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Hoje faço 82 anos… ainda as minhas circunstâncias: sobre uma amizade que acabou hoje
Coimbra, 19 de março de 2025
A história é useira e vezeira em pregar-nos partidas. Hoje é Dia do Pai, hoje morreu uma grande mãe, uma amiga minha com a respeitável idade de 102 anos, a nossa Amelinha.
Fui professor durante quase 40 anos, professor de um tempo em que professores e alunos se respeitavam e em que em muitos dos casos cada um procurava valorizar o outro naquilo que profissionalmente fazia. Fui professor de um tempo em que com esse nós outros era possível tecer relações de amizade, os fios invisíveis com que tecíamos as roupas com que socialmente nos equipávamos, e desses tempos restam-nos múltiplas circunstâncias por todos os poros da nossa existência. Hoje faz-se o inverso disto, porque o que se fazia então é agora considerado endogamia pelos nossos neoliberais de meia tijela, sejam eles de direita ou de esquerda, que preferem antes o individualismo extremo, O que abaixo descrevo é o resultado dessas circunstâncias de então.
Desse tempo, um assistente meu da disciplina de Economia Internacional, Henrique Amaral Dias, disse-me que tinha numa das turmas práticas um aluno que eu gostaria muito de conhecer. E descreve-o. Tudo bem, marca um encontro com ele, disse-lhe eu. Esse aluno chamava-se Mário Grandão, era filho da mulher que acaba de morrer esta tarde com 102 anos, a nossa Amelinha. Era um aluno de exceção, fino que nem um alho como se diz na minha terra, ou fino como nem uma raposa, como se diz na cidade, mas era um aluno que em grande parte da sua adolescência, depois de vir de Angola e depois da morte do pai, médico de profissão, cresceu num período complicado, sobretudo anos depois do 25 de abril.
Nesta fase, como aconteceu a muitos outros, perdeu-se, entre as brumas do álcool que ingeria, tendo deixado de estudar por ter ficado adicto ao álcool. Mas a fragilidade que o levou ao abuso do álcool escondia uma resistência de aço de alta qualidade. Depois de muitas cabeçadas na vida decide, por sua livre vontade, internar-se num centro de alta qualidade na recuperação de gente com dependência em álcool, na Unidade de Alcoologia de Coimbra, no Sobral Cid. Interrompe os estudos na Universidade durante uns anos. Trata-se, e caso raro, nunca mais tocou no álcool, tendo-se tornado depois num aluno de exceção. Teria ido longe, muito longe, se não fosse esse longo desvio nas normas da vida.
Foi esse aluno que eu conheci no quarto ano da licenciatura em Economia. Licenciou-se, empregou.se, tendo como último emprego a firma Madeira e Madeira, onde foi um empregado exemplar e com uma capacidade de trabalho invejável por muita gente bem mais nova que ele e sem os desvios que ele teve. Ficámos amigos e para sempre, até que os efeitos colaterais daquela fase de juventude perdida se fizeram sentir dolorosamente, pela via de um cancro nas glândulas parótidas.
Foram cerca de 4 anos de pesadelo, um pesadelo que acompanhei noite após noite, sendo rara a noite que não lhe fazia companhia até cerca da meia-noite. É neste quadro que conheço a mãe, a Amelinha, como me habituei carinhosamente a tratá-la. na altura já com mais de 85 anos. Uma mulher que passei a admirar.
Era um espanto de resistência, esta mulher. Não saía já de casa, esta não tinha elevador e moravam num terceiro andar. Em casa já andava de andarilho e era a Casa Cor-de-rosa que lhe fornecia o apoio domiciliário, levando-lhe diariamente a comida e tratando da sua higiene pessoal como banho e arranjo de cabelo entre outras coisas. Por vezes era ela que massajava as zonas do corpo do filho mais doridas, mas imagine-se como é que isso era possível a alguém que andava de andarilho fazer este tipo de massagens. Era a força do amor maternal que naquela casa apanhada pela dor e pela solidão conseguia fazer milagres. Quando lá ia ficava uns minutos com ela na cozinha e depois ia para a sala ver televisão com o filho, conversando com ele ao longo do serão. Quando este estava em muito mal estado com dores, recusava ver-me e pedia à mãe para me avisar e pedir para eu não ir, mas eu ia e neste caso fazia serão com a mãe.
