Um editorial do ‘El País’ no dia 25 de Fevereiro, que tive o cuidado de guardar (mantendo o castelhano), dizia assim ‘Los líderes más proestadounidenses de la UE ya han descubierto que Trump no ejerce de paraguas de Europa, sino como agente de Moscú’.
E com o espectáculo televisivo que o trumpa e o seguidor Vance, ofereceram a todo o mundo na casa dele em Washington, humilhando Zelensky frente às câmaras de televisão, até há pouco um bom e importante aliado europeu, mostram que a História nos proporcionou mais uma cambalhota, assim contada por José Antonio Sanz no ‘Publico.es’, ‘Trump sentencia a Ucrânia com a emboscada a Zelensky e deixa as mãos livres a Putin para ganhar a guerra’.
Cambalhota devidamente gravada, pois quando o líder ucraniano saía daquele espectáculo, o trumpa exclamava alto e bom som, ‘Isto é televisão e da boa!’, de acordo com a crónica de Màrius Carol, antigo director do ‘La Vanguardia’, que termina assim, ‘Como devia estar a rir Putin em Moscovo! Com Trump no poder, pode aforrar a deslocação de espias para Washington!’
Por outro lado, e depois de fazer um breve resumo do que aconteceu nos últimos meses, o escritor Álvaro Bermejo, escreve na revista ‘Todo Literatura’, ‘O mais assustador, é a maneira como a Europa desistiu algumas semanas atrás, quando as delegações russa e americana se encontraram em Riad; para acabar com a guerra na Ucrânia? Não! O objectivo deles era lançar as bases para a nova ordem mundial. A palavra-chave: realpolitik, a prevalência do pragmatismo dos poderes, acima de qualquer consideração ética’.
E depois continua com o que poderá ser uma boa lição de ciência política para todos, ‘Vamos à geopolítica. O que é? Um jogo de poder de soma zero. Explico: o aumento do poder político e económico dos vencedores corresponde a uma diminuição equivalente para os perdedores’, e acaba por explicar ‘Quem se beneficia com a iminente capitulação da Ucrânia? Rússia, EUA e China. Quem perde, além da Ucrânia? Europa, claro’ pois sou obrigado a pensar, como Màrius Carol, ‘Trump aproveitou o deficit de liderança actual na Europa, para quebrar o ‘stato quo’ comunitário, usando tal debilidade em matéria de defesa. Entretanto Putin, sorri ao ver como Trump lhe faz o trabalho’.
O filósofo e sociólogo Daniel Innerarity, publicou já em Novembro último, um artigo com o título ‘A democracia, os maus e os males’. Ali reflexiona sobre o futuro da democracia e da capacidade nossa, em resolver este quebra-cabeças, quando as ameaças maiores são ‘os maus’, disfarçados sob as mais diversas formas –autoritários, golpistas, demagogos, intrusos– mas também com as condições que a mesma democracia se torna inviável –desinformação, crise e desigualdade– tudo bem presente aqui e agora.
E Innerarity conclui afirmando, ‘A democracia do futuro será um pouco diferente da democracia actual porque, se fosse a mesma, não teria futuro. Ela sobreviverá se puder garantir a sua viabilidade no meio das ameaças e desafios que enfrenta agora e no futuro’.
A ver pelo que se passou na Casa do trumpa, pouco mais nos resta do que dizer Oxalá! a palavra que os antigos usavam para manifestar o enorme desejo de que alguma coisa acontecesse para resolver uma qualquer aflição Não me interessa agora a sua análise etimológica, mas repeti-la também, para que a barbárie não triunfe, que os seres humanos sejam tratados com dignidade, e que a Paz tenha agora a oportunidade frente às indústrias das armas, das tecnologias e dos negócios com os mesmos seres humanos! É só um desejo, que recebi e reenvio, numa crónica do cronista e catedrático de literatura García Montero, numa rádio daqui ao lado.
Tudo isto porque, a proliferação dos ecrãs e dos trampolineiros, levou um catedrático de Comunicação Política a afirmar, há poucos dias, ‘A perda dos valores humanos, converteu o Ocidente numa sociedade de espectadores’ e, um seu colega, confirma com outra afirmação, ‘Vivemos tempos onde há mais vocação de poder do que política’.
Onde estão os ‘maus’ de Innerarity?
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor