EMIGRAÇÃO – por Eva Cruz

EMIGRAÇÃO

por Eva Cruz

Nunca fui emigrante nem sou propriamente descendente de emigrantes, embora minha mãe fosse brasileira, nascida no Rio de Janeiro, filha, ela sim, de emigrantes torna-viagem de quem nos fala Ferreira de Castro. “Em todas as aldeias próximas, em todas as freguesias das redondezas havia o mesmo anseio de viagem, de ir em busca de riqueza a continentes longínquos. Era um sonho denso, uma ambição profunda que cavava na alma desde a infância até à velhice”. Melhor do que ninguém, Ferreira de Castro, que conheci pessoalmente e era amiga de alguns familiares, retratou no seu livro “Os Emigrantes” essa procura de um novo mundo, um novo rumo, a luz que emanava do oiro do Brasil, a dor dos que partiam e dos que ficavam, as agruras num país estranho, os medos, as desilusões, a ânsia de voltar, o retorno ao torrão natal que parecia tão grande na partida e tão pequenino no regresso. Tudo isto relacionado com a emigração dos princípios do século XX quando o Eldorado era a América do Norte e principalmente o Brasil. Muitos são hoje os palacetes nas redondezas e possivelmente em S. João da Madeira, que ainda refletem o luxo brilhante desse oiro do Brasil.

Nos anos sessenta, o mesmo anseio, o mesmo sonho, mas com rumos diferentes. O destino era a Europa, especialmente a França e a Alemanha.  As causas da diáspora eram e são geralmente as mesmas, causas económicas, a fuga à fome, à miséria, à guerra, neste caso à Guerra Colonial. A amargura e a saudade eram sempre as mesmas, tão sentidamente presentes nas palavras do belo poema de Manuel Alegre “Trova do Emigrante” e na magnífica voz de Manuel Freire.

Vivi intensamente e muito de perto esse período porque convivi com muitos emigrantes, cá e lá fora, especialmente na Alemanha. Fui tradutora de alemão na Molaflex durante o meu primeiro ano de trabalho, acompanhei três operários que foram especializar-se em máquinas de fazer molas para estofos de carros, em Saint Gallen, na Suíça Alemã. Além disso, sempre convivi com vários emigrantes portugueses noutros países. Acompanhei, mais tarde, muitos emigrantes em viagens de comboio ou de autocarro para a Alemanha, apenas com a função de os ajudar como intérprete e assistente social, sem qualquer remuneração. Eduquei filhas de emigrantes, tendo uma delas vivido comigo durante anos. Empresária da indústria química, reside hoje em Berlim, é licenciada em química e doutorada em várias faculdades estrangeiras. Traduzi muitas cartas e relatórios legais ou médicos, porque o próprio consulado nessa altura não o fazia. Dei aulas num liceu em Herdecke, onde convivi com alunos e pais de várias nacionalidades, incluindo portugueses. Apercebi-me dos seus problemas de integração, das suas condições de vida, das suas lutas, sonhos e frustrações. Tudo isto para dizer que conheci por dentro e por fora a vida do emigrante com o realismo suficiente para sentir alguma legitimidade ao falar deste assunto.

O grande problema dos emigrantes está nas diferenças. A diferença de língua, de costumes, de religião e, infelizmente ainda, da cor da pele. A diferença gera a dificuldade de interação, leva ao isolamento, quase sempre em guetos, em condições deploráveis. O isolamento, por sua vez, leva à desconfiança, ao ódio, ao crime, à recusa à própria integração, o que humanamente é compreensível. Ninguém gosta nem quer abdicar dos seus costumes, dos seus hábitos, dos seus gostos e dos seus rituais. Porém, a minha experiência levou-me à convicção de que temos todos a lucrar neste intercâmbio, nesta partilha de saberes, de vivências, neste multiculturalismo. É óbvio que tudo leva o seu tempo e continuo a acreditar que é na tolerância, no bom senso, no saber aceitar a diferença do outro que reside o grande progresso da humanidade.

Hoje, somos um país de imigrantes, mas continuamos a ser também um país de emigrantes, emigrantes de outra escala, de outra casta e com outras condições e ambições. Já não é o emigrante analfabeto ou quase analfabeto, com a mala de cartão, mas o emigrante licenciado, doutorado que parte não só por razões económicas, mas também para desenvolver o seu trabalho e o seu talento. Somos, como disse, um país de imigrantes, de quem precisamos e que mais do que ninguém temos obrigação de acolher, não só como seres humanos iguais a nós, mas também como refugiados de guerras e explorações coloniais das quais não estamos inocentes. Por todo o país e também em S. João da Madeira apercebemo-nos de que há uma quantidade enorme de brasileiros, africanos, cabo-verdianos, indianos, italianos, pessoas dos Países de Leste que habitam, que trabalham e estudam nesta cidade. Tenho a convicção de que são bem acolhidos pela população em geral, quer no trabalho quer nas escolas e congratulo-me com essa constatação.

O meu penúltimo livro “O Leperchaun e a Bailarina”, que o Jornal Labor teve a generosidade de editar, tem como pano de fundo essa realidade da emigração dos anos sessenta, onde muitas vidas de emigrantes se misturam sem que as personagens se identifiquem. Cada uma delas não pretende ser mais do que um elo de ligação à realidade da emigração nos anos sessenta. Porém, é também uma homenagem à luta pelo sonho que, mesmo no meio de tanta adversidade, pode levar, como descreve o livro, à conquista de uma das mais nobres ambições e realizações do ser humano, a Arte.

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