Hoje faço 82 anos: um olhar para o que fui e para algumas das minhas circunstâncias (5/8). Por Júlio Marques Mota

Nota de editor:

Este extraordinário texto de Júlio Mota, testemunho de uma vida, de uma sociedade, de circunstâncias que são já passado, está permanente e totalmente virado para o futuro, para uma sociedade com extraordinárias mutações, mas que será incompreensível se ignorarmos as suas raízes. E, infelizmente, não são apenas os jovens de hoje, muitos dos quais ignoram esse passado, são também instituições de elite como são as Universidades, são também os políticos e o poder político que minimizam quando não mesmo ignoram o passado (e querem mesmo apagar um passado recente libertador como foi o 25 de Abril de 1974) e o caminho percorrido de retrocesso que nos trouxe à situação atual. Situação que em diversos aspetos relembra misérias e perseguições que não queremos ver repetidas, uma situação que dá sinais de esgotamento do regime em que vivemos, sem que seja claro para onde queremos ir. Um tempo gramsciano, diremos.

E neste quadro de incerteza, e de potenciais perigos que se adivinham, neste quadro sombrio e distópico, grandes responsabilidades devem ser assacadas a uma esquerda, e também a uma direita, que se arrogam de anti extrema-direita, mas que na sua prática política enquanto detentores, por largo tempo, do poder muito têm contribuído para o surgimento e reforço dessa mesma extrema-direita. Em muitos dos textos publicados no nosso blog, nomeadamente de Júlio Mota  ou por ele selecionados, se tem chamado a atenção para questões críticas que têm contribuído decisivamente para o estado de desorientação atual: redução do papel do estado social, com crescente privatização de serviços públicos essenciais, endeusamento dos mercados, enaltecimento desmesurado do indivíduo em desfavor do interesse coletivo, confusão entre direitos das minorias e direitos das maiorias, austeridade com crescente pobreza, crescente desigualdade da distribuição da riqueza, precarização do trabalho, tudo isto embrulhado em avalanches de informação, as mais das vezes manipulada, ou no mínimo enviesada, quer nas redes socais quer em canais públicos de informação.

Este texto do Júlio Mota, mais uma vez, tem a força e lucidez dos desafios que as suas reflexões sempre nos trazem e, como um seu amigo nos diz, tem “a mesma paixão pela (des)ordem do tempo que vivemos”.

Apesar de muito entusiasmante a leitura integral do texto, dada a sua notável extensão optámos por publicá-lo em oito partes – hoje a quinta -, seguindo a própria estrutura.

 

FT


14 min de leitura

Hoje faço 82 anos: um olhar para o que fui e para algumas das minhas circunstâncias (5/8)

A sociedade portuguesa em análise e na primeira pessoa

 Por Júlio Marques Mota

Coimbra, 20 de fevereiro de 2025

 

Dedico esta peça a José Veiga Torres, João Cravinho, Boaventura Sousa Santos e a um antigo aluno meu cujo nome não sei, por fazerem parte desta história. A todos o meu reconhecimento.

JMota

 

ÍNDICE 

1ª PARTE – Introdução                                                         

2ª PARTE – Da infância à adolescência e ao jovem adulto                 

3ª PARTE – De operário a universitário, de adolescente a jovem adulto e a aluno do ISCEF 

4ª PARTE – Histórias de guerra e de amor ao país                        

5ª PARTE – Do cristianismo ao Marxismo – a passagem à idade adulta  

6ª PARTE – De jovem adulto a professor no ISCEF e na FEUC           

7ª PARTE – A degradação atual do ensino, um espelho da evolução do país, um espelho da degradação do espírito de abril                                     

8ª PARTE – A ascensão da mediocridade às Universidades e ao poder político                                                                                        

ANEXOS                                                                       

_______________

(continuação)

 

5ª PARTE – Do cristianismo ao Marxismo- a passagem à idade adulta

 

Resenha em Nota crítica sobre diversas publicações acerca da relação entre marxismo e cristianismo, por MICHAEL LÖWY (ver aqui)

 

 

