Nota de editor:
Este extraordinário texto de Júlio Mota, testemunho de uma vida, de uma sociedade, de circunstâncias que são já passado, está permanente e totalmente virado para o futuro, para uma sociedade com extraordinárias mutações, mas que será incompreensível se ignorarmos as suas raízes. E, infelizmente, não são apenas os jovens de hoje, muitos dos quais ignoram esse passado, são também instituições de elite como são as Universidades, são também os políticos e o poder político que minimizam quando não mesmo ignoram o passado (e querem mesmo apagar um passado recente libertador como foi o 25 de Abril de 1974) e o caminho percorrido de retrocesso que nos trouxe à situação atual. Situação que em diversos aspetos relembra misérias e perseguições que não queremos ver repetidas, uma situação que dá sinais de esgotamento do regime em que vivemos, sem que seja claro para onde queremos ir. Um tempo gramsciano, diremos.
E neste quadro de incerteza, e de potenciais perigos que se adivinham, neste quadro sombrio e distópico, grandes responsabilidades devem ser assacadas a uma esquerda, e também a uma direita, que se arrogam de anti extrema-direita, mas que na sua prática política enquanto detentores, por largo tempo, do poder muito têm contribuído para o surgimento e reforço dessa mesma extrema-direita. Em muitos dos textos publicados no nosso blog, nomeadamente de Júlio Mota ou por ele selecionados, se tem chamado a atenção para questões críticas que têm contribuído decisivamente para o estado de desorientação atual: redução do papel do estado social, com crescente privatização de serviços públicos essenciais, endeusamento dos mercados, enaltecimento desmesurado do indivíduo em desfavor do interesse coletivo, confusão entre direitos das minorias e direitos das maiorias, austeridade com crescente pobreza, crescente desigualdade da distribuição da riqueza, precarização do trabalho, tudo isto embrulhado em avalanches de informação, as mais das vezes manipulada, ou no mínimo enviesada, quer nas redes socais quer em canais públicos de informação.
Este texto do Júlio Mota, mais uma vez, tem a força e lucidez dos desafios que as suas reflexões sempre nos trazem e, como um seu amigo nos diz, tem “a mesma paixão pela (des)ordem do tempo que vivemos”.
Apesar de muito entusiasmante a leitura integral do texto, dada a sua notável extensão optámos por publicá-lo em oito partes – hoje a segunda -, seguindo a própria estrutura.
FT
30 min de leitura
Hoje faço 82 anos: um olhar para o que fui e para algumas das minhas circunstâncias (2/8)
A sociedade portuguesa em análise e na primeira pessoa
Coimbra, 20 de fevereiro de 2025
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Dedico esta peça a José Veiga Torres, João Cravinho, Boaventura Sousa Santos e a um antigo aluno meu cujo nome não sei, por fazerem parte desta história. A todos o meu reconhecimento. JMota |
ÍNDICE
1ª PARTE – Introdução
2ª PARTE – Da infância à adolescência e ao jovem adulto
3ª PARTE – De operário a universitário, de adolescente a jovem adulto e a aluno do ISCEF
4ª PARTE – Histórias de guerra e de amor ao país
5ª PARTE – Do cristianismo ao Marxismo – a passagem à idade adulta
6ª PARTE – De jovem adulto a professor no ISCEF e na FEUC
7ª PARTE – A degradação atual do ensino, um espelho da evolução do país, um espelho da degradação do espírito de abril
8ª PARTE – A ascensão da mediocridade às Universidades e ao poder político
ANEXOS
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(continuação)
2ª PARTE – Da infância à adolescência e ao jovem adulto
Como se sabe, o homem é também fruto das circunstâncias (Marx, em 18 de Brumário, Marx, em tese 3 sobre Feurbach) ou, como diz Ortega y Gasset interrogando-se, que serei eu sem as minhas circunstâncias? É nestas circunstâncias que estarão, do meu ponto de vista, as razões pelas quais não me doutorei. E, como circunstâncias que são, elas abarcam os longos anos do fascismo e os 50 anos de liberdade democrática formal que se seguiram à queda do fascismo.
A explicação será assim longa e tentarei fazê-la abarcando estes dois períodos da nossa história social, política, económica, mesmo que em traços gerais, através de escritos meus publicados ao longo destes anos e pouco mais do que isso. Trata-se de textos que foram escritos completamente fora deste contexto e isto para não se dizer que eu estou a fabricar a história para levar a água ao que podem supor ser o meu moinho. Desta forma minimizo a eventual distorção de que nos fala Gabriel Garcia Márquez quando nos diz: A vida não é a que se viveu, mas a que se recorda e como se recorda para a contar.
Se o conseguir fazer terei assim uma explicação procurada em quatro etapas da minha vida:
- A minha infância no Fratel
- A minha adolescência vivida com um livro de fiados na mão percorrendo as ruas da pobreza de Lisboa e a conclusão do secundário já como operário e tuberculoso
- De aluno a professor do ISCEF – um olhar sobre a queda do fascismo
- De professor do ISCEF à minha longa permanência na velha FEUC
Recebido o email do meu amigo Boaventura Sousa Santos, pensei construir a resposta longa na linha dos quatro temas acima expostos. Como para este tipo de exposição me faltava um texto fundamental na recriação desta história em que explico as minhas ligações com a editora Terramar e no âmbito das atividades escolares na velha FEUC, para se ver a importância que enquanto docente se teve no movimento editorial português em termos de textos de qualidade em economia, optei por uma resposta em versão curta sobre estes mesmos temas, dizendo que “ficará para outra oportunidade refazer e alongar este texto, talvez mesmo depois de ter feito 82 anos, se tiver disposição para tal.” Esse mais tarde, chegou mesmo, mas sem o texto de referência relativo às relações com a editora Terramar, porque o não encontrei.
Assinalemos aqui apenas alguns pontos de referência.
- Período da infância (a minha infância no Fratel)
– Filho de camponeses sem terras e analfabetos.
– Aos 9-10 anos um casal abastado da minha terra, à saída de um ato religioso, no adro da igreja, oferece-se para me pagar os estudos no seminário. Recusei com o argumento de criança: quero casar e ter filhos. Obrigado, mas não aceito. Toda a gente se riu.
– Sou impossibilitado de fazer a admissão ao liceu, por exigências do pagamento de 1500$00 na época (em 1953-1954 correspondia a cerca de 3-4 meses de trabalho do meu pai se tivesse trabalho todos os dias úteis). Fazer a admissão era, naquela altura, a condição necessária, mas não suficiente para poder estudar.
– Saída da escola primária, com 11 anos. Vou trabalhar para uma microempresa, de serração, moagem e padaria. Fico encarregado da “escrita” dos fluxos de cereais entrados e saídos, que eram controlados a partir de Lisboa, pela Comissão Reguladora das Moagens em Rama, sendo a autenticação desses registos feita mensalmente em Castelo Branco, onde me deslocava expressamente para este efeito.
– Escrevo ao ministro da Educação protestando contra a exigência da professora (os 1500$00), o que dá origem a um processo em forma que decorreu na sede do concelho, Vila Velha de Ródão.
Não deixará de ser conveniente dar uma ideia sobre como é que o destino de muitas crianças deste país ficava marcado desde a sua infância.
Em junho deste ano fiz um texto intitulado “Carta aberta aos jovens de agora sobre a vida difícil dos jovens de outrora – Imagens dos anos 50-60 sobre uma geração, a minha, uma aldeia, Fratel, um país, Portugal, num tempo que não se quer voltar a viver, nunca mais, onde explicava como era ser criança em Fratel nos anos 50, princípio dos anos 60. Nesse texto dizia:
“Hoje, os que restam desta geração serão na sua maioria avós, muitos deles com marcas no corpo e na alma por aqueles tempos extraordinariamente difíceis. O destino de muitos de nós era fixado naquela idade tanto pelas condições socioeconómicas dos pais, como pelas condições escolares da primária, que balizam os projetos futuros. Viver no Fratel, com a escola perto, não era a mesma coisa que viver nos Montes de Baixo ou de Cima, povoados da freguesia de Fratel, alguns a cinco quilómetros de Fratel. Não era nada a mesma coisa: implicava que cada criança andasse a pé quilómetros (5+5) por dia, fizesse chuva, fizesse sol ou fizesse vento. Esta situação complica, e muito mais, as condições de crescimento de muitas das jovens crianças que viveram naquela década.
Fratel era sede de freguesia de um conjunto de aldeias e povoados, que incluíam Gardete, Riscada, Juncal, Silveira e Vermum, no sentido de Lisboa, e Peroledo, Vilar de Boi, Perdigão, Vale da Bezerra, Vale da Figueira, Marmelal, Vilas Ruivas, no sentido de Castelo Branco, e não esquecendo também o povoado de nome Carepa, que fica ao lado, no sentido oeste. Eram quilómetros que diariamente tinham de ser percorridos, desde Gardete a Fratel, desde Vilas Ruivas a Fratel, etc. Destes alunos ainda me lembro do Fernando de Gardete, do Manuel de Vilas Ruivas, do filho do senhor Dias, um descarregador da Estação de comboios de Fratel. Este menino diariamente tinha de fazer diariamente 10 quilómetros, 5 a subir e 5 a descer.
