Seleção de Júlio Mota, tradução de Francisco Tavares
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A diplomacia de Trump não trará a paz
Os falcões europeus estão a aumentar as tensões
Publicado por
em 13 de Fevereiro de 2025 (original aqui)

Então agora sabemos. Washington tem a intenção de se dissociar da Europa e de se reconectar com a Rússia. A posição dos Estados Unidos foi reafirmada ontem, em Bruxelas, pelo recém-nomeado Secretário de Defesa, Pete Hegseth, que estava lá principalmente para discutir o conflito na Ucrânia. Já conhecíamos as principais linhas: a adesão da Ucrânia à NATO é “irrealista”, disse ele, e a guerra “deve acabar” através da diplomacia. Kiev deve abandonar as aspirações de recuperar as fronteiras anteriores a 2014 — o que inclui a Crimeia — e preparar-se para um acordo negociado com a Rússia.
Mas a mensagem de Hegseth estendeu-se para lá da Ucrânia. “As duras realidades estratégicas impedem que os Estados Unidos da América se concentrem principalmente na segurança da Europa”, continuou ele, afirmando que as forças europeias devem assumir a responsabilidade de fornecer garantias de segurança do pós-guerra para a Ucrânia, descartando explicitamente o envolvimento das tropas dos EUA. Isto está alinhado com o esforço mais amplo de Trump para que os aliados da NATO aumentem os seus gastos com defesa. Ele esclareceu que essas tropas não seriam parte de uma missão liderada pela NATO e não seriam cobertas pela Garantia do artigo 5 da aliança, sublinhando o descomprometimento dos Estados Unidos dos assuntos de segurança europeus.
Embora essas declarações não tenham sido uma grande surpresa para os líderes europeus, dada a retórica anterior de Trump, elas reforçaram uma mudança fundamental na política dos EUA na Ucrânia, que prioriza a diplomacia sobre o envolvimento militar contínuo. Embora isso represente um afastamento bem-vindo da postura mais agressiva de Biden, o caminho para a paz continua repleto de obstáculos
Hegseth não delineou pormenores para um possível acordo de paz entre a Ucrânia e a Rússia. Mas, de acordo com uma versão divulgada do plano de paz proposto por Trump, relatado pelos media ucranianos, os territórios capturados pela Rússia seriam cedidos em troca de garantias de segurança. Esperar-se-ia que Kiev renuncie aos esforços militares e diplomáticos para recuperar terras perdidas e reconheça oficialmente a soberania russa sobre essas regiões.
Independentemente da veracidade deste plano, é claro que reflecte a principal condição da Rússia para a paz — algo de que Trump está plenamente consciente. O reconhecimento desta realidade geopolítica pela sua administração, juntamente com a improbabilidade de a Ucrânia recuperar esses territórios, sinaliza uma importante mudança para uma diplomacia realista. Reforçando ainda mais essa nova abordagem diplomática, Trump anunciou na Truth Social que realizou um telefonema “longo e altamente produtivo” com o presidente russo, Vladimir Putin. “Concordámos em trabalhar em conjunto, muito estreitamente, nomeadamente visitar a nação do outro… começaremos por chamar o Presidente Zelensky, da Ucrânia, para informá-lo da nossa conversa, algo que vou fazer agora”.
O restabelecimento do diálogo directo entre Washington e Moscovo é, sem dúvida, uma evolução positiva. No entanto, o maior risco a curto prazo é que Trump tente pressionar Putin a um cessar-fogo sem um quadro de paz totalmente desenvolvido. Isto está fadado ao fracasso.
Sabemos que Moscovo não se comprometerá com as suas principais exigências, que incluem a retirada total das suas ucranianas de quatro regiões ocupadas pela Rússia. Sabemos que o Vice-Ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergei Ryabkov, afirmou que qualquer ultimato dos EUA seria ineficaz e que qualquer negociação deve reconhecer a “realidade no terreno”.
Um grande problema aqui é a proposta de ter forças de manutenção da paz lideradas pela Europa na Ucrânia, que é quase certo que enfrentará forte resistência por parte de Moscovo. Independentemente de serem ou não filiadas na NATO, a Rússia vê-las-ia como uma força de representação da NATO – um cenário inaceitável. Como disse Anatol Lieven: “isso é tão inaceitável para o governo e o establishment russos quanto a adesão à NATO da própria Ucrânia. De facto, os russos não vêem diferença essencial entre as duas coisas”.
Outro fator complicador é que a dissociação da segurança dos Estados Unidos da Europa — a europeização da NATO — também corre o risco de se tornar um obstáculo à paz, na medida em que, paradoxalmente, encoraja uma postura mais agressiva dos principais líderes europeus.