Todo este relato de circunstâncias creio que elimina totalmente a hipótese H2 a e H2b. De uma maneira ou de outra sou também um produto das circunstâncias e estas foram para mim muito importantes e algumas muito draconianas. Ortega y Gasset tem razão. Que seria eu sem as minhas circunstâncias, sem o apoio daqueles que me deram de comer, que me deram livros a ler, que me deram explicações, que me acarinharam nas suas casas, que me deram roupa de jeito, que me incentivaram para o estudo e para a cultura, que me ensinaram a ler Hegel, etc.? Ganhava enquanto marçano 100 escudos por mês e tinha de sofrer o desconto daquilo que alguém me roubasse do meu cesto das compras quando as ia entregar aos clientes! Exemplo: levava num cabaz as mercadorias para vários clientes. Se ia entregar mercearia a um 3º andar do prédio X, deixava o cabaz à porta do prédio e subia pela escada de serviço ao terceiro andar a entregar o que me tinha sido pedido. Muitas vezes, quando descia, faltava-me um garrafão de água. Tinha sido roubado! Pagava-o eu! Quanto ao carinho dos estudantes, para vos dar um exemplo, o primeiro par de calças de jeito que tive foi-me dado pelo Eurico de Figueiredo, mais tarde um dos principais líderes estudantis nas crises académicas que posteriormente se desenrolaram.

Naquela altura, a Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências estava sob tutela do Ministro da Educação, ou melhor, do reitor da Universidade Clássica. Havia então uma comissão administrativa. Já não sei bem, se era uma ou eram duas, mas creio que eram duas: uma encarregada da cantina e outra dos restantes serviços, como, por exemplo, a secção de folhas, à frente da qual estava um fascista de nome Romeu. Era deficiente físico, andava de muletas. Andava em Matemáticas. Um verdadeiro cérebro.

O meu pai vendia cabritos. Um dia tento vender cabritos à Cantina. E vendi. Jurei para nunca mais. Isso dava uma outra história típica do fascismo: o procurar levantar um cesto de cabritos na estação da CP em Alcântara não era tarefa fácil, era preciso olear, e bem, a máquina, com escudos, para poder levantar os cabritos.

 

Admito que relatar esta pequena história nos dá uma imagem bem clara das logicas fascizantes da sociedade portuguesa de então e contemo-la então. Aqui, a forma como as coisas se desenrolaram mostra muita coisa de podre na sociedade portuguesa daquele tempo. Vejamos.

Dirijo-me à estação de Alcântara por volta das 10 horas. Dizem-me que não posso levantar os cabritos sem a vistoria do veterinário. Tudo bem, e o veterinário onde está? Perguntei. Dizem-me que está a fazer a vistoria num dos mercados da zona, suponhamos, de Algés.

A partir daqui esperavam-me várias surpresas.

1. Primeira surpresa: meto-me num táxi e vou ter com o veterinário. Apresento-me e acompanho-o na vistoria ao mercado. Espanto meu, o veterinário percorreu todas as áleas do mercado entre bancas, mas vi-o sempre de olhos no chão! Vistoriou o mercado e não viu nada, a não ser o chão! Eu não queria acreditar no que estava a ver. Reencontrámo-nos depois em Alcântara.

2. Segunda surpresa. Não posso autorizar a saída dos cabritos, diz-me o veterinário e acrescenta: não vêm vistoriados de origem. Não percebi e perguntei: então não é função do senhor veterinário vistoriar a qualidade da carne que tem pela frente? Sim, depois de verificada pelo meu colega na origem. Reagi educadamente e disse: olhe os cabritos são para a cantina da Faculdade de Ciências. Se os não posso levantar, fiquem com eles. Eles já estão pagos, acrescentei, o que era mentira. Faço sinal de me ir embora e o veterinário diz: espere, como não vêm carimbados de origem, também eu não os vou carimbar e leve-os, mas digo-lhe que é só esta vez. Apronto-me então para ir chamar um táxi para levar os dois cabazes de carne.