Politicamente, o seu filho Mario Grandão, o mais novo dos seus três filhos, era um homem de esquerda o que facilitava, e de que maneira, as nossas conversas ao longo dos múltiplos serões. Por aí soube de muitas histórias sobre o comportamento dos jovens que frequentavam a nossa Faculdade de Economia, a minha e a dele, e falava-me da sua admiração por alguns dos seus professores, e destes lembro-me ainda de me ter falado dos professores de direito, várias vezes referidos nas nossas conversas, o Rui Namorado (já falecido) e a Maria Manuel Leitão Marques em especial.
Sobre estudantes, fui eu que em tempos em que ele ainda era estudante do 4º ano o coloquei em contacto com uma aluna que teria uns bons apontamentos de Economia Industrial. Emprestou-lhos, mas com uma condição: nunca os disponibilizar a ninguém, nem que fosse ao seu melhor amigo. Quando me contou isto, eu que conhecia bem a aluna em questão, perguntei-lhe: eh pá, que explicação é que ela te deu? Pasmei com a resposta, mas esta é altamente significativa: se os estudares bem, vais ter boa nota, se os emprestares, aqueles a quem os emprestares vão ter boas notas e a minha vantagem em fazer esses apontamentos desaparece. Sem comentários, digo-lhe eu. Isto era já um prenúncio dos ventos do neoliberalismo que iriam atravessar toda a Academia.
Um certo serão falo-lhe de duas alunas africanas que a propósito de um suposto apoio que lhes terei dado, me vieram agradecer no final do ano letivo o carinho que tive para com elas ao longo de todo o ano letivo e dizendo-me que teria sido graças a mim que fizeram todas as disciplinas do ano e com boas notas. Esta é uma história longa que vos hei de contar um dia. Porquê eu, perguntei? Porque nos ensinou a estudar, porque nos incentivou a estudar, porque nos levou a aumentar a nossa capacidade de concentração! Uma destas duas raparigas, e já depois de sair licenciada, passou mais tarde pela Faculdade para me oferecer uma estatueta em pau preto e simbolicamente esta era a estatueta do Pensador. Deixemos isto. O que me aqui interessa salientar são duas coisas:
a) segundo me contaram estas duas alunas, elas foram incentivadas por alguns rapazes africanos a não irem às minhas aulas porque eu era racista e sádico e que eu tinha prazer em mostrar que os africanos eram uns ignorantes, o que não vale a pena comentar.
b) disse-me o Grandão, recolocando o racismo no lado de lá, que as raparigas africanas eram controladas pelos seus conterrâneos rapazes mais velhos.
Penso que a explicação para esta infâmia é um pouco mais profunda e radica no insucesso de alguns deles e ninguém gosta de estar sozinho nos seus desaires. Precisam de companhia, além de que eram jovens e nessas idades a imaginação é fértil
Bom, o Mário Grandão morre e de uma morte do mais violento que se possa imaginar. Já em fim de vida, dias antes de morrer diz ao irmão Tó Fernando; o que é que haverá ainda de mais horrível para me acontecer.?
Morreu o Mário Grandão, a casa é fechada, a mãe vai para casa dos filhos e depois para um lar. Fico eu encarregado de dar destino aos bens pessoais do Mário Grandão, livros, calçado, roupas, e outros objetos. Aqui, pagou-se a uma amiga minha para se tratar da limpeza da casa para depois ser vendida. Dois dias de trabalho com a Carla Mateus do café Trianon para deixar a casa completamente limpa. Ao passar a limpo os seus bens confirmo o que já sabia ou pressentia desde os seus tempos de estudante, que ele era um jovem de cultura e a sério, dispunha de uma biblioteca com algum nível para estudante. Tudo o que era livro de economia foi doado à Faculdade de Economia, entre os quais alguns que eu próprio lhe tinha oferecido quando fazia anos. A Bibliotecária atenta escreve à mãe a agradecer os livros e foi espantosa a alegria da nossa Amelinha ao receber essa carta de reconhecimento. Sentiu-se gratificada. Falo disto por uma outra razão, por um detalhe que é uma marca de educação de classe da própria família: o cuidado com que tudo o que era material de Faculdade estava arrumado, em pastas, disciplina a disciplina. E eu conhecia-as todas.
Deu-me pessoalmente muito prazer rever a alta qualidade do ensino que se fazia naquele tempo na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, contra os tempos de agora com cursos superiores vocacionados quase que para diplomados em iliteracia. Deu-me algum prazer recordar um tempo de nós outros contra o individualismo extremo de agora, de que o caso dos apontamentos de Economia Industrial era já um exemplo premonitório do que está a acontecer atualmente.
O seu pai era médico, a mãe era professora primária e naquele cuidado com que o material escolar estava guardado, estava sintetizada, exemplificada, a educação cuidada que recebeu na infância e nos primeiros anos da sua adolescência. Terá sido esta a base que mais tarde deu substância à sua espantosa recuperação como homem, como cidadão, como um muito bom estudante, contra a eventual degradação em que poderia ter ficado. O disco duro dos nossos primeiros anos de educação, ou seja, o registo do que aprendemos e de como aprendemos a ser gente enquanto pequenos, terá sido o seu suporte do futuro e foi-o, como se viu com o Mário, com uma recuperação onde o carinho e a resistência da mãe terão desempenhado um papel fulcral. Por aqui, deixo a minha homenagem á nossa Amelinha enquanto educadora e mãe.
Com a morte do Mário Grandão, a mãe, a nossa Amelinha, vai para casa dos filhos e mais tarde para um lar onde era muito bem tratada. Resistiu até aos 102 anos, morreu hoje, dia 19 de março, dia do Pai.
Quando a ia visitar isso era para ela uma enorme alegria, por um duplo sentimento, penso eu, porque via um amigo, um amigo que a acompanhou durante anos num universo sem esperança e de dor violenta, sabia-se isso, mas via também em mim, o seu filho Mário, o seu filho que merecia que um professor cuidasse dele até ao fim da vida e procurasse com a visita aliviar a sua dor de mãe. Durante dias repetia às empregadas do lar, aos técnicos de saúde que tratavam dela, que “esteve cá o professor do meu filho”.
No dia 12 de março fui visitá-la ao lar onde residia, em Lisboa. Almocei com o Tó Fernando, um dos seus filhos, num restaurante perto da Universidade Católica e fomos vê.la ao lar. Estava já muito doente, com um olhar meio parado, deitada. Escreveu-se o meu nome no telemóvel, mostrou-se-lhe o ecrã com o meu nome, um ar de alegria passou-lhe pela cara, mas de curta duração, fiz-lhe festas na cara e o filho diz-lhe o meu nome ao ouvido que estava menos estragado. Um período de silêncio e houve garantidamente uma tomada de consciência que o professor amigo do seu filho e dela própria estava ali, ali para a ver e beijar. De repente, dá-se uma espécie de urro, direi eu à falta de encontrar melhor termo, e tenta expelir as secreções que a impediam de falar. Tenta falar, não com os olhos, esses mantinham-se menos mortiços, mas ainda mortiços, tentou falar com a boca, com a garganta, os lábios mexem-se e pela modulação deles estava a falar, mas não se ouvia nada, nem um só som. A morte rondava por perto e estava já a silenciá-la. Tento disfarçar o sentimento de dor que a situação me causava e senti uma lágrima não contida. rolar-me pela cara que disfarcei fingindo assoar-me. Aquela mulher corajosa, aquela mãe ultra abnegada estava a atingir o limite das suas capacidades humanas e a querer-me agradecer a visita, mas as suas capacidades de expressão estavam a atingir o grau zero da vida. O filho ao ouvido ainda lhe perguntou se gostou da visita e esta ter-lhe-á dito, com um leve sinal de assentimento com a cabeça e também num tom tão baixo que eu não ouvi, gostei muito, muito.
Se eu fosse católico, se fosse crente, se nesse caso me sentisse com direito ao céu, direito que ela tinha assegurado por direito próprio para si mesma, ter-lhe-ia dito ao ouvido, baixinho, muito baixinho:
um dia, quando nos cruzarmos no Céu há de me repetir o que está agora a dizer e hei de lhe dizer obrigado por elas.
Como não sou nada disto, espero apenas que a nossa Amelinha descanse em paz nas nossas memórias como exemplo de resistência na vida face à adversidade da mesma e à família enlutada, ao Zé Manel, ao Tó Fernando, aos netos e restante família os meus sentidos pêsames.