(…)
Imagine-se a falta de alegria de muitos destes meninos de 9-10 anos sujeitos a esta quilometragem, mas mais, imagine-se como teriam disponibilidade para fazer, para organizar, já cansados de tanto andar, os seus trabalhos de casa, sendo certo que pelo lado dos pais não poderiam contar com nenhuma ajuda, uma vez que a maioria deles não sabia ler nem escrever, tal como os meus, aliás. Eram, pois, diariamente percorridos quilómetros e quilómetros de ida e volta da escola, seja ao frio, ao vento, à chuva, ao calor, conforme a estação. Em que condições estariam todos estes meninos no final de um dia de escola para poderem minimamente estudar e realizar os ditos trabalhos de casa? Fácil de calcular. Imagine-se como seria baixo o nível de criatividade para escrever como trabalho de casa o que se chamava então uma redação, e todos nós sabemos a importância deste tipo de trabalhos de casa, naquelas idades!
Este era o carimbo da vida de gente ainda tão pequena para ficar com o destino já assim marcado, estreitamente balizado. Adicionemos-lhe a questão do exame de admissão, para aqueles que depois desta maratona de resistência ainda o desejavam fazer e o poderiam fazer. Não será difícil concluir: o destino de todos aqueles meninos estava previamente determinado, selado, continuariam em geral a ser ignorantes das coisas das letras mesmo que viessem a ser nada ignorantes nas coisas da vida. A maioria dos meninos da minha idade não poderia passar daqui e, mesmo aqui, a que custo para aqueles que viviam no Fratel! A compor este ramalhete de inconvenientes graves para quem tem aquela idade, adicionemos-lhe a falta de uma adequada alimentação: nada substitui uma refeição de faca e garfo, nada substitui por fim a boa peça de fruta.”
Para termos uma noção das condições de vida daquele tempo e numa aldeia como a nossa, deixo-vos um exemplo: a um colega meu, o J.C., os irmãos mais velhos, a viverem em Lisboa, pagaram-lhe a admissão ao liceu. No dia do exame não tinha roupa de jeito para ir a Castelo Branco. Teve sorte, meses antes eu tive problemas de vista. Tinha dores de cabeça. O meu pai não fez a coisa por menos, levou-me a um médico famoso em Santarém, de nome mais ou menos parecido com PUIG. Aqui houve o mesmo problema com que se debateu o J.C. meses depois: não tinha roupa decente para ir a Santarém ao oftalmologista. O meu pai mandou-me fazer um fatinho no alfaiate que morava junto do António Regedor, alfaiate esse de alcunha o Mudo. Foi com esse fatinho que o J.C. pode ir fazer a admissão ao liceu. Foi para Lisboa, cresceu, estudou, e mais tarde foi comandante das Forças Armadas. Hoje, já não vive entre nós, se não me engano.
Um outro exemplo. Certo dia, estava eu, a minha mulher e um casal amigo a almoçar em Alpalhão. Levanta-se um homem e dirige-se a mim e pergunta-me: está a ver quem sou? Sim, és filho do Manel V das Casas do Meio. Sim, sou o Júlio. Olhe, nunca tive oportunidade de lhe dizer o que lhe vou dizer. Não o fiz quando o devia e a quem mais diretamente o devia, mas era pequeno. Agora posso e digo-lhe a si, uma vez que os seus pais já morreram há anos. Quero agradecer-lhe, pela ajuda que os seus deram aos meus, quero agradecer-lhe pela fome que nos mataram.
Eram assim aqueles tempos da minha infância, não muito diferentes dos tempos do Gineto de Soeiro Gomes.
- A minha adolescência vivida com um livro de fiados na mão percorrendo as ruas da pobreza de Lisboa e a conclusão do secundário já como operário e tuberculoso
Vou como marçano para Lisboa com 12 anos. Haveria de estudar, era esse o objetivo. Sabia de alguém que a trabalhar tinha tirado um curso superior. Haveria também de o conseguir. Deambulei por Lisboa e por diversas mercearias. Soube bem o que era a tristeza de muita daquela gente de viverem a fiado. O livro de fiados, era um livro onde escrevia diariamente as dívidas contraídas pelos clientes, deixem-me ser polido, onde se escreviam diariamente os créditos concedidos. Nele, eu escrevia a pobreza dos outros e a partir da minha, igualmente, daí o sentimento gerado mesmo com aquela idade, 13-14 anos. Mas esse livro era mais do que um livro de fiados, era também o livro onde igualmente se escrevia a pobreza deste país, da sua grande cidade, dos seus muitos sem-nada que com essa mesma pobreza que nesses livros se escrevia sustentavam o sistema, como o sustentavam também os camponeses que lavravam os campos deste país e que dinheiro não tinham sequer para pagar aos filhos o ticket de acesso mais tarde aos estudos para lá da primária: a admissão ao liceu, confinando-os ao perímetro da terra onde nasciam. E, dessa forma aparentemente indolor, o sistema podia controlar relativamente bem os fluxos migratórios internos, os fluxos do campo para a cidade. Nesta matéria de vida em dificuldades veja-se também a vida difícil de uma pequena burguesia urbana que o sistema espalmava até à medula e para a qual precisava que os preços dos bens alimentares estivessem controlados. (veja-se anexo 1).
Naquela época, sobretudo no bairro da Madragoa, por volta de 1956-57 percebi, de forma muito difusa, mas sentidamente, que o livro de fiados era ainda outra coisa: era a penúltima linha de suporte social, utilizada quando o dinheiro faltava e a assistência social não havia, enquanto a última linha, a de quase rutura, era já a casa de penhores, onde muitas das coisas aí depositadas como garantia do empréstimo levantado não voltavam mais. Entre elas, vi algumas alianças de casamento isoladas a serem vendida em hasta pública, em leilão, como cheguei a ver um par de alianças a serem vendidas em conjunto no leilão. O que terá estado por detrás deste par de alianças pode não ter sido muito diferente do que encontrei em 2012, à saída de uma caixa do Pingo Doce em Celas, Coimbra: vejo uma conhecida minha, empregada de balcão numa loja de roupa de senhora de gama média.-alta estava a sair do corredor da caixa radiante e eu estou a chegar ao supermercado. Estava tão radiante que lhe perguntei: tão feliz, o que é que se passa? Resposta: levo aqui duas postas de salmão para os meus filhos. Eles gostam tanto! Mostra-me o saco e exclamação minha: e a terceira posta? Ah, eu não gosto de salmão, retorquiu. E com a crise da dívida publica o ouro dela seguiu o mesmo destino que este par de alianças por volta de 1960: foi vendido como ouro de segunda mão para responder a necessidades de urgência. A diferença está no local de venda: o primeiro foi vendido na casa de penhores, o dela foi vendido numa das múltiplas lojas que com a crise repentinamente se instalaram a comprar e vender ouro. Tempo da Troika, com Passos Coelho a querer ir mais longe que a Troika, e tempo de fascismo, cerca de cinquenta anos de diferença entre eles e muitos pontos em comum entre os quais a mesma ideia a ser vendida: impunham a austeridade para salvar o país.
A venda em saldo do que era a materialização da pobreza foi o que vi, já no final dos anos 50, numa casa de penhores situada ao fundo da Avenida da República, já a chegar ao Campo Grande, onde comprei um rádio Schaub-Lorenz de qualidade para o meu pai ouvir a BBC com um copo de água em cima do rádio [10]. Mesmo no Fratel, todos os cuidados eram poucos. O leilão da casa de penhores era, pois, o fim de linha para muitos dos precários de então e o mais provável dos seus parcos haveres nessas casas depositados como colateral, como garantia, era serem expostos em leilão, como sinais da pobreza declarada.
O livro de fiados era, pois, uma almofada de solidariedade onde os d’en bas de então se repousavam das dores da vida, e eu sentia-o quando me diziam, com algum sentimento de vergonha, com algum embargo na voz, para pôr na conta. Não percebia, sinceramente, a razão de ser dessa vergonha, sabia-o, sabia que se nasce pobre por situação social de quem nos gera e, naturalmente, nunca se é pobre por condição natural. E, então, não se é pobre por opção, na maioria das vezes é-se pobre por destino, marcado pela situação dos outros quando ainda se estava no ventre da mãe e confirmado depois pelas condições de vida em que se cresce na infância, ou seja, sempre por situação e nunca por condição.
Encarado desta forma, o pequeno merceeiro, era também um amortecedor de choques económicos externos e cumpria uma outra função social com o seu microcrédito concedido. Ainda me lembro de um estivador, João Lisboa de nome, o estivador para mim, um homem casado na casa dos 35-40 anos, cuja conta na mercearia diminuía ou aumentava consoante desembarcavam ou não barcos no porto de Lisboa, mas pagou sempre. Isto passava-se na Madragoa, na rua das Madres. De quando não tinha trabalho ainda me lembro da sua tristeza chapada na cara e, quem sabe, talvez na sua alma também. Quando não tinha trabalho passava algum tempo na mercearia e, apesar de viver quase em frente, parecia um miúdo perdido numa rotunda sem placas de orientação, como se não tivesse sequer para onde ir para poder consumir o tempo de espera por um trabalho possível e bem desejável amanhã. Ir para onde, se isso requeria dinheiro que não tinha? Bolas para isto, estava bem pior que eu, pensava eu naqueles duros e tristes tempos da minha adolescência em meados dos anos de 50. Aprendi bem mais tarde, com Marx, a sintetizar esta situação quando consegui perceber que no capitalismo a única coisa pior que há de pior do que ser explorado é não ser explorado. Era ali o caso, quando não tinha trabalho porque atrás desse não-trabalho e por causa dele, por um ou outro rumor que ouvi a partir dele próprio e que não entendi bem na altura, os meus 13 anos não davam para mais, talvez até receasse que a sua companheira não aguentasse a precariedade que ele lhe oferecia como modo de vida e saltasse do seu caminho. Pelo pouco que sabia dela e pelo que vi enquanto lá trabalhei, para mim eram apenas uma outra forma de medo nele, gerada na sua cabeça pelo drama da precariedade pela vida imposta. Ainda hoje, quando me lembro disto, fico angustiado. Neste caso, Sartre não tinha razão na sua peça Huit-Clos: o inferno não é o outro, como afirma, mas sim o medo de perder o outro!
O pequeno merceeiro fazia também parte da rede invisível de fios com que o tecido social é fabricado e com que se faz de uma soma de indivíduos uma sociedade, espalmado ele, por um lado, pelos preços dos grossistas e pelos juros da banca, e por outro lado, espalmado tanto pelas multas que nunca faltavam estabelecidos pelos fiscais [11], bastava o vento deslocar um letreiro para isso ser possível de multa, como espalmado pelos calotes que os que chegavam ao fim-de-linha não podiam liquidar. Uns e outros, clientes e pequenos merceeiros, eram entre si então tão solidários quanto o eram os pequenos agricultores, os intermediários, como o meu pai, e os peleiros do mundo rural de que falaremos mais à frente. Um problema de aliança de classes com as suas especificidades próprias que a esquerda não soube ou não pode tratar.
Como contraponto a este manto de solidariedades, podemos definir o neoliberalismo destas últimas décadas, sob a capa da esquerda neoliberal, o PS, ou de direita pura e dura, a AD de agora, como o conjunto de “instrumentos de corte” com que se desfaz esse mesmo tecido social, para se poder afirmar como Thatcher: Não Há Alternativa. E o que estamos a assistir em Portugal neste momento é à destruição dos últimos farrapos do tecido social completamente novo com que Portugal se revestiu em abril de 1974.
Com 15-16 anos vou trabalhar para a zona da Rua e da Praceta Afonso Lopes Vieira em Lisboa, junto à Avenida do Brasil, uma zona onde a pobreza era bem menos abundante. A classe social aí dominante era a pequena burguesia, munida de curso superior e comodamente instalada na vida. Aí fui extremamente protegido pelos meus clientes. Dois deles deram-me autorização para ir comer a sua casa sempre que não gostasse da comida que me era dada pelo patrão e um desses clientes era sempre bem preciso: venha pela porta da frente, não pela escada de serviço. Um outro cliente emprestava-me de vez em quando um livro para ler e depois ir conversar sobre ele a sua casa. Foi aqui que me cruzei com muitos dos estudantes que mais tarde foram figuras importantes no Movimento Associativo Estudantil, que muito me ajudaram a criar o sentimento de bulimia cultural com que vivi durante décadas e talvez ainda viva hoje.
Ainda aqui, com um outro casal criou-se uma relação mais curiosa. Tinham um filho que andava no liceu Charles Lepierre ao nível do nosso segundo ano de liceu. As minhas relações com o casal eram muito cordiais. Fiquei a conhecer o filho, neto do pintor Armando Lucena, pela parte da mãe. Motivado por toda essa gente que me acarinhava tentei fazer o exame do ciclo – na altura chamava-se o segundo ano do liceu. No final desse ano letivo, estaríamos em 1960, creio, o filho explicava-me as minhas dúvidas de francês e eu tirava-lhe as dúvidas de matemática.
Não me foi autorizada a inscrição para exame. Tinha menos de 18 anos e não tinha feito a admissão ao liceu. Tinha de ser proposto por alguém externo. Aí deparei-me com um problema grave: um problema de liquidez. Era preciso inscrever-me numa escola, era preciso ter dinheiro para a pagar. Ser marçano não dava. Empreguei-me numa fábrica, a fábrica Monsanto, na rua Centro Cultural, nº 5, onde ganhava 24 escudos por dia, 8 horas de trabalho por dia. Mais tarde, passei a empregado de escritório, com uma remuneração levemente melhor.
Inscrevi-me numa escola e fiz no ano seguinte, em 1961, o segundo ano do liceu. Inscrevi-me para fazer o 3º, 4º e 5º ano no ano seguinte. Este ciclo estava dividido, para efeitos letivos, em duas secções: letras e ciências, que eram lecionadas em dias alternados. No dia em que as aulas eram de letras, ia apenas às aulas de inglês. No dia em que eram de ciências ia sobretudo às aulas de desenho, pouco mais que isso.
Porquê assim? Para já, estava a pagar o direito de ser inscrito a exame, pois a experiência em 1960 foi muito amarga, fartei-me de chorar. Depois precisava de tempo para estudar e… vejamos: morava no Rego, nas costas do Hospital de Santa Maria. Com chuva, ou com sol, percorria a pé a distância para a fábrica, situada junto à Avenida da Igreja, onde entrava às 8 horas menos 10 min e saía às 17 horas.
Saía da fábrica com os livros e ia estudar para o café, normalmente para o Nova Iorque, ou o Tatu. Depois de jantar ia à escola no Campo Pequeno, a uma ou outra disciplina, e a seguir dirigia-me para o café Nova Iorque. Aí ficava até perto da meia-noite. Dava explicações aos meus colegas com quem estudava em conjunto. Gratuitamente, claro. No fundo, mantinha bem presente a mensagem de Cristo aprendida em Fratel mesmo que tenha perdido Deus enquanto marçano. Sublinho este pormenor aparentemente sem sentido, mas tem muito. Marca o peso que tem a educação de cada criança na sua vida de adulto [12].
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Com este texto já escrito leio no jornal Público de 7 de fevereiro um artigo de António Guerreiro com o título A educação ideológica – o mundo que se conta a partir do que se diz, onde se expressa uma posição muito semelhante à que aqui assumi neste meu texto. Pela importância do tema considerei oportuno introduzir esta caixa com um excerto de António Guerreiro sobre a questão que assume a educação de jovem na formação do adulto. Diz-nos António Guerreiro: “A escola pública e os programas de educação estão no centro de uma batalha feroz por parte da extrema-direita para normalizar as suas ideias extremistas. De acordo com um estudo publicado pela revista científica Arquivos Analíticos de Políticas Educativas , existe atualmente “uma agenda política comum- embora com nuances- que dá forma a uma Internacional da Educação de extrema-direita. Mesmo que a mesma não tenha uma estrutura orgânica ou funcional relaciona-se sob a ideia comum de que “ a escola é um espaço crucial através do qual se pode moldar a mentalidade da população” Em nada diferimos salvo que Guerreiro coloca esta posição na extrema-direita atual e eu falo dos tempos do fascismo. Não posso deixar de referir que a realidade atual, a que Guerreiro se refere, começa a ser semelhante à que a eu descrevo para os tempos do fascismo, o que é grave, muito grave, pois significa que um pilar fundamental da Democracia está a ser transformado de forma radical e a começar a ser um pilar da extrema-direita, ou seja, do fascismo. Pessoalmente, considero que a situação denunciada por António Guerreiro é o resultado final das políticas de centro-direita, AD, e do centro, PS, que durante décadas tudo fizeram para que a estrutura do ensino se transformasse numa enorme fábrica de produção de cretinos digitais onde poderão abundar muitos diplomados em ignorância. O centro-direita e o centro políticos procuraram esvaziar as cabeças das nossas crianças e a extrema-direita, à sua maneira, quer agora ocupar o vazio mental gerado. E aí está o resultado: a política dos centristas, PS e AD, foi um sucesso com o elevado nível alcançado de degradação [13] do ensino, tornando ainda mais fácil o sucesso da extrema-direita atual. A enorme presença da juventude nos votos do Chega e da Iniciativa Liberal mostram-no. Daqui a uma década o resultado desta evolução pode pura e simplesmente ser monstruoso. Deste perigo avisa-nos Henry Farrel no artigo intitulado “Estamos a perceber a crise dos media sociais de forma errada (original aqui) -O maior problema não é a desinformação. É a degradação dos públicos democráticos” onde nos diz: “Se quisermos trabalhar para um melhor sistema de democracia, que seja mais estável e que responda melhor às necessidades e desejos das pessoas, como é que o fazemos? É fácil (penso eu pessoalmente, mas também sou parcial) ver o que está errado com o público no X/Twitter. É mais difícil pensar claramente sobre o que seria um público saudável, quanto mais como construir um público diferente” . Evidentemente a públicos degradados em termos democráticos corresponderá uma classe política igualmente degradada, o que é visível em qualquer dos países considerados democráticos. Olhe-se para países como Portugal, Itália, Holanda, Alemanha, Inglaterra, USA, etc. . No caso português, esperemos agora com Pedro Nuno Santos, que os militantes do Largo do Rato entendam bem Henry Farrel. O certo é que até aqui os militantes do Largo do Rato não o entenderam, entendê-lo-iam muito bem os ocupantes da Capela do Rato de outrora, alguns deles meus colegas de Faculdade (sobre as marcas da educação da infância na vida futura da criança veja-se anexo 2). |
O texto de António Guerreiro assinala bem o peso que tem a educação de criança na vida de um adulto. A Igreja percebeu-o bem, com as suas aulas de catequeses, com os suas homilias, com os seus sermões especiais em dias de festa. O fascismo também o percebeu com a criação da Mocidade Portuguesa, mas a esquerda, essa não o percebeu. Acabou com esta instituição após o 25 de Abril, não a substituiu por nada, e é pena. O conjunto de atividades que nela se desenvolviam, eram o pretexto para um objetivo, a ideologia fascista injetada na juventude. Destrua-se o objetivo inicial, elimine-se a injeção da ideologia, faça-se do pretexto o próprio texto e teríamos uma Instituição de grande interesse nacional. Quanto à ideologia injetada, esta é bem patente na carta que escrevo ao Ministro. Não é por acaso que quando escrevo ao ministro da Educação, Fernando Pires de Lima, com 11 anos, em protesto contra o que se estava a fazer na minha escola primária, o fazia em nome da Justiça, em nome de um Estado justo, o Estado fascista, e enquanto Estado justo, o que se estava a exigir aos filhos de gente pobre não poderia ser consentido! Era esta ideologia que teria de ser retirada daquela Instituição, mantendo tudo o resto, e era simples fazê-lo [14].
A Igreja volta a mostrá-lo com os Escuteiros, uma verdadeira escola de sociabilidade, mas que é também, lamentavelmente, uma escola de religiosidade. Apesar disso, consciente da necessidade de intensificar a rede de sociabilidade da minha neta mais velha, a querer contrariar o facto de que a cidade cria sobretudo indivíduos solitários e não solidários, sem qualquer noção de grupo. tentei colocá-la nos Escuteiros, não o consegui, e não o consegui por uma razão bem simples, porque não estava batizada! Aí, nem ela nem eu cedemos. A alternativa, era o vazio, porque a Democracia se esquecia de tratar dos seus filhos. Ainda hoje, no plano nacional, a situação é a mesma. O custo dessa nossa opção foi ter sempre nas mãos o problema da ocupação dos tempos livres, nomeadamente em férias grandes, ano após ano, uma vez que o Estado democrático, e a Esquerda que o sustentava, abandonou essa importante questão ao livre sabor dos mercados ou ao peso da religiosidade na cabeça dos nossos pequenos jovens. A partir daqui, penso que se percebe o ressentimento de David Lloyd Dusenbury quando, referindo-se à importância da morte de Cristo nas nossas cabeças, nos diz,
“Se Karl Marx & Co. se tivessem lembrado disto, talvez soubessem que o comunismo de luxo totalmente libertado a nível mundial nunca esteve na ordem dia. E se Francis Fukuyama & Co. se tivessem lembrado disto, talvez não se tivessem deixado levar pelo sonho febril tardo-liberal do fim da História”.
Como se faz de uma criança um adolescente, de um adolescente um jovem adulto e de um jovem adulto um adulto de corpo inteiro não é redutível à questão da luta de classes, e isso a esquerda deveria sabê-lo e bem, mas ao longo destas décadas ignorou-o.
É, pois, como jovem adulto que tomo contacto com o aparelho repressivo do fascismo, no ano de 1961 ou 1962, com a inauguração do edifício central da Universidade de Lisboa, onde está sediada a Reitoria da clássica. Este contacto passa-se no ano em que fiz o segundo ano do ensino secundário (hoje segundo ciclo do ensino obrigatório).
Nesta época, década de sessenta, talvez entre 1961 e 1963, já não sei precisar melhor, deu-se a inauguração do edifício da reitoria da Universidade Clássica. A inauguração foi de pompa e circunstância com a presença do corpo diplomático e dos altos dignitários do Governo português. Os estudantes tinham decidido um boicote à inauguração do edifício. Medicina não honrou o seu compromisso e o Presidente da Associação da Faculdade de Medicina aceitou falar na inauguração. As restantes associações mobilizaram os estudantes para uma manifestação em frente ao edifício. Fizeram-na e eu estive presente, mas não era estudante universitário, era operário, o que, do ponto de vista político, tornava tudo bem diferente: aplica-se aqui a já famosa citação de Orwell: somos todos iguais, mas uns mais do que os outros. Os outros eram mais iguais que eu.
Eu era um dos estudantes que estavam na fila sentados no chão, com alguns deles, entre os quais eu, a segurarem a bandeira que o ministro da Educação, ao entrar pela pequena rampa lateral à esquerda do edifício haveria ou não de pisar. Quando se quis desmobilizar estávamos todos cercados pela PIDE, exigindo a identificação de cada um dos manifestantes.
Nessa noite fui ao café Tatu e ninguém me reconheceu. Para todos os que eram meus amigos de ontem, eu era hoje um desconhecido e eu conhecia um a um dos que não me conheciam agora. Que queria eu? Queria uma coisa muito simples: queria saber como me comportar na PIDE. Teria entre 18 a 20 anos. Desloco-me ao café Nova Iorque e aí verifica-se a mesma coisa. Ninguém me reconhece.
Saio do café. Cá fora a noite era escura, mas por dentro de mim era bem mais escura. Vou para casa, percorro a que é hoje a Avenida das Forças Armadas e sigo para a rua Portugal Durão, onde vivia. Dormi, não dormi, não me lembro. Sabia que no dia seguinte seria preso e assim foi.
Na tarde do dia seguinte dois Pides apresentam-se na fábrica Monsanto. O porteiro, o velho senhor Sepúlveda, vai-me chamar às prensas de borracha cheio de medo e diz-me; vêm aí dois senhores que são da inspeção da Caixa de Previdência. Dizes que só trabalhas 3 dias por semana, não te esqueças. Esteja descansado, não são da Caixa, são da PIDE, respondi ao velhote meu amigo e que estava em pânico. Entretanto, os senhores da Caixa de Previdência tinham subido as escadas de acesso ao primeiro andar e estavam já ao pé de mim. Terá circulado algum rumor no interior da fábrica porque, entretanto, chegou o meu patrão, Samuel Ramiro Sequeira. Depois de se terem identificado e dito ao que vinham, o meu patrão diz-lhes com um tom de extremamente zangado: estão-me a levar o meu melhor empregado. Podia ser verdade, podia ser mentira, é o que foi dito.
Estou sujo, vou tomar banho e mudar de roupa. Sou acompanhado pelos senhores da Caixa de Previdência ao balneário. O perigoso comunista que eu seria poderia escapar por alguma das outras saídas da fábrica e estas eram duas, terão eles pensado.
Depois abandonámos a fábrica, fomos de autocarro. Fiz-me o mais tolo que me era possível, a minha saída da situação seria fazer-me passar por voyeur a ver os estudantes a manifestarem-se, eu que era um simples operário. Da viagem até à Rua Maria António Cardoso lembro-me ainda de uma estranha pergunta. Vejo um carro com matrícula de diplomata, matrícula a vermelho, e pergunto com um ar de incrédulo se aquele carro não teria sido um carro roubado no estrangeiro uma vez que a matrícula dele não era como as dos nossos carros. A pergunta era descabida, os tipos ficaram meio desnorteados com a pergunta e pacientemente explicaram-me, como se eu fosse um atrasado mental.
Chegados à Pide, sou colocado numa sala de espera. Esta estava cheia de estudantes e muitos deles eram estudantes que na noite anterior estavam no café Tatu ou no Nova Iorque, e o comportamento aqui foi o mesmo que se viu na noite anterior. Estranhamente ninguém conhecia ninguém. O medo estava instalado, este constituía um verdadeiro muro entre uns e outros. No fundo, cada um de nós não falava com o outro porque todos os mecanismos de confiança tinham-se esfumado: haveria sempre o perigo do outro com quem se falava ser um perigoso comunista e faria aos olhos da PIDE com que cada um de nós o fosse também. A grande arma do fascismo era isso mesmo: a criação de muros de isolamento entre as pessoas, era esmagar-lhes o sentido de fraternidade, de sociedade: cada cidadão estava entregue a si próprio, a desconfiar do seu vizinho ou amigo, se queria salvar a pele. Impressionante!
No interrogatório ainda me lembro de ter passado por ser um jovem religioso, ia à missa todos os domingos na Igreja do Campo Grande, isto tinha sido verdade quando era marçano e crente, que era amigo das freiras do lar de meninas estudantes da Praceta Afonso Lopes Vieira, o que também tinha sido verdade, anos atrás quando marçano. Saí na manhã do dia seguinte; fui considerado um inocente voyeurista. Para susto chegou. Mas hoje reconheço que este medo seria irracional, porque não havia nenhuma ligação partidária, mas havia sempre a hipótese da irracionalidade repressiva do outro lado.
A seguir fiz o 3º, 4º e 5º anos num ano, mas paguei um preço elevado. Apanhei uma gripe e, de receita médica em receita médica, chegou-se à conclusão de que se tratava de uma tosse nervosa. Antes de se chegar aí, fiquei com baixa médica. Não ia às aulas. Iam os meus colegas a minha casa estudar comigo. Por vezes isto rondava o patético quando se tratava de matemática: eu estava de cama ditavam-me o problema, eu olhava para o teto, pensava no ar a solução da equação, escrevia a resolução com o dedo no ar e ditava-a depois. Eram tempos difíceis, muito difíceis, mas de uma fraternidade sem limites.
Dada a hipótese de tosse nervosa, salvou-me a minha costela racionalista: se é um problema de origem nervosa então vou ao psiquiatra. Decidi ir a um psiquiatra ao Santa Maria e a pedido de um primo meu fui visto pelo médico José Simões da Fonseca, de quem fiquei amigo. Ele diz-me: anda comigo, vou-te mostrar a tua tosse nervosa. Levou-me aos Raios X do Hospital de Santa Maria, faz-se um raio X e bom… a tosse nervosa era uma caverna no pulmão. Tratou-se rapidamente do meu internamento via Hospital Pulido Valente. Fui para o Caramulo poucos dias depois. Ainda me lembro desse dia, na estação de Santa Apolónia, do céu azul cheio de farrapos de nuvens brancas, ainda me lembro do peso da solidão que senti.