3. Terceira surpresa. Diz-me o polícia. Não pode chamar um táxi. Isto exige transporte próprio para carnes. Senti-me encostado à parede. Tudo bem, respondi-lhe. Lembrei-me de um amigo meu que tinha uma carrinha dessas. Volto a ir a uma cabine telefónica, estamos em 1965 – e telefono a este amigo talhante pedindo-lhe lhe ajuda. Meia hora depois estava uma carrinha de transporte de carnes à porta dos armazéns da estação de Alcântara. O polícia movimenta-se em direção ao meu amigo e diz-lhe: tem autorização para transporte de carnes de outros? Está registado como tal? Este meu amigo sentiu-se atordoado com a questão do polícia. Claro que não tenho, mas venho desenrascar um amigo que precisa de transportar a carne fresca que aí está. Legalmente não pode e eu represento a lei, diz o polícia.

4. Quarta surpresa. No meio disto há alguém que assiste a isto desde a minha chegada. Com um ar tenso afasta-se de nós e dirige-se ao polícia, os dois afastam-se de nós e pergunta-lhe, direto: quanto é que quer? Cinquenta escudos, terá sido a resposta. O senhor deixa o polícia e vem ter connosco e diz: o preço para os cabritos saírem daqui são cinquenta escudos. Diga-lhe que sim e leve-lhos, disse eu.

Isto era o fascismo. Eu represento o Estado, dizia o pobre do polícia. E vendia-se por cinquenta escudos. Nem queria acreditar, mas a realidade estava ali, entrava-me pelos olhos dentro. Já não sei precisar, nas possivelmente se fosse batido nesta mecânica fascista teria logo avançado com os cinquenta escudos logo de partida e se calhar nem a questão do veterinário se colocaria. Mas nesta história há muita coisa curiosa, e é mais por isso que a desenvolvo aqui.

 

a)   O sistema era permissivo à pequena corrupção, vivia bem com ela. Assim se viveu durante décadas, com os baixos salários da função pública e os mais desenrascados do sistema iam-se aguentando bem. Tipos como o polícia abundavam no sistema. Os que assim não eram, apertavam o cinto e andavam sempre a fazer contas à vida porque o dinheiro não esticava. Um exemplo simples disto e desta altura: um funcionário das finanças trata de regularizar nas finanças o processo de herança de uma viúva da pequena burguesia. Esta, junto aos papéis que entrega, coloca uma nota de 1000 escudos. O empregado, calmamente pergunta: na sua cama tem um lençol ou dois? Dois, responde a viúva. Então? Pergunta o funcionário, fixando-a. Trago-lhe o outro depois, acrescentou a viúva. Tudo dito, e este funcionário não era o pobre do polícia, era um quadro do ministério das finanças! Isto significa exatamente que a corrupção, a pequena pelo menos, era um mal endémico com a qual o Estado vivia bem e até alimentava com o seu silêncio. O tempo já lá vai, e a vida dele também.

b)   Um veterinário inspeciona um mercado com os olhos sempre fixos no chão. Talvez com o medo de cair, direi eu. Fica-se com a sensação que a estrutura do mercado de trabalho era assim feita para absorver os licenciados da burguesia de então, não tanto para defender os interesses dos consumidores, como se poderia entender no quadro de um capitalismo desenvolvido.

c)   O veterinário só carimbava os cabritos que já viessem carimbados. Ele só confirmava o que o colega já tinha garantido: que a carne era boa. Mas isto não é irracional na lógica do sistema: os cabritos chegavam ao preço de 12 escudos o Kg e com os dois carimbos ficam a cerca de 15 escudos. O carimbo valia, 1$50 por Kg e dois carimbos significam então 3$00 por Kg de acréscimo ao preço que vinha do produtor! Significa isto, só isto, que entre o preço do produtor e o preço do consumidor, há uma enorme margem do preço que é apropriada pelo Estado. Dito de forma mais rude: o Estado apropriava-se por esta via de uma parte do excedente agrícola.

d)   Há ainda algo bem mais grave nesta história. O meu pai despachava cabritos duas a três vezes por semana. Eram mortos da parte da tarde, o preço era um preço acordado e curiosamente era ao preço a que eram vendidos para Lisboa. Eram transportados para o Fratel, colocados em cestos de vime arejados e despachados à noite, na estação dos caminhos de ferro de Fratel, que fica a 5km de Fratel. Chegavam a Lisboa de madrugada, fresquíssimos. E o ganho do meu pai, onde está, então? Os cabritos eram pesados, não havia vigarice na balança, e o ganho do meu pai advinha de uma coisa bem simples: ficava com a pele que vendia depois aos intermediários que andavam de terra em terra a comprar as peles, os peleiros. A pele valeria 1k de cabrito! Hoje ninguém quer essas peles.

