. XXI (ed. Traça, 2024):
Se eu tiver de morrer
tu tens de viver
para contar a minha história
para vender as minhas coisas
para comprar um pouco de pano e fios de barbante
(e seja branco com uma imensa cauda)
para que uma criança, algures em Gaza
olhos nos olhos com o céu
enquanto espera pelo pai partido em chamas —
sem se despedir de ninguém
nem sequer do seu corpo
nem sequer de si próprio —
ao vê-lo, o meu papagaio que tu fizeste, voando no alto
pense por instantes: ali está um anjo
devolvendo amor.
Se eu tiver de morrer
que isso traga a esperança
que seja uma história









Excelente pesquisa e oportuna divulgação para a “descoberta” da Palestina. A poesia também pode (e deve) funcionar para a tomada de consciência dos “distraídos e anestesiados” do nosso mundo.