Do Caramulo voltei para o Fratel, agora doente em recuperação. Aí, sozinho, comecei a preparar o sétimo ano, agora em dois anos. Tinha optado pela alínea F, queria ir para Medicina. Num ano fiz Filosofia, Matemática e Administração Política e Administrativa. Sem explicações de ninguém, não foi nada fácil. Não sei como, lembro que estamos em 1963, ainda consegui contactar o professor Palma Fernandes que por escrito me tirou algumas dúvidas e ofereceu-me alguns livros e textos de palestras suas! No ano seguinte, ainda a viver na minha aldeia, em recuperação da tuberculose, preparei as restantes disciplinas com um detalhe bem curioso – na parte final fui para Lisboa, onde por autorização do reitor do liceu Camões, um conterrâneo meu, tive acesso aos laboratórios do liceu, ensinado por dois contínuos!
Queria ir para Medicina, queria ajudar os doentes pobres como o meu pai que foi vítima de doença profissional: silicose. Naquele tempo, tempo de fascismo, creio que não havia nenhum apoio especial para quem caía doente numa aldeia. Nem sei se havia registo dele como empregado. Estávamos na década de 1950 e numa aldeia.
Eu era um jovem, como jovem era de imaginação fértil, continuava a ser cristão, como cristão estava bem agarrado à mensagem de Cristo. Tinha garantido pelo Instituto de Apoio à família uma bolsa. Veio o vulcão dos Capelinhos e em sequência dos estragos todo o dinheiro que havia disponível foi mobilizado para os Açores. Teso na vida, mudei de vida. Em vez de Medicina, optei por ir para a Faculdade de Ciências, para uma licenciatura em Química, pois dinheiro para seguir Medicina já não havia. Fiz o primeiro ano, passei para o segundo da licenciatura em Química.
Neste segundo ano ocorrem dois acontecimentos importantes, em que o primeiro é um verdadeiro tombo nos meus projetos de vida.
Neste meu segundo ano na Faculdade de Ciências o meu pai morreu num acidente de viação e tinha agora de olhar pela minha mãe. Podia precisar de emprego com urgência que me garantisse possibilidades de obter liquidez face à nova situação. Mais tarde, nestas vicissitudes da vida, fui parar ao ISCEF.
Mas há aqui um detalhe que joga com a intuição do Boaventura de Sousa Santos e que vale a pena pensar nele, a religiosidade subjacente ao meu modo de vida e de pensar. O meu pai morre num acidente de viação, num dia de nevoeiro cerrado. Vai de luz acesa pelo meio da estrada e choca com uma carrinha de caixa aberta. Esta por seu lado estava de faróis avariados, sem luz, e não tinha buzina. O condutor, um comerciante local, Júlio Correia, penso ser esse o seu nome, é preso. O irmão, engº João Correia, oferece-me imediatamente o pagamento dos meus estudos até à licenciatura, o equivalente a uma bolsa. Recuso firmemente, argumentando que não queria viver à sombra da morte do meu pai. mas afirmei: há que assegurar a sobrevivência da minha mãe. Dizem-me que sim. Levam-me a Castelo Branco e vou falar com o Juiz pedindo a libertação dizendo que se tratava de um acidente fruto de várias causas de que ninguém era diretamente responsável. O motorista não teria reparado antes nas falhas da carrinha!!! E o motorista foi solto.
Procurou-se afinar a indemnização para assegurar a sobrevivência da minha mãe. E qual foi a minha exigência? À luz de hoje, pasme-se com os valores em presença: 24.000 escudos! Calculados como? Considerei como esperança de vida 20 anos, ou seja, 240 meses. Sendo o abono de família na época de 100 escudos, 240×100=24.000 escudos, o que segundo a Pordata equivaleria hoje a cerca de 11.000 euros.
Parecia tudo estar bem, mas os 24.000 escudos não apareciam. Largos meses depois, encontro o engº João Correia e peço-lhe o dinheiro, no Rossio. Sou insultado e digo-lhe mais ou menos isto: há uma palavra dada, acordada, há uma palavra a ser respeitada, nem que seja nos Tribunais e virei-lhe as costas.
Fui a Castelo Branco, recorri a um advogado, Luís Gonzaga, se não me engano, que assumiu o processo. Pouco tempo depois, o engº João Correia procurou-me para resolver um mal-entendido da minha parte. Ele vinha pagar-me o acordado. Escaldado, ter-lhe-ei dito: isso já não é comigo, é com o advogado. Consigo, especificamente não tenho nada a tratar. Fomos convocados depois para o gabinete do advogado. Encontrámo-nos lá. Pagou os 24.000 escudos e o advogado disse-lhe: falta o resto. O resto? Não foram acordados 24.000? Sim, foi pago o que foi acordado, falta pagar a consequência de não ter pagado na altura devida, ou quer voltar atrás? Não, não quero, respondeu ele. Pagou mais 6.000 escudos. Pela minha parte fiquei com a impressão de que a justiça era coisa para ricos.
Mas há uma moral nesta história e ela expressa bem o quadro ético de cada um dos intervenientes, e a mim, isto deu-me bem a ideia do que seria a bolsa que me queriam oferecer para me calarem. O problema deles era o de minimizar o dinheiro a gastarem pelo erro do motorista responsável pelo acidente, o meu problema de ordem moral, com o meu pai já morto, era poupar o motorista responsável a uma pena que socialmente nada vinha resolver. Moralmente, era esta a minha posição.
Porém, se tudo isto, a liberdade do responsável pelo acidente e o cálculo da indemnização, não tem nada a ver com a mensagem cristã, não sei então que outra coisa pode significar. Mas isto também nos diz que aquilo que o faro sociológico de Boaventura Sousa Santos tinha detetado, a mentalidade quase que religiosa no meu comportamento, já vinha de longe, vinha da educação da minha infância e das minhas leituras da adolescência e era uma forte marca da mentalidade cristã gravada na alma [15]. Curiosamente, soube muito mais tarde que o meu pai tinha um seguro de vida de 50.000 escudos. Mas o processo estava fechado, a palavra estava dada e esta vale sempre muito mais do que o dinheiro que lhe se queiram opor. Não reabri o processo. Nem sei se ainda tinha esse direito, o que neste caso era já irrelevante, porque mesmo que o tivesse nunca o utilizaria.
Vejamos um outro exemplo a confirmar a leitura que acaba de ser feita, uma outra via de se sentir essa mentalidade cristã que passou a impregnar toda a minha forma de estar perante a vida e perante os outros desde os meus tempos de infância e que é expressa pela seguinte situação: quando o meu pai morreu, não assisti à missa de corpo presente, fiquei fora da igreja – hoje não faria assim. Hoje, estaria presente e com isso respeitaria a religião dos outros e a razão pela qual eles e eu estaríamos ali, mas não foi assim que procedi. No entanto, respeitei sempre a ideia da minha mãe de mandar dizer as diversas missas que entendeu.
O meu pai dizia muitas vezes, por brincadeira e para mostrar a sua posição de não-crente, que quando morresse não queria missas, queria que esse dinheiro fosse entregue onde faria falta: a ser entregue ao posto médico [16]. E dinheiro era coisa que ele não tinha, para estar a falar assim. Dizia-o porque a tradição ainda era o que era, ao contrário do que disse Paul Valery mais tarde: faltasse dinheiro onde faltasse, para a missa é que à minha mãe o dinheiro não iria faltar. Pessoalmente concordava com a ideia do meu pai: dinheiro para missas, isso nunca. Depois da sua morte passei a satisfazer a sua vontade. Durante um ano ou mesmo dois, já não me lembro, entregava todos os meses ao enfermeiro senhor Leitão, um enfermeiro reformado do exército, e para ajuda do posto médico de Fratel, o correspondente ao que eu gastaria se mandasse dizer mensalmente uma missa em memória do meu pai.
Ninguém me acusaria de não mandar dizer missa para poupar dinheiro, disso ficava abrigado porque ao distanciar-me da Igreja desta forma fortalecia-me na minha coerência e sentia-me mais integrado no espírito da mensagem de Cristo e dentro do que deveria ser uma das missões da própria Igreja: estar solidária com os necessitados. Poder-se-á pensar que se trata de um comportamento forçado da minha parte e escrito no sentido de embelezar o texto. Pensar assim é um claro engano. Tratou-se também de proteger a minha mãe de críticas que me poderiam ser feitas se fosse acusado de herege!
(continua)
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ANEXO 1 – Sobre a vida de um militar em 1965 em Portugal
Este é também um texto sobre a pobreza, não apenas a minha, isso seria irrelevante, mas sobre a pobreza que se vivia neste país e muita dela não visível.
Com este texto concluído a minha mulher começou a ler a correspondência trocada entre o pai e a mãe. Mostrou-me várias cartas e duas delas interessaram-me bastante por expressarem de forma inequívoca a pobreza que se vivia neste país e até onde eu não a imaginaria tão dura.
Para facilitar a leitura do texto que se segue, a sua mãe era doméstica e como habilitações literárias tinha apenas a terceira classe. O seu pai fez a primária em Lagoa e talvez não passasse da primária como, de resto, a maioria das pessoas de Lagoa não passou, exceto as crianças que tinham familiares nos grandes centros e que os puderam acolher, porque Lagoa em termos de ensino, para lá da escola primária era também o deserto: não havia mais nada. Aqui, o meu sogro era filho da pequena burguesia local, mas tinha muitos irmãos o que complicava a hipótese de progressão escolar. Mas era homem e isso facilitava as coisas. O pai comprou-lhe uma bicicleta, era ainda um luxo naquele tempo, e fez o seu curso industrial na Escola Comercial e Industrial de Silves: diariamente percorria 7 quilómetros para lá, 7 quilómetros para cá, fizesse chuva, fizesse vento. Com a diferença da bicicleta e de uma idade mais avançada, não haveria muita diferença com os miúdos dos povoados da freguesia de Fratel. Mas vale a pena ler o apontamento descrito pelo meu sogro sobre dois períodos escolares:
“1936-1941
Frequentei o Curso Industrial de Serralharia na Escola Industrial e Comercial João de Deus em Silves. Como a escola ficava a 7 Km de Lagoa inicialmente ia para a escola num carro puxado por uma mula e a partir do segundo ano passei a ir numa bicicleta que o meu pai me comprou. Também na Escola Industrial passei todos os anos até ao 5º ano onde fui aprovado nos exames com 15 valores” .