e)   A exigência de dois veterinários – impossível cumprir a lei. Estamos em 1965. Era impossível andar de terra em terra, a comprar cabritos, matá-los, estripá-los, tirar-lhes a pele, a transportá-los de burro, e, por fim, antes das 17 horas chegar a Vila Velha de Ródão, percorrendo distâncias de 15 a 25 quilómetros de burro, levá-los ao veterinário e depois de carimbados, ir despachá-los pelo caminho de ferro. Um sistema possível para as explorações agrícolas de certa dimensão, mas não possível para os pequenos agricultores e pequenos intermediários. Todos estes agentes económicos ficavam sempre sujeitos à aleatoriedade das autoridades como me aconteceu a mim. Precários absolutos, diríamos hoje.

f)   Pequenos agricultores, intermediários como o meu, pai, peleiros, todos eles eram afinal explorados do sistema, de forma não visível, pelas remunerações auferidas e pelos preços praticados, determinados estes a partir do centro para a periferia. Aparentemente em conflito entre eles, pois o ganho de um seria o não ganho do outro, como num jogo de soma nula, respeitavam as regras do jogo. Tanto assim que muitas vezes o negócio era selado entre todos com uns copos e umas monejas assadas na brasa (timo e pâncreas dos cabritos) [24]. Às vezes havia os oportunistas que queriam enganar o meu pai ou outro intermediário, procurando vender os cabritos a olho. Uma das vezes a parada foi alta: o meu pai comprou a olho, pagou, preparou os cabritos, depois pesou-os. Tinham mais kgs do que o que pagou. Disse ao agricultor: desta vez pago-te a diferença, mas tu pagas os copos de nós todos. E assim foi. Foram muitos os copos. Por sorte tínhamos um burro “inteligente”, que afinal não era assim tão “burro”, trouxe o dono e a carga do dono a casa!

Numa dessas terreolas que faziam a freguesia, uma outra vez, venderam-lhe um porco a olho, já depois de uma matança de cabritos e de uns copos bebidos. Um espertalhão quis aproveitar a ocasião e vender-lhe o porco dessa forma. O meu pai comprou-o. No dia seguinte, pela manhã cedo, bateram-nos à porta de casa. Era um homem muito aflito, o vendedor do porco, a pedir ao meu pai que desfizesse o negócio, dizendo-lhe: ti Adriano, eu estava bêbado. E eu estava quase, respondeu o meu pai. O vendedor do porco acrescentou que já não aguentava a ira da mulher por causa do porco, e este estava a transformar-se num porco malvado. Conversaram, conversaram, razões sobre razões e o meu pai desfez o negócio dizendo-lhe a rir; vê se aprendes, desta vez, a deixar de ser lorpa. Nesta pequena história de um porco vendido (comprado) há um detalhe que me encanta: a importância da palavra dada. O homem não vem dizer que não vende o porco, o homem vem pedir à parte ganhadora que aceite desfazer o negócio. Se o meu pai dissesse que não, o porco seria pago, seria entregue e a mulher do vendedor zangada acabaria, talvez, por se calar e deixar de massacrar o marido com o dito mau negócio, apesar de que, no fundo, era ela que tinha criado o porco, não ele. Se assim não fizesse, o mais provável seria levar uma carga de pancada e calar-se depois. Felizmente tudo acabou em bem.