Na União Europeia, surgiu uma influente coligação pró-guerra, impulsionada principalmente pela Polónia, Estónia e Lituânia. A nova Comissão Europeia colocou estes países em importantes posições de política externa e de defesa, consolidando ainda mais a sua influência. O primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, no seu discurso de posse como presidente do Conselho Europeu, declarou: “se a Europa quiser sobreviver, tem de estar armada”.
Da mesma forma, Kaja Kallas, a Alta Representante da UE para os Negócios Estrangeiros e a Política de segurança, insistiu que a Europa deve aumentar significativamente as suas despesas de defesa em resposta à retirada dos EUA, mantendo ao mesmo tempo a posição de que a Rússia deve ser derrotada a todo o custo. Entretanto, Andrius Kubilius, o novo Comissário Europeu para a Defesa, apelou a uma “abordagem tipo Big Bang” para aumentar a produção europeia de defesa.
Para além da UE, o Reino Unido tem uma posição igualmente beligerante e está a duplicar o seu apoio militar à Ucrânia. Em 16 de Janeiro, Starmer assinou uma parceria bilateral de defesa em Kiev, prometendo um adicional de 3 mil milhões de libras em ajuda militar anual, para além dos 12,8 mil milhões de libras já fornecidas. O Acordo também reafirma o apoio da Grã-Bretanha à adesão da Ucrânia à NATO.
O Secretário-Geral da NATO, Mark Rutte, fez eco destes sentimentos na quarta-feira, afirmando que “concorda” com Trump sobre a necessidade de “igualar a assistência de segurança à Ucrânia”, mas alertou que “para realmente mudar o curso do conflito, devemos fazer ainda mais”. As suas observações seguem declarações recentes defendendo que a NATO “adote uma mentalidade de guerra”.
Subjacente a este crescente aumento militar está a crença de que a Rússia representa uma ameaça existencial para a Europa, apesar de Moscovo não ter a capacidade e a intenção de atacar a NATO. O que pode ser considerado uma postura europeia em resposta ao descomprometimento dos EUA representa, na verdade, um obstáculo significativo à paz. Enquanto os líderes europeus continuarem a aumentar a escalada militar, as hipóteses de uma resolução diplomática para a guerra na Ucrânia diminuem.
O perigo real é que, ao prever persistentemente uma guerra inevitável com a Rússia e preparar-se para ela, a Europa possa, em última análise, concretizar essa mesma guerra. Diante de um rápido crescimento do acumular de armas europeias e de um sentimento anti-russo entrincheirado, Moscovo pode concluir que esperar deixa de ser uma opção. Se os membros europeus da NATO continuarem a aumentar as tensões, a Rússia poderá decidir atacar preventivamente, em vez de arriscar permitir que as capacidades militares da NATO atinjam um limiar crítico. Mesmo num cenário menos extremo, a postura cada vez mais agressiva da Europa é fundamentalmente incompatível com uma paz duradoura na Ucrânia.
Por outras palavras, embora a posição do governo Trump de afastamento da Europa e o impulso para a diplomacia possam parecer um passo em direção à desescalada, corre o risco de alcançar involuntariamente o oposto. Em vez de restringir as ambições militares da Europa, a retirada dos EUA está a encorajar os principais actores da UE e da NATO — particularmente na Europa Oriental — a prosseguir uma postura cada vez mais confrontadora em relação à Rússia.
A europeização da NATO, enquadrada como uma necessidade após a retirada dos EUA, acelerou a militarização do continente e a demonização da Rússia pelos seus líderes, perpetuando as próprias condições que causaram o conflito na Ucrânia em primeiro lugar. Em vez de usar este momento para se empenhar na diplomacia, os líderes europeus vêem a retirada dos EUA como uma razão para escalar militarmente. Nesse sentido, a dissociação de Washington da Europa está em desacordo com o objetivo declarado de Trump de alcançar a paz na Ucrânia.
A menos que a liderança europeia reconheça as preocupações de segurança da Rússia, as perspectivas de um acordo de longo prazo permanecerão sombrias-e o risco de uma guerra maior continuará a pairar sobre o continente. Ironicamente, a tentativa dos EUA de se distanciar dos assuntos de segurança europeus pode, em última análise, levá-lo de volta a um conflito ainda maior – sobre o qual terá muito menos controle.
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O autor: Thomas Fazi é escritor, jornalista e tradutor. É autor de The Battle for Europe: How na Elite Hijacked a Continent (Pluto, 2014) e co-autor com Bill Mitchell, de Reclaiming the State: a Progressive Visiono f Sovereignty for a Post-Neoliberal World (Pluto 2017). O seu último livro, em co-autoria com Toby Green, é “The Covid Consensus”.


