Dividir o Mundo a Três: EUA, China e Rússia na Nova Geopolítica Global
por Carlos Pereira Martins
Estamos a viver um tempo em que a História, longe de ter terminado como vaticinou Francis Fukuyama, parece ter regressado em força. As grandes potências do século XXI — Estados Unidos da América, República Popular da China e Federação Russa — não escondem o seu apetite geoestratégico. Cada uma, à sua maneira, procura influenciar, moldar ou mesmo controlar partes significativas do mundo, traçando novas fronteiras de influência que nos remetem para uma espécie de “partilha informal” do globo, sem mapas nem tratados, mas com alianças, infra-estruturas e algoritmos.
O império fatigado: os EUA em modo defensivo
Durante décadas, os Estados Unidos definiram os parâmetros da ordem mundial: promovendo o livre comércio, institucionalizando a democracia liberal, assumindo o papel de polícia do mundo. As suas bases militares espalhadas pelo planeta e o predomínio do dólar confirmaram esse estatuto hegemónico. Mas a erosão é visível.
Internamente divididos e internacionalmente mais cautelosos desde as fracassadas intervenções no Médio Oriente, os EUA começam a agir mais por reacção do que por iniciativa. A postura “America First” inaugurada por Trump — e, em parte, mantida por Biden — assinala a transição de uma potência extrovertida para uma nação defensiva, ocupada em preservar os seus interesses e travar os avanços alheios, nomeadamente da China.
A China: silenciosa, mas determinada
A República Popular da China não caiu na tentação de imitar o modelo ocidental. Em vez disso, aprimorou o seu próprio caminho: um Estado autoritário com uma economia híbrida e altamente competitiva. Não são os tanques que a China mobiliza — são os contentores. Através da monumental Iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota”, Pequim reconstrói as antigas rotas da seda com auto-estradas, portos e linhas ferroviárias gigantescas e ultra modernas, a altíssima velocidade sobre carris. O objectivo é claro: tornar-se o centro económico da Eurásia e da África.
Mas a ambição é mais funda. A China quer também definir os padrões tecnológicos do futuro. Lidera em inteligência artificial, domina a produção de painéis solares, redes 5G e veículos eléctricos. E fá-lo com um discurso civilizacional que recusa a universalidade dos valores ocidentais. A proposta é outra: prosperidade sem assumir a democracia liberal, crescimento económico sem pluralismo político. E muitos países do Sul Global prestam-lhe enorme atenção!
A Rússia: força bruta e revanche histórica
Se a China avança com investimentos e algoritmos, a Rússia joga com a imprevisibilidade e a força militar. O regime de Vladimir Putin assume-se como potência, agora sim, verdadeiramente revisionista: quer redesenhar o mapa da Europa, contestar a expansão da NATO e restaurar a influência eslava nos Balcãs, no Cáucaso e na Ásia Central.
A guerra na Ucrânia é o exemplo mais explícito desta postura. Ao contrário de Pequim, Moscovo prefere muito mais desestabilizar do que integrar. Utiliza o gás como arma, apoia grupos extremistas, manipula a informação. E sabe que, apesar das sanções, há sempre quem esteja disposto a negociar, desde que o preço compense.
A Rússia actual não tem o músculo económico da China nem a sofisticação diplomática dos EUA, mas possui um trunfo que muitos subestimam: a capacidade de perturbar. No xadrez global, é o jogador que não hesita em derrubar peças — ou virar o tabuleiro.
Um mundo em três velocidades
Esta “tripla partilha do mundo” não se faz por tratados de paz ou conferências diplomáticas. Faz-se por zonas de influência construídas aos poucos: com acordos bilaterais, infra-estruturas estratégicas, redes de dados, dependências energéticas, e — não menos importante — narrativas concorrentes sobre o que deve ser o mundo.
Os EUA continuam a promover uma ordem liberal baseada em regras — mas já não conseguem garantir que essas regras sejam aceites. A China propõe uma alternativa tecnocrática e eficiente, sem exigências democráticas. E a Rússia desafia a própria ideia de ordem, preferindo a fragmentação e a instabilidade como tácticas de sobrevivência e afirmação.
No meio desta disputa, a Europa debate-se com a sua irrelevância estratégica. Muito dividida, com líderes fracos e pouco decididos a mudar de posturas, a UE hesitante e dependente, não parece capaz de afirmar um caminho autónomo. O mesmo se pode dizer de outras potências regionais, como a Índia ou o Brasil, que ora se alinham com uns, ora com outros, sem uma estratégia convincente.
Para onde caminhamos?
Estamos perante um mundo a três velocidades, onde cada potência projecta a sua visão sem um árbitro comum. E isso é preocupante. Sem instituições robustas, sem canais eficazes de diálogo e com arsenais nucleares activos, o risco de conflito directo ou por procuração aumenta.
A ordem liberal que garantiu décadas de relativa estabilidade está em mutação — e não se vislumbra ainda o que a poderá substituir.
A pergunta que se impõe não é apenas “quem vai ganhar esta corrida?”, mas antes: “o que acontecerá ao mundo enquanto os três correm em direcções opostas?”. Ao que nos irá levar esta corrida aos zigue-zagues ?
Referências Bibliográficas Sugeridas
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Kissinger, H. (2014). World Order. Penguin Press.
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Fukuyama, F. (1989). The End of History? The National Interest, Summer.
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Mearsheimer, J. (2014). The Tragedy of Great Power Politics. W. W. Norton & Company.
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Nye, J. S. (2004). Soft Power: The Means to Success in World Politics. Public Affairs.
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Allison, G. (2017). Destined for War: Can America and China Escape Thucydides’s Trap? Houghton Mifflin Harcourt.
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Lukin, A. (2018). China and Russia: The New Rapprochement. Polity Press.
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Waltz, K. (1979). Theory of International Politics. McGraw-Hill.