Com todos os seus defeitos, com todas suas dificuldades, não deixava de ser um mundo solidário, onde os conflitos de interesses se desfaziam nessa onda de respeito mútuo, ou como diria o meu amigo Ramalhete, era um mundo de agentes cooperativos! E aqui, num mundo relativamente fechado, Akerlof teria razão relativamente ao problema levantado com o dilema do prisioneiro: intuitivamente as pessoas tendem a ser cooperativas entre elas até porque nestes ambientes não o ser sai caro.

g)   Exploração: o papel do intermediário, caso do meu pai, era caricato. Fazendo todas estas operações, o ganho por cabrito seria, naquela altura, 12 escudos por unidade cabrito, não por kg de cabrito. Porém, a este valor haveria de ser deduzido o transporte ferroviário, mas mais ainda teriam que ser deduzidas as quebras no peso. Um cesto podia pesar 40 kg na altura do envio e chagar a Lisboa e pesar 36 kg. Vejamos os ganhos por cabaz de 40 kg: 40 kg de cabrito significa 8 cabritos, 8 cabritos significam 8 peles, 8 peles representam o valor de 8 kg de cabrito. Perderam-se 4 kg em perdas de peso: ficam 4 kg, a que se deduz ainda o custo do transporte. Ficava uma remuneração de miséria, ou dito de uma outra maneira, o intermediário era tão explorado quanto o agricultor. Se uns e outros fossem remunerados como deve ser, agricultor, peleiro, intermediário de compra e venda de carne, o preço por kg ascenderia para valores que poderiam situar-se entre os 18 escudos e os 20 escudos. O famoso efeito tesoura dos preços: os preços agrícolas são baixos, os preços dos bens industriais são altos. Expliquemo-nos:

Diz-se efeito tesoura. Quando se abre uma tesoura para cortar seja o que for, um dos ramos está acima da posição de equilíbrio enquanto o outro está abaixo, uma imagem que nos foi dada por Alfred Marshall, embora num contexto diferente.

Diz-nos sobre esta matéria a Wikipédia:

“O efeito de tesoura é um fenómeno económico em que um grupo de trabalhadores de uma indústria vê o seu rendimento diminuir devido a uma descida do preço da sua produção, enquanto os preços médios dos bens que compra permanecem inalterados ou aumentam. Este fenómeno produz uma diferença crescente entre o rendimento do trabalho de um indivíduo e o seu custo de vida, reduzindo o seu poder de compra. O efeito de tesoura tem sido historicamente observado nos preços agrícolas.”

Sem nos querer alongar sobre esta matéria, diremos que este efeito tesoura foi uma das bases do fascismo e uma forma do Estado financiar a industrialização à conta do excedente captado na agricultura. A industrialização tão pretendida pelo industrialista Rogério Martins tinha aqui uma boa base de apoio, ou de financiamento, precise-se. Podia-se, pois, criar em Portugal a primeira maquilhadora do Mundo, antes da longa fronteira do México.

 

 

 

Depois desta história dos cabritos, sou depois convidado para dirigir a cantina. Vou ter com um tipo de forte responsabilidade no movimento associativo, elemento muito ativo nas RIAs (Reuniões Inter Associações de Estudantes), o J.E.F., a aconselhar-me. Diz-me que aceite. E aceitei. Desenrasquei-me bem como diretor da cantina. No início, até achei piada ao facto de que o tipo que quase passou fome, eu próprio, passou a estabelecer o que os filhos da burguesia comiam, inclusive a dieta vegetariana!!! Até cozinha, e a sério, eu tive de estudar!

Entretanto, mantinha o tipo de amigos que já tinha e fiquei amigo do meu “contacto” até ao momento em que entrei no ISCEF. Depois, desliguei-me um pouco da malta do Nova Iorque e do Tatu; como me desliguei do tipo que me ensinou Hegel e que, mais tarde, casou com a filha de uma amiga minha que trabalhava na Fábrica Monsanto, como me desliguei até do Eurico de Figueiredo e mulher, Berta, entre outros.

Como estudante de Ciências tinha vários amigos, mas destes, havia um muito especial, como quem me dava quase como irmão, o J.G. No final do primeiro ano foi passar férias comigo à minha terra, onde estudámos em conjunto. Este meu amigo teria 18-19 anos e eu teria 22-23 anos. Tinha piada ver a minha mãe tratá-lo, tanto como um filho seu, tanto como um filho da burguesia, como um filho do patrão. Ela tinha sido criada de servir, na casa do Dr. Pinto, um médico de origem indiana que tinha casa de férias em Fratel e que morava na Rovisco Pais.