Eram muitos irmãos, a liquidez também não abundava e já não seguiu para o Instituto Industrial. Eu que o conheci e que conheci muitas histórias dele na Marinha, a reparar às vezes aparelhos que nunca tinha visto, direi, foi pena, foi pena que os seus estudos tivessem parado aí. Garantidamente daria um caso semelhante ao do meu amigo Vítor Lopes que ao desertor, vai para França, Paris, aí tem equivalência ao curso do Instituto Industrial na sua totalidade e isto numa Grande École.
Não foi assim com o meu sogro, este não seguiu para o Instituto Industrial, ou seja, aconteceu com ele o que aconteceu com muitos em Portugal. Aos dezassete anos ingressou na Marinha onde em 1965 tinha o posto de sargento-ajudante.
Em maio de 1964 é colocado em Comissão de Serviço em Moçambique. Nestas condições de remuneração especial por estar em comissão de serviço ganhava cera de 2100 escudos. Nesta altura um contínuo na Administração Pública ganhava cerca de 800 escudos.
Ainda segundo os apontamentos do meu sogro:
“Em junho de 1966 face ao meu pedido por requerimento e exposição ao ministro sou mandado regressar a Lisboa para frequentar o curso para oficial.
1966-1967
Em julho fiz as provas de admissão ao curso para oficial tendo ficado aprovado.
Em agosto de 1966 iniciei o curso em regime de semi-internato. Só podia sair às quartas-feiras e aos fins de semana de sexta à tarde até segunda-feira. Apesar da competição para os primeiros lugares da classificação não me foi difícil desde os primeiros exames classificar-me no primeiro lugar e manter esta situação até ao final do curso que terminei com a mais alta classificação até então atribuída a qualquer aluno da Marinha, 19,46 de média numa escala de 0 a 20.
Terminado o curso em 10 de março de 1967 fui promovido a subtenente em 7 de abril e no mesmo dia destacado para o Grupo nº 1 de Escolas da Armada- Escola de Eletrotecnia, em Vila Franca de Xira”.
Tornou-se assim professor na Escola de Marinheiros em Vila Franca de Xira.
A minha mulher, Margarida Pargana Mota, nascida em 1951, viveu a sua infância e juventude na Cova da Piedade. Fez a escola primária na escola pública, a cerca de 300 m metros de casa. Para lá da primária, o nosso sistema de ensino público não oferecia praticamente mais nada na Cova da Piedade. Tal como em Fratel, passar da escola primária para o ciclo e depois para o secundário era uma quase impossibilidade para a maioria da população portuguesa. Na Cova da Piedade, a minutos de Lisboa, mas do outro lado do rio, tínhamos mais um exemplo. Havia dois colégios privados. Fez o quinto ano (atual nono) na Cova da Piedade ao custo abaixo indicado, um custo quase proibitivo para a maioria da população daquela zona. Terminado o nono ano faz o secundário em Lisboa no Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho e segue depois para a faculdade onde tira a licenciatura.
Nestas cartas repassam três coisas:
- uma mulher com a terceira classe e doméstica escreve com um nível nada habitual ainda hoje. Tomáramos nós que com o ensino no país e neste tempo de Democracia se saísse do segundo ciclo a escrever da forma que mostrarei abaixo e de alguém que apenas tinha a terceira classe.
- A estrutura de despesa a mostrar como se vivia em aperto de vida constante.
- Este mesmo aperto de vida, além de bloquear a formação de muita gente neste país retirava brutalmente qualidade de vida a todos aqueles cujos rendimentos se situavam abaixo do rendimento mediano.
Vejamos então alguns excertos dessa correspondência trocada em 1965:
Carta 1
“Como sabes, fico sempre com muito pouco dinheiro do ordenado e a vida está muito cara. Para quem tem pouco ordenado não pode ter ninguém de família em casa, a dar de comida. Eu e a nossa filha não passamos fome, mas com qualquer coisa passamos.
Vejo é o dinheirinho desaparecer todo e a nossa filhinha ter tanta falta de umas meiinhas de lã, assim como de um lencinho para a cabeça porque faz um frio de cortar e tem também muita falta de uns sapatinhos e não lhos poder comprar.
Querido, vou-te mandar as contas deste mês, eu gosto que andes a par de tudo:
430 escudos para o Colégio
450 escudos casa [um T2]
380 escudos compras na cooperativa (Piedense)
112 escudos medicamentos
71.70 escudos gás
24 escudos limpeza de casa (por doença)
53.80 escudos luz
24.80 selos para as cartas
25.20 água
28.00 escudos uma lata de Milo
22.50 arranjo de cabelo
18.00 escudos livro
115.00 escudos em leite, peixe, fruta e passagens
Total 1755 escudos! “
É curioso olhar para esta lista, para o seu valor global, ter em conta o rendimento que entra em casa e também que se trata apenas de despesa em bens e serviços básicos, bens incompressíveis. Logicamente o colégio está também incluído, uma vez que não havia alternativa.
Um desabafo: ao ver estes números, sinto um aperto no coração ao questionar-me em como terão vivido todos aqueles que ganhariam metade do que aqui é referido. Uma parte da resposta dou-a de imediato: saúdo as mulheres daquele tempo que aprenderam e bem a fazer comida de qualidade e a partir de quase nada, comida nutritiva e saborosa. É disso que eu também vivi quanto vivia na rua Portugal Durão, onde só entrava um rendimento, o de maqueiro do Hospital de Santa Maria ou na Damasceno Monteiro, onde também só entrava um ordenado, o de contínuo no Terreiro do Paço. E este saber-fazer é uma arte que sustentava, que alimentava grande parte deste país.
Carta 2
“A tua mulherzinha também está de boa saúde, o que tenho é muitas saudades tuas- Lembro-me muito dos teus carinhos, pois já é razão para isso, já não falta muito para ano e meio que não os apanho e ainda falta tanto tempo para nos encontrarmos juntinhos na nossa casinha. Que Deus ao menos nos vá dando coragem e saúde para levarmos este sacrifício até ao fim. A vida que nós levamos as duas é uma vida que ninguém deseja, não saímos a parte alguma, as minhas saídas é ir à Cooperativa e à Praça e a nossa filha é de casa para o colégio e do colégio para casa.
A nossa única distração é a televisão e mesmo assim ultimamente só mostram as manifestações que fazem em todas as cidades do nosso país, os outros programas dão para muito tarde. No domingo o programa foi quase todo disso desde as nove da noite até quase às onze. Deu também a grande manifestação que deram aí em Lourenço Marques, ainda tive a ilusão de ver o meu maridinho, mas era tanta gente que mesmo que estivesses não te conseguia ver. A nossa filha até disse se eu estava parva em pensar que o pai ia para aquelas coisas, eu disse-lhe que se o pai for não será por causa da manifestação, mas sim para ver se tem sorte de ser filmado para nós o vermos “ (…)
Carta 3
“Já há algumas semanas que tem vindo um artigo no suplemento de sábado do Diário Popular sobre a mulher empregada. As que eles entrevistaram são de várias camadas sociais. A opinião de quase todas elas é que gostavam mais de estar em casa para olharem pelos filhos quando são bebés e pela educação deles, algumas delas não davam o carinho ao marido que tanto necessitavam por estarem empregadas. Cada semana o jornal trazia um artigo com o ordenado que entrava em casa dessas pessoas que foram entrevistadas. Era tudo para cima de 3 mil escudos.
Esta semana vinha quanto gastavam na alimentação por mês. Um sargento da marinha gasta 1500 escudos e além deste vêm outros que gastam muito mais.
Aqui é que vejo a miséria em que vive o pessoal das Forças Armadas que não têm as mulheres empregadas. Como é que eu me posso governar com 500 ou 600 escudos e não é só para a alimentação, é também para todos os extraordinários e este mês depois de dividir o dinheiro fiquei com 300 escudos, a vida está cada vez mais cara. Se não fosse essa viagem não sei o que seria de nós e de todos aqueles que vivem só do ordenado da Marinha, mas por isso estou a sofrer com as saudades. Não haverá ninguém que olhe a isto, que resolva a situação em que vive o funcionalismo público que é só miséria e nada mais.”
Duas a três notas minhas (JM):
O pai não iria nessas coisas diz a filha à mãe. Naturalmente assim, o pai era um homem de esquerda e solidamente de esquerda. Muito mais tarde, pós 25 de abril, soube que o pai participou em reuniões preparatórias do 25 de abril e soube-se mais, soube que quando chegou a altura de ser promovido a capitão-tenente as promoções estavam suspensas. Foram retomadas após a sua morte e ele morreu em 1987, com 62 anos. E ficou-se a saber como? Pela autobiografia que escreveu durante o período de tratamento da doença prolongada de que veio a falecer. E sobre o 25 de abril escreveu:
“Em fevereiro ou março de 1974 fui convidado a assistir a uma reunião no Clube Militar Naval, onde dois ou três camaradas do Exército iam fazer uma exposição sobre a situação política no país e informar das decisões pelo Movimento dos Capitães. Nessa reunião foi exposto que analisadas todas as opções possíveis para depor o regime só uma se tornava viável: o emprego das armas, isto é, a sublevação das forças armadas. O Movimento dos Capitães não estava a contar com a intervenção da Marinha para levar a efeito o golpe militar, mas pretendiam o voto dos oficiais aderentes de que não interviriam em oposição ao Movimento e que tentariam opor-se aos que procurassem entrar em confronto com as forças do Movimento. Os oficiais presentes, cerca de 150 a 200 votaram solidários coim o Movimento. Assim, antes do 25 de Abril ter eclodido, já eu estava solidário com ele.”
Compreende-se assim que a minha sogra tenha dito à minha mulher quando ela se levantou de manhã cedo para ir para Lisboa no dia 25 de Abril: “filha, não vás para Lisboa porque pode ser perigoso.” Perante esta afirmação diz-lhe o pai com convicção: “Vai filha, vai, que eu também vou, para Vila Franca.” No fundo, é como se lhe dissesse: vai filha, vai, vai sentir o cheiro da liberdade!
Fico com a ideia de que os artigos do Diário Popular são já o reflexo da economia portuguesa a ficar minada por dois importantes fatores: a mobilização de jovens para a guerra que assim deixam de alimentar o mercado de trabalho e a emigração em massa sobretudo para França, onde era migração desejada para alimentar os 30 gloriosos anos do crescimento económico francês. Era preciso mobilizar as mulheres para o mercado de trabalho e é nesse sentido que entendo os artigos do Diário Popular, artigos que não li. Penso mesmo que as mulheres apresentadas como exemplos terão sido bem selecionadas para este objetivo.
A pobreza ao nível das Forças Armadas e do funcionalismo público é claramente ressentida.
Há a referência ao adicional de remuneração do meu sogro por estar em comissão de serviço. Percebe-se que sem isso seria impossível que a minha mulher fizesse o 9º ano liceal, pois não haveria dinheiro para pagar o colégio privado. Seria assim mais uma jovem que não estudaria, tal como os meus colegas de Fratel e de muitas outras terras por esse país fora, porque os serviços públicos não estavam á altura das necessidades do país e da sua população e o dinheiro para serviços privados, esse, esse faltava na carteira da maioria da população portuguesa.
Tudo isto é elucidativo do país que o fascismo forjou, um país de pobres quando nada justificava que o fossem. Assim não é, pois, de estranhar a dureza de vida que eu também levei, relembrá-lo é um dever de que não abdico de cumprir. Percebe-se também que a queda do sistema seria apenas uma questão de tempo, cairia de pobre, por falta de sustentabilidade nas bases em que ele própria assentava. Viu-se com o 25 de Abril.
Depois disto, uma pergunta bem simples: qual foi o custo real da minha mulher chegar á Universidade. Não me refiro aos custos monetários, não, refiro-.me aos custos não contabilizáveis e que derivaram exclusivamente de ter de pagar um colégio que lhes custava mensalmente praticamente tanto quanto a casa. Um problema de sistema de ensino, um problema de opção política de Salazar, também. Custou um sofrimento imenso à mãe, custou um apertar de cinto durante cinco anos a toda a família, custou uma espécie de confinamento de fins-de-semana durante todo este período porque não havia dinheiro a gastar e conviver, custou o facto de o pai ter feito uma comissão de serviço por obrigação militar e uma segunda comissão para pagar as contas de fim do mês., o que, para quem é de esquerda e antiguerra, é doloroso, como doloroso foi também viver quatro anos fora de casa.
Somos um país de gente sofrida, é o que podemos sintetizar por tudo o que se escreveu neste trabalho relativamente às minhas e às nossas circunstâncias. Somos um país de gente sofrida, por uma opção que não foi nossa, foi o sistema que nos foi imposto, foi o sistema que não queremos voltar a ver, que não queremos voltar a viver, mas ao longe já se ouvem os seus tambores tocados por gente que quer o seu regresso.
ANEXO 2 – A educação e um jogo de espelhos
Quanto à importância da formação adquirida enquanto criança e quanto à importância que esta tem no seu futuro há uma situação curiosa ocorrida com a minha mulher. Faz o estágio educacional em Coimbra (porque na Faculdade tirou o estágio científico) e está confiante de que será colocada nesta cidade ou arredores. No concurso coloca Almada em último lugar porque, se tiver azar, sempre ficará perto dos pais, na Cova da Piedade. Está grávida, há que assegurar as melhores condições possíveis para a sua gravidez. É colocada em Almada e a lecionar alunos adultos no curso noturno.
Uma noite um aluno em plena aula dirige-se-lhe e pergunta: “a senhora professora é filha do tenente Pargana, não é?”
Sou, respondeu ela.
“É porque é muito parecida com ele até no modo de dar aulas”.
Porquê aquela pergunta? Ele tinha sido aluno do pai dela na Escola de Marinheiros de Vila Franca de Xira.
Ora, a palavra parecida aqui aplicada pelo aluno tem pouco a ver com o ponto de vista físico pois fisicamente não existem parecenças de relevo que levem àquela identificação entre um professor que ele teve na Marinha em Vila Franca de Xira e uma jovem professora que ele nunca tinha visto na vida e lhe está a dar aulas pela primeira vez.
O que estaria ali em jogo era o facto de haver semelhanças na forma de ensinar, ou seja, no que a palavra ensinar implica. Haveria semelhanças na interação, na forma de falar, de explicar, semelhanças anímicas na movimentação física, inclusive no movimento das mãos, haveria até semelhanças quando o aluno se refere ao modo de lecionar ao dizer “até no modo de dar aulas”. No fundo, o facto do aluno se lembrar do “seu” professor de Vila Franca de Xira através do quadro gestual de aulas recebidas em Vila Franca e “repetidas” por uma desconhecida em Almada significa a existência de um ou outro elo de ligação entre estas aulas dadas em espaços e tempos diferentes: a carga afetiva sentida pelo aluno num lado e no outro. Dito de forma mais dura, por confronto com o que lamentavelmente se faz hoje: não eram aulas feitas pela leitura de powerpoints e de costas viradas para os alunos, eram aulas dadas com as mãos, com o quadro, com o cérebro, com a alma. Hoje já quase ninguém sabe o que isso é. Só assim se percebe que a questão da identificação tenha sido posta.
Esta história é verídica como todas as outras que neste trabalho se contam, mas qual a explicação? Vejamos a minha explicação que se baseia na lógica de que não há disco duro mais difícil de apagar do que o nosso cérebro.
Comecemos com algo que nada tem a ver com isto. Procuro alguém que seja de grande experiência em terapia da fala para tratar de uma adolescente cujo problema de expressão oral está centrado no sistema nervoso central. Encontro, mas não havia vaga. Admirei-me e perguntei qual a razão para tanta ocupação. A explicação foi simples: os tempos da dita terapeuta estavam ocupados com crianças pequenas que não aprenderam a falar por causa das máscaras utilizadas na Covid. Não viam os movimentos dos lábios dos pais, não registavam no seu cérebro esses movimentos, não aprenderam a falar. Simples, muito simples a explicação.
No caso do aluno em Almada temos a situação inversa: a minha mulher é alguém que foi criada com muito carinho e o pai, quando não estava em viagem no navio, brincava muito com ela, fazia de pai, fazia de avô, fazia de outra criança, até fazia de leãozinho se fosse esse o caso da brincadeira. Quando o navio estava atracado no Alfeite até a levava com ele ao fim de semana percorrendo-o de ponta a ponta. Mais ainda, o pai era pedagogicamente uma pessoa excecional. Muito do que ela terá aprendido em criança, terá sido com ele como professor. Possivelmente até a aprendizagem da entoação a dar às palavras terá sido aprendida com ele e inconscientemente gravada no seu cérebro. Assim percebe-se que o aluno tenha identificado na professora o seu pai, pela forma de falar, de explicar, de “gestualizar”.
No fundo, a adulta que ali estava a dar aulas em Almada e o jovem que antes foi marinheiro e aluno do Tenente Pargana em Vila Franca de Xira tinham algo em comum: foram ensinados pelo mesmo mestre embora com tempos e intensidades muito diferentes.
A diferença de intensidade expressa-se da seguinte forma: o aluno em Almada ao associar a minha mulher ao tenente Pargana, fá-lo porque emocionalmente o tenente o terá marcado na sua juventude de mancebo enquanto seu aluno na Marinha. Repare-se, um a dois anos de diferença e ele liga à figura do tenente uma jovem que nunca viu nem mais gorda nem mais magra. A similitude de comportamentos, do “déjà vu”, fá-lo imediatamente associar a filha ao pai e vice-versa e sem memória afetiva forte não chegaria lá. Por outro lado, a marca do tenente na filha tem um tempo e uma vivência completamente diferente, como é lógico, tinha quase o tempo de uma vida, a dela.
As marcas do pai que o aluno em Almada tinha na memória eram tão evidentes nos comportamentos da filha que a identificação para ele terá sido imediata. O jovem aluno via e sentia (a palavra sentia é aqui importante) nos diversos modos de estar e de explicar da minha mulher o registo dos comportamentos do pai dela, do professor que afetivamente lhe ficou na memória. No caso da professora de então, trata-se de um registo de anos, criado na multitude de afetos expressos que, sem ela se aperceber, foram-na moldando de tal forma que toda ela se parecia com o pai, em termos de atividade docente, com ela a ser uma imagem não intencional do pai! Este exemplo mostra a importância do papel que a educação tem na infância sobre a formação do próprio adulto- serve-lhe de molde para a vida futura e aqui reencontramos os pontos de vista de que fala o jornalista António Rodrigues sobre a importância da educação na infância. E poderíamos sintetizar esta realidade numa simples expressão e na linha de Henry Farrell: se queres uma sociedade de gente adulta e democraticamente decente cuida, primeiro que tudo, em lhe garantir uma infância humanamente decente, cuida em moldar essa sociedade desde logo, na infância. Os nossos políticos, os nossos sociólogos, os nossos economistas, ninguém pensa nisso, preferem pensar nas políticas austeritárias e o resultado disso, por exemplo, é termos uma juventude em que os jovens até tem dificuldade em entenderem-se uns com os outros. Uma situação tão grave que até já levou Universidade americanas de topo a criarem plataformas para ensinar os seus estudantes a entenderem-se uns com os outros. O economista André Grjebine dizia sobre este tema uma outra coisa bem curiosa: ou se ensinam as crianças a controlarem os seus impulsos ou elas nunca mais o conseguirão.
A este propósito aqui vos deixo uma situação curiosa. Tinha a minha neta 4-5 anos levo-a pela mão ao longo das arcadas da Avenida Gulbenkian, em Coimbra. Cruzo-me com uma amiga minha que não via há tempos largos junto à perfumaria Mars, hoje tem outro nome. Houve alguma euforia, oh Júlio dá cá um abração. Largo a miúda e abraço-a. Larga a minha amiga e estendo a mão para pegar na miúda. Não havia miúda! O centro comercial tem muitas portas, e vários pisos subterrâneos com várias saídas. A minha amiga entrou em pânico e achava que se devia imediatamente chamar a polícia. Fiquei preocupado e pedi ajuda a mais duas pessoas para batermos as lojas do piso zero, onde estávamos. À terceira loja encontrei-a. Tinha fugido para a perfumaria Mars para fazer brincar e fazer festas a uma boneca que . estava numa prateleira baixa e ela sabia que estava lá a boneca. Agarra-a e dou-lhe duas valentes palmadas. Não chorou, orgulho é orgulho. Nisto vem a empregada da Mars, seu bruto, isso não se faz, eu devia chamar a polícia para saber como é! Olhei para a senhora e agora com alguma calma, disse-lhe: não chame a polícia. Não, não faça isso. Eu cedo-lhe a miúda par uma semana para a educar melhor do que eu, se for capaz disso. Sublinhe-se que sou avô mas a que junto a função de pai, por ausência dele. A senhora da Mars reage e diz: Oh, desculpe, mas…mesmo assim e repete a frase, com um mesmo assim baixinho mais para sim do que para mim. Mesmo assim…foram poucas, repetiu a mesma cena várias vezes, mas aprendeu a controlar a fogosidade. Ainda hoje quando me cruzo com a empregada da Mars, digo-lhe: olhe, não chame a polícia, está bem? E rimo-nos.
Olhando para este incidente direi apenas: não estou nada arrependido das palmadas que dei, naquela altura ou noutras, não terão sido demais A ideia de que tudo se consegue olhos nos olhos é uma pura fantasia daqueles que muitas vezes deixavam as crianças entregues aos mimos das criadas e depois tinham ciúmes destas. E isto tanto mais quanto nesta lógica há quem entenda que a criança tem os mesmos mecanismos e meios de entendimento que nós temos, o que não é verdade. . Conheci o caso de um dos maiores pedagogos deste país onde era problemático ir almoçar ou jantar a sua casa como convidado, com os seus filhos presentes, tal era a selvajaria que estes introduziam na calma da refeição e com convidados. Mas eram educados olhos nos olhos! A transposição disto para a escola primária vê-se na “arte” de ensinar a escrever: não se ensina, porque a criança deve escrever como melhor lhe agradar quando ainda não sabe escrever! Percebe-se, pois, as razões pelas quais estou de acordo com André Grjebine e aliás direi que estou de acordo com ele muito antes dele escrever isso: por volta dos 18 anos agradeci ao meu pai as palmadas que me deu. Foram sempre dadas na altura própria, embora às vezes de maneira exagerada, mas como me dizia a minha mãe: mais vale que eles chorem por um dia do que nós por toda a vida!
A mesma história contada por alguém com um pouco mais de setenta anos. Vou fazer uma análise ao sangue para ver como está o meu ácido úrico a um dos muitíssimos laboratórios de Germano de Sousa e são muitíssimos para salvaguarda da concorrência neste país! Curioso.
Sento-me, fixando o meu lugar na fila de espera. Entra um casal, a mulher senta-se e o marido dirige-se a mim, com a mão estendida. Cumprimento-o e digo-lhe: lamento, mas não o estou a reconhecer. A resposta, com um sorriso franco, foi imediata: mas estou eu. Estou a reconhecê-lo de Economia Internacional. Sabe, a primeira vez que fui a exame, reprovou-me e com seis valores.
E depois, questionei eu enquanto vislumbrava no ar um sentimento de orgulho ou de satisfação, não sei bem.
Fui lá a seguir, estudei como nem um danado, mas passei. Com 10 valores, mas passei! Sabe, a cadeira era muito difícil, mas olhe, com isso aprendi a estudar. Obrigado.
Mudámos de assunto. Falou-se dos professores que teve, de quem ainda se recorda e que já partiram: Rui Namorado, Jaime Ferreira, Joaquim Gil. Chamaram-me para ser picado e ficámos por aqui., mas aquele obrigado, aquele aprendi a estudar, do que não tinha que agradecer, ficou-me no ar, no coração, e como a melhor prenda que me poderiam oferecer neste meu dia de anos em que faço 82 anos.
Isto não vale um cêntimo, dir-se-á hoje, mas isso não verdade, não é, vale uma vida, vale sobre a forma de fazer de uma criança, um adolescente , de um adolescente, um jovem, de um jovem um jovem adulto e deste um adulto inteiro, mas isto não é nada diferente do que nos diz André Grjebine, não é nada diferente do que eu fiz com a minha neta com 4-5 anos, não é, é antes o sinal de que queremos resistir à mediocridade que nos assola e que nos consome no nosso quotidiano, impondo o cumprimento do dever, do dever fazer e salvaguardando o direito de ser, tudo isto em nome da dignidade humana .
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Notas
[10] Mais tarde, já no ISEG, a morar na rua Luís Fernandes, comprei um radio equivalente com gira-discos, creio que Lowe ou Telefunken. Curiosamente ainda me lembro do primeiro disco que ouvi, Os Mandarins, de Bela Bartok e julgo que sob direção de Pierre Boulez. Conto este detalhe por uma razão bem simples que ainda hoje não sei explicar bem: senti uma enorme comoção ao ouvir o disco. E era, inclusive, o primeiro disco de música clássica que ouvia em minha casa. Terá sido porque me agradou, porque me sensibilizou? Tudo isso deve ser verdade, mas creio que não chega. A nadar então nas águas do marxismo talvez tenha havido aqui uma outra razão para essa comoção ser tão intensa: ganhei a consciência e também a alegria de ter interiorizado um bem cultural de luxo que era de uso quase exclusivo da burguesia. Isto não tem nada a ver com dinheiro para comprar o disco, tem a ver com o dado cultural importante que ali se revelava: a emoção de sentir a música que estava a ouvir e de me comover com ela. Não menos curioso: cerca de 15 anos depois, tinha a minha filha 7 anos, compro-lhe um cofret de dois discos com música de Bela Bartok: Musique pour les enfants de Michael Beroff, editado por Pathé-Marconi-EMI. Isto é um reflexo da emoção referida. Patético, isto? Talvez.
[11] Alguns desses fiscais eram bem conhecidos. Ainda me lembro de um, alcunhado de o quatro dedos. Loja onde entrasse era, garantidamente, loja multada, por mais conforme que se estivesse face aos regulamentos camarários. Imagine-se um saco de feijão aberto, numa mercearia. Tem um letreiro com o preço bem visível. Passa um miúdo, toca no letreiro, fica com um ângulo de 90 graus, entra o fiscal, e tem-se uma multa a pagar!
[12] A propósito da educação adquirida desde a infância até à adolescência, veja-se um detalhe curioso no anexo 2.
[13] Para uma comparação simples da evolução e degradação do nosso sistema de ensino em Portugal, veja-se a estrutura do programa do secundário para quem quer seguir o Curso de Ciências Socioeconómicas do início dos anos 80 com a estrutura correspondente, mas de agora! Falando do ensino superior, pegue-se no plano de curso de qualquer Faculdade nos anos 70 (5 anos) e compare-se com o que se faz agora (com licenciatura mais mestrado). Para uma comparação mais imediata veja-se o plano de curso do início dos anos 80 da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e compare-se com o de agora. Por curiosidade, na altura anão havia nenhum doutorado em economia, agora são quase todos.
[14] Se a memória não me falha, na década de 80 terei visto na televisão Luís Represas defender um ponto de vista semelhante.
[15] O tratamento de tudo o que envolveu a morte do meu pai, desde a libertação do responsável do acidente, desde a recusa da bolsa de estudo até ao cálculo da indemnização pela sua morte mostra, penso eu, a religiosidade que havia naquele jovem e um momento que seria um momento de raiva e não foi: foi um momento de perdão.
[16] Não crente, mas no fundo a ligação a Cristo estava lá, difusa é certo, mas estava, quando o meu pai se referia ao dinheiro das missas a ser gasto!



