Nuno Guerreiro – por Carlos Pereira Martins

Nuno Guerreiro com Carlos Pereira Martins

 

Nuno Guerreiro

por Carlos Pereira Martins

 

Que se passa? Tanta gente e neste caso, na flor da idade, a partir? Ainda há pouco tempo me telefonou do Algarve onde vivia, em Loulé, para saber da minha saúde. Estou chocadíssimo, tanta coisa má nos últimos dias!

Partiu o Nuno Guerreiro, e com ele calou-se uma das vozes mais singulares e emocionantes da música portuguesa. A notícia do seu falecimento deixou-nos num silêncio pesado, desses que só a ausência dos grandes consegue provocar. Porque o Nuno era, de facto, um dos grandes. Um artista maior, mas também um ser humano de uma sensibilidade rara.

Desde os tempos dos Ala dos Namorados, a sua voz de Contralto— tão inconfundível quanto comovente — foi um sopro de beleza no panorama musical português. Cantava como quem chora por dentro, como quem ama com todas as fibras do corpo, como quem conhece a alma humana e a devolve ao público em forma de canção. Não havia nele truque nem vaidade excessiva: havia entrega, verdade, e uma pureza que não se ensina.

Nuno Guerreiro

O Nuno Guerreiro cantava com o coração exposto, e é por isso que entrou, sem pedir licença, nos nossos. Com ele, as palavras ganhavam outra densidade — fosse num tema original ou numa interpretação de um clássico, ele dava-lhes sempre uma vida nova, como se as tivesse vivido todas na pele. Era essa empatia artística que o distinguia: uma capacidade quase mágica de transformar dor em beleza, fragilidade em força, silêncio em canto.

Mas o Nuno era mais do que a sua voz. Era uma alma generosa, um homem de uma gentileza desarmante, um amigo leal, um profissional exemplar. Nunca quis protagonismos fáceis. Preferia o caminho da verdade e da emoção. E foi por aí que nos conquistou. Fez da música um abrigo, uma casa para quem se sentia diferente, para quem procurava consolo, para quem precisava de sentir.

Hoje choramos o homem, o artista, o amigo. Mas também celebramos a herança que nos deixa: canções que hão-de continuar a embalar-nos, a emocionar-nos, a lembrar-nos que a beleza existe, mesmo quando o mundo parece não merecê-la.

Nuno, levas contigo uma luz única, mas deixas-nos o eco eterno da tua voz. Que a terra te seja leve e que o céu te receba com a mesma delicadeza com que tu nos cantaste.

Descansa em paz, Guerreiro da emoção. A tua música ficará connosco. Para sempre.

 

Leave a Reply