Mas quanto à minha presença na direção da Cantina algo começou a correr mal, os tipos da Comissão Administrativa começaram a desconfiar das minhas amizades, penso eu. Um dia, o responsável pela contabilidade da Cantina, tenta passar-me uma rasteira e esta foi a seguinte: sou o diretor, o tipo, R.S, é o tesoureiro. Estamos a passar cheques de pagamentos a fornecedores. Ele diz-me: Júlio, enganei-me, tens de me desenrascar. O que se passou, questionei eu? Passei um cheque em nome de fulano X (não me lembro obviamente de quem) em vez de fulano Y. És diretor, podes ir ao banco, levantas o dinheiro, dás-mo e eu dou-o a quem o cheque devia ser passado. Com uma serenidade brutal digo-lhe: deves ter razão, mas a conta tem duas assinaturas, a segunda é a tua. Não tens de passar segundo cheque. Vais lá, levantas o dinheiro, qualquer coisa situada entre 50000 e 60000 escudos, e pagas ao fornecedor a quem se deve o dinheiro. Ainda me lembro de que o fornecedor era o tipo da fruta, uma empresa do outro lado do rio Tejo. Ficou enrascado, engoliu e diz-me: vou falar com o banco a saber se não há problema em passar segundo cheque. Estamos entre 1965-1967. Percebi a mensagem. Se fizesse o que ele queria corria o risco de ser demitido e acusado de querer roubar a Cantina, em bom português, seria demitido e acusado de ladrão. Demitido é que eu não queria ser e veremos mais abaixo o porquê.

Há um telefonema meu ao J.G. a dizer que me quero ir embora. Esse telefonema tanto pode ter sido feito antes como depois daquele telefonema noturno de que falo mais abaixo. Mais provavelmente este telefonema ao J. G. deve ter sido feito antes deste acontecimento. Só depois se terá passado este caso da rasteira, mas sinceramente pode ter sido o contrário. Tenho uma memória ainda muito boa, mas incapaz de fixar o tempo – de resto ele não se fixa, flui, fixam-se é acontecimentos. A confirmar esta ideia, veja-se o que aconteceu recentemente em minha casa enquanto escrevia este texto:

A minha mulher refere-se à reportagem que em tempos tinha lido no Público sobre Luís Cília. Leu-ma, estava eu a começar este texto e digo-lhe: oh, espera aí. Esse é o cantor que canta A bola que rebola no chão de Angola, um disco que não ouço desde o final dos anos 70. Foi um dos discos que coloquei a girar aquando de uma das explicações dadas ao António Bonifácio, do Fratel. Fomos ver no Spotify e lá estava a canção. Rimos à volta disto e eu ironizei dizendo que ainda não estava apanhado pela doença de Alzheimer.

Depois da rasteira do cheque acima referida, uma coisa passo a sentir – o telefone estaria controlado, os meus passos também. Todas as noites havia um tipo a controlar a hora que vinha para casa e se vinha acompanhado ou não. Se acompanhado deixavam-me um pouco mais abaixo do café Smarta, que é na rua que se segue à Alexandre Herculano, suponho ser a rua Barata Salgueiro, pois morava numa travessa que ia dar à Rua do Passadiço, onde estava a sede do Sporting. De manhã dava-se a mesma vigilância. Estranho. Pela minha parte fazia esquemas diários para prever qualquer hipótese de nova rasteira.

Por volta de 1965-1966, cerca de 4-5 anos depois do que aconteceu em frente à Reitoria e eu era já diretor da Cantina, recebo uma noite, entre as onze e a meia-noite um telefonema anónimo onde me dizem: se continuas assim qualquer dia acontece-te o mesmo que ao tipo de Belas. Havia aqui uma certa subtileza, não me dizem se continuas assim fazemos-te o mesmo que ao tipo de Belas, dizem-me: se continuas assim qualquer dia acontece-te o mesmo que ao tipo de Belas. E desligam o telefone.

