CARTA DE BRAGA – “de coisar um nada” por António Oliveira

Resolvi hoje, ‘coisar’ uma Carta sobre um ‘nada’; ‘coisar’ por ser um verbo multiusos, talvez o mais polivalente da língua portuguesa, desde a escola primária, quando uma criança não consegue explicar o que estava a fazer, até ao ensino superior quando a mesma criança, dezoito anos mais tarde, também não consegue explicar para onde estava a olhar.

Um verbo que necessita de contexto, um contexto definido pelas pessoas envolvidas na situação, que permite a sua ‘tradução’ para a linguagem comum e afasta todos os que não o integram; a maioria das vezes o uso do ‘coisar’ é inocente, não tem qualquer malandrice atrás, e até me acontece quando tenho de pedir para alguém ‘coisar’ alguma das niquices que me impede o uso do portátil.

Mas optei por uma Carta sobre ‘nada’, ao ler ‘Uma crónica sobre nada’, escrita por Luís Castro Mendes, no DN do passado 25 de Março, por ter a cabeça ocupada na preparação de um tema para um colóquio; como não sou tão ambicioso, substituo o colóquio por esta modesta Carta, mesmo que, para mim, tenha a mesma importância que o tal colóquio teria para aquele poeta e escritor.

E não me faltam temas para deitar fora, para me centrar apenas no ‘nada’, seguindo só as palavras do escritor e cronista David Torres, num diário daqui ao lado, ‘Admito que o sucesso de certas peças jornalísticas me enche de estupor, se não de horror, mas também é verdade que vivemos numa era em que triunfa o reggaeton, filmes para cegos, romances com prosa escrita para um filme, poemas de porta de casa de banho, teorias científicas do século XIII e Netanyahu’.

Também evito falar da amizade entre o putin e o trumpa, salpicada com muskice, sabendo até que se algum deles tocar no bambu dos chineses, destinado na totalidade aos pandas, estamos todos tramados e, a propósito, disse uma vez Grocho Marx, ‘Mais madeira, é guerra! Bom, pessoal, vão ao supermercado, que o kit está acabado’; o de sobrevivência?

E nem quero ‘coisar’ do fulano do lado de lá do charco, pois escreve o director do ‘Diario 16’, ‘Com líderes como o actual presidente dos Estados Unidos, a diplomacia é inútil, como já foi demonstrado na década de 1930 com Adolf Hitler’. E mais, ‘De todas as acções racistas do actual governo, a mais escandalosa é a promessa de Trump, em agilizar a cidadania americana para os africâneres brancos da África do Sul, que, segundo ele, sofrem discriminação; lembre-se que Musk é sul-africano e não fala com o pai, um homem que se opôs veementemente ao regime de apartheid imposto pelos africâneres’.

E, para justificar ter ‘coisado’ esta Carta no ‘nada’ evoco, para me apoiar, a escritora e jornalista Maruja Torres, que escreveu no dia 26 passado para a Cadena ser, ‘Nenhuma pesquisa nem nada. Há aqueles que promovem a mentira, apenas para que ela acabe por se tornar numa verdade colossal e insuportável. E eles são o que são, e fazem o que fazem, porque podem. A situação actual já tem seus filmes e séries, e costumávamos chamá-los de distopias. Uma lembrança sincera do mundo de ontem, mas hoje do espanto paralisante e do humor negro, como um paliativo desesperado’.

Por onde andará o meu ‘nada’?

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

Leave a Reply