CARTA DE BRAGA – “da liberdade ao futebol” por António Oliveira

Não parece haver dúvidas para ninguém, que o mundo todo está a viver, há já alguns anos, um período de sucessão de crises, mais ou menos ligadas entre si, talvez dependentes, cujos ‘senhores’ são os mesmos ou obedecem aos mesmos princípios, com dimensões que nem serão transitórias nem excepcionais, antes vão mudando de lugar, de ‘actores’ ou de ‘executantes’, para que, amainando uma, se dê origem a outra, mas de modo que os media, com ou sem ecrãs, possam até falar de normalidade, salientando o papel apaziguador de tais ‘senhores’.

Aliás o filósofo e sociólogo Daniel Innerarity, garantiu recentemente, ‘Não creio que esteja exagerando quando digo que não estamos preparados para viver e governar um mundo onde não haja crise, mas sim uma crise crítica, onde sociedades e governos vivam em meio a uma instabilidade maior do que são capazes de administrar’.

As origens destas crises globais, sociais, institucionais, governamentais, com tais ‘senhores’ que vêm impérios onde deviam ver povos, quando aquela proclamação com mais de duzentos anos e, na altura revolucionária, ‘liberdade, igualdade, fraternidade’, até conheceu ganhos importantes no que se refere à liberdade, mas bem diminutos quando falamos em igualdade e fraternidade, olhando para qualquer lado, dentro ou fora de portas (e já lá vão cinquenta anos!).

Se recuarmos um pouco e evocarmos aquela comparência conjunta na Sala Oval da casa branca –do Filho do musk às costas do pai, devidamente equipado com um barrete preto da MAGA, com o trumpa sentado e expectante, na secretária que ainda lhe pertence– temos a noção perfeita de como aquela proclamação já nem existe, com e pelos ‘testemunhos vivos e a cores’ dos candidatos a imperadores, ditadores, reizinhos, autocratas, e outros ápodos parecidos, em todos os continentes, aliás os ‘senhores’ das cinquenta e tantas guerras hoje no mundo.

Tudo isto, mesmo sem falar nos massacres, incêndios e outros dislates devidamente programados, para acabar com gente, suportes e amparos em faixas e regiões, para depois, virem a ser ocupadas tendo em vista gerar lucros, satisfazer ódios de toda a qualidade, além de conseguirem mais uns furos no cinto das calças de tais mandantes, e um volume maior na saca dos seus porta-cartões, o descendente do porta-moedas.

Mas o ainda mandante da Sala Oval, também sabe bem quem é e o que representa, desde a quantidade de mentiras e contradições em que cai todos os dias, como na teima em ser fotografado ou pintado só com ‘cara de mau’, em governar por impulsos sempre escritos à mão e com letras tamanho garrafa Coca Cola de litro e meio, como se estivesse a desenhar o tempo e o futuro à sua maneira e a seu gosto.

Amorim, ‘XTrump’

‘Le Monde’’, 25.03.25

O tipo do barrete preto (sem filho às costas) mas com a ambição de um capitalismo sem limites e sem travões, a pôr em perigo toda e qualquer ideia de democracia, mais o trumpa que retirou o apoio à Organização Mundial de Saúde, ao Acordo de Paris sobre o clima, à previdência social, à cultura e ciências a nível interno, formam uma dupla terrível que pode levar este planeta por caminhos sem qualquer avaliação.

Caminhos complicados e muito perigosos, mesmo contrabalançados ou até ‘ajudados’ pelos outros candidatos já referidos atrás, a menos que este mundo venha a compreender a importância da “igualdade” e da “fraternidade”, os dois outros termos daquela proclamação, nascida em 1789, nas ruas de Paris.

Volto a Daniel Innerarity, apenas para salientar mais uma das suas afirmações, ‘A coincidência entre quem causa a crise e quem a deveria resolver é o verdadeiro problema’.

Pensem neles (candidatos) todos, aqui ou lá fora, pensem no que eles deveriam fazer e quase nunca fazem, pelos motivos mais diversos, mesmo com ‘fotinhas’ e outras invenções, gravem os nomes nos vossos pensamentos, não se incomodem com isso, mas lembrem sempre que, nestas coisas, não se pode agir como se tratasse de clubes de futebóis.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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