Aqui fico em parafuso, não sabia o que era o caso de Belas, mas liguei-o automaticamente a uma morte provocada pelo PC, o que é errado, como veremos. Belas tem a ver com Rui D’Espiney. O telefone é desligado e, em pânico, ligo ao meu grande amigo J. G. para lhe falar desta ameaça e a decisão dele foi a que passo a descrever. Penso que não me foi dita pelo telefone: encontrámo-nos depois, e a sua reação foi mais ou menos isto: tu, com a tua inteligência e com a tua formação política, só poderás ser ou um alto quadro da PIDE ou um alto quadro do PC. Rejeito uma coisa e outra, portanto não te quero ver mais. Nada a fazer quanto a essa crença, foi a minha reação mais imediata e é claro, a nossa amizade morria ali com aquela frase. e com muita dor pela minha parte. Nada mais a fazer, pois quando se esfuma a confiança entre dois amigos, é a própria amizade que se esfuma, que desaparece.

Respeitei rigorosamente a sua decisão e nunca mais o vi. Hoje, ao reler estas linhas, espero que fique claro para quem me lê que não há nenhum ressentimento com a sua decisão. Tratou-se de tomar como hipótese certa que eu era uma das duas coisas referidas, quando eu não correspondia a nenhuma delas. A partir daqui, a partir da hipótese incorreta tira a conclusão que a esta hipótese é a mais adequada: consequentemente toma a posição errada resultante da hipótese errada.

Agora que escrevo isto, repare-se que encontramos aqui o mesmo comportamento que na véspera da minha prisão em 1961-1962, no dia da inauguração da Reitoria da Universidade de Lisboa, e da minha permanência na Rua António Maria Cardoso: os muros de isolamento entre os sujeitos criados pelo medo. Aqui era uma profunda amizade que se estiolava sob o peso de chumbo desses dias de chumbo. Estiolada a confiança, não há amizade que resista. A nossa morreu ali. Éramos jovens, ele no fim da adolescência e eu já entrado na categoria de jovem adulto, eu de 23-24 anos, ele de 18-19. Todos temos direito ao medo. Ele teve medo e sob a pressão deste medo decidiu o que decidiu. Penso, porém, que decidiu precipitadamente. Eu também tive medo, mas depois de racionalizada a situação, esse medo passou, passou quando percebi que nada daquilo tinha sentido.

Não há nenhum ressentimento nesta história, isso é certo. Note-se que a minha educação de adolescente não foi feita em família, vivia longe dela, sozinho pelas ruas de Lisboa, não foi feita na escola ou liceu, não a tinha, foi feita a querer compreender o que via, a querer entender o que ouvia, e a grande ferramenta para isso eram os livros. Assim, aprendi a entender e muitas vezes a aceitar os erros dos outros quando não eram intencionais, aí já não seriam erros. O meu grande educador foram os livros, entre os quis cito O Profeta de Kahlil Gibran ou os Cadernos de Camus. É por esta cultura aprendida e interiorizada que se pode entender que não tenha havido nenhum ressentimento da minha parte nesta pequena história de uma amizade destruída pela política.

Na altura, vivia para os lados de Santa Marta, em Lisboa, num quarto alugado e muito pouca gente teria o meu número de telefone e os que o tinham, tinham tanta confiança em mim como eu neles. Portanto, não pertencendo eu a nenhum partido político, a nenhum grupo político enquanto tal, este telefonema não tinha qualquer sentido, fizesse o que fizesse e a relação com Belas era totalmente absurda, sem qualquer sentido. Logo, este telefonema não poderia ter partido da esquerda, uma vez que esta não vive de provocações. Poderia apenas ter partido da extrema-esquerda ou da extrema-direita. Da extrema-esquerda também não porque esta tinha mais com que se bater, estava a bater-se contra o seu inimigo figadal, o Partido Comunista, a que chamava o representante do social-fascismo, além de que eu no quadro da esquerda estudantil nada representava.

No quadro deste raciocínio restava como explicação do telefonema sobre Belas a hipótese da extrema-direita, porque, por um lado seria fácil, pelas vias oficiais do fascismo, obter o meu número de telefone e porque a provocação é o seu forte. Portanto, aqui só se poderia tratar de pura provocação. De qualquer das formas, no momento fiquei então com medo e não raciocinei assim. Só vários dias depois o fiz, só dias depois racionalizei a situação.

Ser tomado como alto quadro da PIDE ou do PC? Anedótico, por todo o trajeto até aqui descrito, mas de forma mais brutal como é possível pensar-se em alto-quadro seja do que for, quando, por exemplo, no ano em que não fui autorizado a inscrever-me para o 2º ano do ciclo, ou seja cinco anos antes, eu cheguei a ter de estudar à luz dos candeeiros da Alameda da Fonte Luminosa, porque não tinha dinheiro para pagar um café no Café Império. Nesse ano em que ainda era marçano, dormia na Calçada da Picheleira e se saísse depois do jantar para estudar e chegasse tarde tinha a porta fechada. Algumas noites, quando deixava passar a hora, dormia enrolado em sacas de batatas vazias em cima de uma camioneta que estacionava ao lado direito da Fonte Luminosa [25], para quem está de costas viradas para o Técnico. Hoje, ao escrever estas linhas direi que isto mostra bem o que canta Manuel Freire, que o sonho comanda à vida, porque era em função desse sonho que esta situação se vivia. E na mente de J.G. neste curto intervalo de tempo e com este modo de vida e de sonho eu teria chegado ao ponto de ser um alto quadro do PC ou da PIDE!

Cinco a seis anos depois de ser acusado pelo meu melhor amigo de ser um Alto-Quadro de uma coisa ou da outra. seja do que for, é obra! É preciso ter azar, mas também aprendi com Hegel que os escolhos da vida se ultrapassados transformam-se em vitórias nossas. Foi o que tentei fazer.

Posso ter sido um jovem claramente atípico porque tinha tido uma trajetória muitíssimo atípica para chegar ali, o que hoje seria impossível para condições idênticas, mas essa atipicidade e no seu contexto próprio, muito particular, nada tinha a ver com a forma como J.G. colocou o problema, mas sim com a ânsia de vencer a barreira da ignorância típica dos sem-nada, comportamento este que o economista Atkinson chama de “bulimia cultural”. Essa bulimia foi ganha nos tempos do Nova Iorque, nos tempos de marçano, e estimulada por vários dos estudantes que mais tarde foram líderes da academia e também por vários dos meus clientes da Praceta Afonso Lopes Vieira, relembro aqui.

Nessa altura, o miúdo meio roto meio esfarrapado, não sei já como, fazia parte de uma tertúlia cultural que reunia na casa do escritor Augusto Costa Dias com ele e por vezes com a mulher Luísa Costa Dias. Terei escrito nessa altura uma peça pequena para um suplemento juvenil que era ou do Diário de Lisboa ou do República. Penso que se tratava do primeiro jornal e se não estou enganado estava nesse grupo também o Rui D’Espiney. Terei tomado café com ele uma noite num café situado na rua que desce do Areeiro para o Aeroporto, e de quem desce num café à esquerda dessa rua a meio da rua. Ao que me dizem é agora um restaurante. O objetivo era discutir um texto que ele iria publicar no referido suplemento. Se não era o Ruy, ele tem aproximadamente a minha idade, já não sei quem seria, mas ia jurar que era ele. Mas isto, sublinhe-se, é marginal para a nossa história.

(continua)

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Notas

[24] Nota do revisor do texto: moneja, iguaria da culinária regional, O termo é específico desta região e em geral nem consta dos dicionários.

[25] Uma leitura simplista desta história seria a de que se trata de pura tolice o estar a sacrificar-me desta maneira por um objetivo que afinal não estaria ao meu alcance. É um ponto de vista aceitável, mas contra ele argumento que na altura eu era um migrante interno e recuar face ao meu objetivo, era dar-me por vencido e convencido, era voltar à terra como um falhado. Mas este sacrifício não é muito diferente de ter dúvidas sobre a Troca Desigual, escrever a Arghiri Emmanuel e passar uma semana em Paris a tirar dúvidas quando ia teso que nem um carapau saído do gelo, não é muito diferente de ir a Tilburg discutir um trabalho sobre Integração Económica e vir alimentado no último dia a torrões de açúcar obtidos nos aeroportos da viagem. Contra o argumento da tolice diremos que se trata apenas de uma trajetória não habitual e não enquadrável na ideia de tolice.

 

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